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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Se tuítar, não beba (entre outras coisas)

Por: Pedro Fonseca

 

Um grupo de investigadores norte-americanos estabeleceu uma relação entre o consumo de álcool e o envio de mensagens no Twitter. Em resumo, é conveniente não beber quando se acede a esta rede social (e outras), ou poderá ser-se registado numa nova técnica de análise em tempo real do comportamento humano.

 

 

 

Ao contrário dos grupos de ajuda, que apenas sabem dos problemas quando os alcoólicos se lhes dirigem, ou dos inquéritos porta-a-porta (demorados e com atraso na análise das respostas), o uso do Twitter permite inferir dados a partir da própria habitação do utilizador - o que "antes era impraticável", dizem os investigadores da universidade norte-americana de Rochester responsáveis peloestudo "Inferring Fine-grained Details on User Activities and Home Location from Social Media: Detecting Drinking-While-Tweeting Patterns in Communities".

 

Os seis investigadores usaram técnicas de aprendizagem por máquina ("machine learning") para detectar a emissão em tempo real de mensagens no Twitter e analisaram a correlação com o consumo de bebidas alcoólicas numa cidade (Nova Iorque) e numa localidade rural (Monroe County), mais a norte mas ainda no estado de Nova Iorque. Os dados de medição utilizados pertencem a uma nova categoria - a das mobimétricas - e deixam antever todo um novo mundo de análise de comportamentos mediante dados de mobilidade e localização que os nossos smartphones disponibilizam.

 

Ao contrário de outros estudos sobre actividades nas redes sociais e dados de geolocalização, os autores usaram novos métodos de "machine learning" para refinarem "a localização de actividades e dos lares", a partir de dados do Twitter. Descobriram assim padrões de consumo de álcool entre uma grande e uma pequena localidade, baseando-se nos utilizadores do Twitter e na "densidade" das lojas de venda ou locais de consumo de bebidas alcoólicas, com uma fiabilidade de até 80%.

 

A análise, que juntou elementos dos departamentos de ciências da computação e da medicina, deu diferentes pesos negativos ou positivos a denominadores nas conversas no Twitter, como "bêbado" ou "cerveja", "vinho" ou "ressaca". Esses termos eram igualmente confrontados com cerca de 50 expressões ligadas ao lar, como "sofá" ou "TV", "banho" ou "sono". Em resultado desta investigação, foi possível  perceber que em Nova Iorque os utilizadores do Twitter usam a rede social em casa ou numa distância até 100 metros, enquanto em Monroe County isso ocorria a mais de um quilómetro. "A capacidade de detectar casas e localizações onde os [consumidores de álcool] tuítam permite-nos comparar o consumo em casa e fora", dizem. E perceberam que numa grande cidade - proporcionalmente com mais lojas de venda de bebidas alcoólicas ou bares -, elas são mais consumidas, até porque nesse tipo de ambiente, com "mais pessoas a socializarem, é provável existir uma maior taxa de consumo de bebidas".

 

Esta equipa de investigação considera que a análise do Twitter para "estudos geo-espaciais do comportamento humano", no consumo de álcool, exercício físico, doenças ou mesmo depressão "não tenta distinguir meras menções de actividades ou estados de registos de actividades" feitos pelos próprios utilizadores, embora os métodos usados possam ser replicados para outro tipo de comportamentos, ou "contextos virtuais sociais", nomeadamente na investigação de dados da saúde pública - até pela divulgação pública dos utilizadores do Twitter sobre os seus consumos de álcool ou de drogas, por exemplo.

 

Apesar de os utilizadores do Twitter fornecerem dados refinados e ubíquos, eles não servem como uma "amostra representativa da população geral", porque normalmente esta rede social não é muito usada por jovens ou por algumas minorias, salienta o estudo. No entanto, até estes desvios analíticos - que sucedem em qualquer análise estatística - podem ser comparados (e corrigidos), tendo em consideração a recolha de dados muito mais exigentes, como os censos, em que a margem de erro é semelhante, afirmam.

 

Em paralelo, este tipo de estudo pode ser replicado para outras redes sociais, como o Facebook, dado que a metodologia em pouco difere, desde que se obtenha acesso aos dados dos utilizadores, eles sejam agregados e daí extraídos potenciais resultados. Foi o que sucedeu na China.

 

A Google da China consegue prever empregos e consumo

 

A agregação de uma enorme quantidade de dados em "contextos virtuais sociais" ou pela geolocalização permite análises não apenas do que aconteceu, mas também do que pode vir a acontecer. O maior motor de busca chinês usou-os de forma inovadora para prever as actividades de consumo e de empregos - exemplificando o que outras empresas como o Facebook, a Google ou operadoras telefónicas podem fazer com os dados móveis dos utilizadores.

 

A Baidu, também conhecida como o Google da China, registou diferentes locais em todo o país, de escritórios a centros comerciais, usando a sua aplicação Baidu Maps, para depois usar a geolocalização fornecida pelos registos dos seus milhões de clientes. Conseguiu assim verificar onde estavam os utilizadores, quantos e em que momento, desde o final de 2014 até este ano.

 

Os dados recolhidos representam uma fotografia da sociedade chinesa e uma excelente notícia para os investigadores da área de análise de grandes dados (Big Data), sintetizava a revista New Scientist. Para Yves-Alexandre de Montjoye, do Data Science Institute no Imperial College de Londres, trata-se de uma "tendência encorajadora ver que [os investigadores chineses] estão a ser abertos sobre a investigação que realizam", mas questiona o "poder" das grandes (e em reduzido número) empresas com acesso a este tipo de dados.

 

Os investigadores chineses introduzem no estudo "Measuring Economic Activities of China with Mobile Big Datao novo conceito de "mobimétrica" ("mobimetrics", contração de "mobile" e de "metrics"), que visa "quantificar as dinâmicas de um sistema social ao analisar enormes dados individuais de mobilidade gerados pelos smartphones" ou outros dispositivos móveis, incluindo carros autónomos, com aproximações de "machine learning", o que pode "mudar a paisagem" da economia e das ciências sociais.

 

A questão não é se certo tipo de métricas seriam ou não obtidas, mas a rapidez com que são conseguidas através da movimentação dos utilizadores dos smartphones. Por exemplo, os investigadores puderam registar o encerramento de uma grande fábrica de calçado em Dongguan, no sudeste da China, no primeiro trimestre deste ano, após verificarem uma "queda abrupta no número de funcionários". O mesmo sucedeu noutro exemplo com uma fábrica de telemóveis na província de Jiangsu, encerrada no final de 2015.

 

No entanto, os dados também mostram crescimento de empregos num parque de software em Pequim, com "muitas empresas de software", que quase duplicou desde 2014. Também na capital chinesa, analisa-se o "rápido crescimento" de funcionários numa "start-up", que disparou após ter recebido um elevado investimento no segundo trimestre de 2015.

 

Os registos de "milhares de milhão de dados de geoposicionamento" possibilitaram ainda à Baidu a criação de três índices - de emprego, de consumo e de tendências de consumo. No primeiro caso, conseguiram detectar como as posições em fábricas tradicionais diminuíram, ao contrário do que sucedeu nos empregos tecnológicos.

 

No consumo, anteciparam "volumes de tráfego" de consumidores para as lojas da Apple ou de fraude e receitas nos cinemas, com "resultados satisfatórios", o que facilitou a criação do último índice para as tendências de consumo. Este antecipa despesas em várias indústrias, como vendas de carros, restaurantes, investimentos financeiros ou no turismo, dizem os investigadores.

 

Ao serem "os primeiros a medir a segunda maior economia [do mundo] pela mineração de dados numa escala sem precedentes", salientam que - apesar de não existirem "estatísticas paralelas nos relatórios governamentais" - não querem "substituir as estatísticas tradicionais baseadas em inquéritos, mas complementar esses indicadores". Até porque, salientam, os dados móveis são menos usados por crianças ou idosos, desvirtuando a fiabilidade da análise estatística.

 

O que deixam a perceber é que "a Internet móvel, especialmente os serviços de localização, são ubíquos nos nossos dias: de cada vez que abrimos uma aplicação, procuramos um restaurante, verificamos a estrada e o tráfego, alugamos um carro usando uma aplicação, usamos o mapa de navegação móvel, a localização do utilizador é registada através de várias tecnologias de posicionamento, gerando maciços dados de rastreamento" derivados dessa mobilidade.

 

É este uso da "mobimétrica", das técnicas de analítica para Big Data e da "machine learning" que agilizam a correlação entre o consumo de álcool e o envio de tuítes, por exemplo. Os "dados móveis têm uma maior cobertura, mais estruturada e robusta", o que permite "medir os comportamentos ao nível individual numa forma mais directa". Ou seja, o futuro interligado dessas tecnologias ainda agora começou.

publicado às 11:24

Eles querem tornar o sarcasmo online mais fácil de entender

Por: Pedro Fonseca

 

Investigadores portugueses e dos EUA desenvolveram uma rede neuronal para a detecção automática do sarcasmo nos media sociais. O modelo é mais fiável do que outros semelhantes, que usam a análise manual para obter resultados quase semelhantes.

 

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O sarcasmo nas redes sociais já pode ser detectado automaticamente, segundo um grupo de investigadores de Portugal e dos EUA, que desenvolveram um modelo de análise informática para entenderem o que pode ser um potencial enorme negócio. Silvio Amir, Paula Carvalho e Mário Silva, do INESC-ID Lisboa e do Instituto Superior Técnico (Universidade de Lisboa), com Byron Wallace e Hao Lyu, da Universidade do Texas em Austin (EUA), explicam em "Modelling Context with User Embeddings for Sarcasm Detection in Social Media" como criaram uma "rede neuronal" para a detecção automática do sarcasmo nas interacções em redes sociais, baseando-se na informação contextual de publicações anteriores dos autores.

 

A investigação incidiu na rede social Twitter e os investigadores apenas puderam, devido a restrições técnicas desta rede social, ter acesso a mil tuítes de cada utilizador, acabando por analisar 11.541 tuítes de 12.500 diferentes utilizadores.

 

No seu trabalho, os autores citam a definição do sarcasmo como um "caso especial de ironia", em que o seu "sentido literal é entendido como um insulto indirecto" - mas consideram que, "tal como outras formas de expressão subjectiva", os termos são difíceis de definir.

 

No caso das redes sociais, a questão não é a análise fraseológica - "uma exacta mesma frase pode ser interpretada como literal ou sarcástica" - mas depende de quem formula ou escreve com sarcasmo, assim como de um "terreno comum entre partes para ser entendido". Ao analisarem "o contexto" - ou seja, o autor - conseguem "ganhos significativos na precisão" dessa análise.

 

Apesar de assumirem que o trabalho não é inovador, por já existirem outros sistemas de análise de media sociais baseados no contexto passado do utilizador, o problema com estes últimos é a necessidade de terem funcionalidades complexas de classificação manual e a "incapacidade para detectar de forma fiável e interpretar linguagem figurativa".

 

Segundo os investigadores, "isto é particulamente relevante em domínios como as ciências sociais e políticas, em que o uso de dispositivos de comunicação figurativa como a ironia verbal (ou, de outra forma, o sarcasmo) é comum". Como explicava a TechCrunch, "a mesma exacta frase e pontuação podem significar coisas muito diferentes provenientes de diferentes pessoas. Imagine-se, por exemplo, a frase "Make America great again" a ser escrita no Twitter por um apoiante de Trump e por quem se opõe a ele. As mesmas palavras, [mas] significados completamente diferentes".

 

Perante um recente modelo de análise semelhante, mas manual, os investigadores asseguram conseguir uma "fiabilidade absoluta" de 87%, ou 2% acima dos modelos concorrentes. Por outro lado, acreditam que o seu modelo será "mais fácil de desenvolver noutros diferentes ambientes de media sociais".

 

Também a revista New Scientist demonstrava que, sem a ajuda de uma "hashtag" (classificador de expressões, como #ironia), analisar o "sarcasmo online pode ser difícil, mesmo para os seres humanos", pelo que para os computadores "é muitas vezes uma grande dor de cabeça". Mas é "um grande negócio", quando os "anunciantes publicitários registam as atitudes e estados de espírito das pessoas, [e] as empresas e os governos acompanham a opinião pública".

 

Assim, perceber o que realmente é dito nas redes sociais - sem as potenciais armadilhas irónicas - torna-se um desafio. E um potencial negócio.

 

O modelo, além de funcionar noutras redes sociais, também pode ser usado para diferentes línguas. E, como explicava Mark Carman, da australiana Monash University, será relativamente fácil integrar este modelo na análise emotiva dos utilizadores de redes sociais, tendências bolsistas, na análise de marcas e de apoio a clientes, ou em assistentes virtuais como o Siri.

 

Em resumo, "diga-me do que fala e eu posso dizer quem você é", explicava Silvio Amir à New Scientist.

 

O estudo, será apresentado amanhã, 11 de Agosto na conferência CoNLL, organizada pelo SIGNLL (Special Interest Group on Natural Language Learning) da Association for Computational Linguistics, em Berlim (Alemanha).

 

 

Créditos de imagem: http://time.com/3966291/donald-trump-insult-generator/

publicado às 21:33

A 'showciedade': há uma epidemia de narcisismo?

Por: Helena Oliveira

 

O narcisismo parece estar a contaminar as sociedades ocidentais como se de uma epidemia se tratasse. Os nossos egos estão, de acordo com vários estudos, a engordar a um ritmo bem mais acelerado do que a obesidade física, ela própria decretada como um dos grandes problemas das sociedades ocidentais. Ou seja, temos egos demasiado gordos. Culpa dos pais indulgentes, que transmitem aos filhos a ideia de que são “mais especiais do que os outros”, das redes sociais por proporcionarem o palco por excelência para quem procura exibir a sua grandiosidade ou apenas um “novo normal” ao qual nos temos de habituar?

 

 A modelo Gigi Hadid faz a vontade aos fãs e cumpre o ritual da selfie

 

Recordar-se-á o leitor de um famoso anúncio a uma marca que, há mais de uma década, questionava “se eu não gostar de mim, quem gostará”? E, se puxar pela memória, talvez se lembre também que, passado uns anos, a mensagem da mesma marca se inverteu e o slogan passou a ser “se eu gostar de mim, quem não gostará?”.

Pois bem, a ideia de este artigo não é a de escrever sobre mensagens subliminares veiculadas pelo admirável mundo da publicidade, mas a de alertar para um debate, que não sendo propriamente novo, tem vindo a ganhar contornos renovados com a emergência de uma sociedade em que o narcisismo – ou uma visão crescentemente insuflada do “eu” – parece estar a impregnar-se, crescentemente, em todas as suas esferas.

 

Poderíamos já saltar diretamente para o mundo virtual e culpar, de imediato, as redes sociais – que tão bem veiculam, 24/7, manifestações egocêntricas constantes – mas isso seria escolher o atalho antes de percorrer pelo menos uma boa parte do caminho. Sim, é verdade que ao longo dos últimos anos, e em particular com o advento do Facebook, do Twitter e do Instagram, se multiplicaram os estudos, e a literatura, no que respeita à tentativa de se estabelecer uma ligação direta entre o aumento do narcisismo e os media sociais. Mas, e como defendem também outros “especialistas” da praça, estes servem apenas de meios privilegiados e imediatos para expressar tendências narcísicas preexistentes. E sim, lá iremos, mas não antes de tentar dar uma ordem minimamente cronológica ao assunto.

 

Há já várias décadas, e em particular a partir dos anos 70 e 80 do século passado, que antropólogos, sociólogos e outros “ólogos” afins se uniram na caracterização da sociedade ocidental como “individualista”, fazendo correr rios de tinta sobre o fenómeno. É, no entanto, sobretudo no final do século XX e inícios do século XXI que uma mudança cultural mais alargada, envolvendo valores, crenças e práticas bem demarcadas, se pôs em marcha, e acelerada, no sentido do que já é defendido por vários pretensos entendidos no assunto como a “sociedade obsessivamente narcísica” ou a “epidemia do narcisismo”.

 

quais são as implicações psicológicas e éticas de um envolvimento constante, ou de uma verdadeira obsessão, com a vida passada num palco e à vista de todos

 

Para vários investigadores, uma reflexão sobre este narcisismo aparentemente descontrolado é de particular importância, e há duas perguntas que importa fazer: quais são as implicações psicológicas e éticas de um envolvimento constante, ou de uma verdadeira obsessão, com a vida passada num palco e à vista de todos e de que forma é que este fenómeno altera os nossos relacionamentos com os outros e a visão que temos de nós próprios.

 

Fome emocional ou verdadeiro amor?

 

Para alguns observadores, o fardo é colocado em cima dos ombros dos “novos pais”, que não se limitam a encorajar os seus filhos a alcançarem um saudável autoconhecimento. A título de exemplo, o psicólogo clínico Robert Firestone, no livro “The Self Under Siege: A Therapeutic Model for Differentiation”, afirma que para as crianças se sentirem seguras e terem confiança em si mesmas, é essencial que os pais saibam distinguir a “fome emocional” do verdadeiro amor. Este amor parental “genuíno” inclui carinho, afeição e uma sintonia no que respeita às necessidades das crianças, bem como a oferta de orientação e controlo quando apropriado. Ou, em suma, o tipo de amor que ajuda as crianças a desenvolver uma verdadeira autoestima e não traços de personalidade narcisistas.

 

 

Kevin Frazier, Daniela Ruah, Eric Christian Olsen, James Wolk, e Kirsten Vangsness não resistiram à selfie de grupo na última edição da Comic-Con.

 

Por outro lado, o debate extrema-se entre os que pretendem culpar a Internet e a sua capacidade para customizar as experiências que nela se tem de acordo com os nossos mais ínfimos desejos, o que nos pode tornar mais narcisistas, e os que defendem que esta constitui apenas o terreno apropriado para que traços preexistentes de narcisismo atinjam o seu esplendor.

 

Elias Abajoude, professor de psiquiatria em Stanford, escreve no livro “Virtually You: The Dangerous Powers of the E-personality”, que no espaço virtual muitas das interações físicas que restringem certos tipos de comportamento desaparece, permitindo que comportamentos como delírios de grandeza, narcisismo, malícia ou impulsividade venham mais facilmente ao de cima. Ou seja, “os traços [de personalidade] de que gozamos online podem ser incorporados nas nossas personalidades offline”.

 

De uma forma ou outra, e independentemente das “correntes”, o único consenso aparente parece residir no aumento do narcisismo no mundo ocidental. Resta saber se nos devemos preocupar seriamente com o mesmo ou se estamos, somente, a viver um “novo normal”.

 

Engordar o ego desde pequenino

 

A ideia de que o narcisismo não só está a aumentar descontroladamente, como está a tomar a forma de uma epidemia está bem expressa num livro, publicado em 2009, intitulado exatamente “The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement” e escrito em co-autoria por Jean Twenge, doutorada em Psicologia, professora na Universidade de San Diego e autora do best-seller “Generation Me” e por W. Keith Campbell, também doutorado em Psicologia, docente na Universidade da Georgia e considerado como um dos maiores especialistas neste transtorno comportamental.

 

mulheres jovens palestinos tomar selfies durante confrontos com as forças de segurança de Israel na sequência de uma marcha contra a confiscação de terras da Palestina em 15 de abril de 2016 na vila do banco ocidental de Nabi Saleh perto de Ramallah .

 Palestiniana tira uma selfie no meio de confrontos com as forças de segurança de Israel

 

O livro, que retrata esta “distúrbio” como uma praga, avaliou 37 mil estudantes universitários e concluiu que os traços de personalidade narcísica estão a aumentar de uma forma tão rápida quanto os níveis de obesidade (em mais de 50% desde 1980), sendo esta uma das razões que levou os autores a considerarem o narcisismo como uma “doença epidémica”, numa espécie de “egos demasiado gordos”. O livro, que gerou bastante polémica e descrença q.b. por parte da comunidade académica –ao comparar décadas de resultados de testes de personalidade, Twenge concluiu que as gerações mais novas - nomeadamente a Y - são abusivamente privilegiadas, obcecadas por si mesmas e mal preparadas para a vida real – contribuiu, contudo, para estimular, ainda mais , o debate sobre o narcisismo.

 

Culpando a “cultura americana da autoestima exacerbada”, na qual todos os pais se esforçam por assegurar que as suas crias são “especiais” e cujos sentimentos de valor individual e “único” são considerados como pré-requisitos para o sucesso e não o resultado do mesmo, os autores desmontam os mitos prevalecentes que parecem indicar uma tolerância e até um encorajamento social do narcisismo: a de que este é um mecanismo próprio de uma autoestima elevada, ou, ao invés, de uma autoestima reduzida, de que um pouco de narcisismo é saudável e não faz mal a ninguém, de que os narcisistas são, na verdade, “superiores” e mais facilmente atingem o “sucesso” ou, e voltando ao anúncio que abriu este texto, de que temos de nos amar a nós próprios, em primeiríssimo lugar, para sermos capazes de amar os outros.

 

Tudo isto está presente na nossa cultura, defendem, e começa de imediato na tenra infância – parece que comprar t-shirts estampadas com a palavra “princesa” ou o seu correspondente masculino não constitui ação abonatória para os pais modernos. Para os dois psicólogos, as crianças de hoje crescem num mundo de aceitação “normal” de comportamentos e valores narcisistas, sendo que são muitos os pais e educadores que se esforçam por convencer os filhos de que estes são únicos e especiais, elogiando-os a toda a hora, satisfazendo todos os seus caprichos e conferindo-lhes grandes doses de poder.

 

crianças que cresceram a sentirem-se mais especiais do que os seus pares, acabam por se transformar em adultos que esperam, simplesmente, atingir o “sucesso” fácil e rapidamente – em conjunto com a fama e com o dinheiro que lhe é inerente 

 

Ora, e de acordo com Twenge e Campbell, incutir nas crianças este sentimento de unicidade nada mais é do que narcisismo puro e o mesmo chega a situações tão ridículas quanto o facto de 223 crianças nascidas na Califórnia nos anos 90 terem sido batizadas como Única(s), de existirem estabelecimentos do ensino pré-escolar que instituem o”Mês do Tudo Tem a Ver Comigo”, de alguns clubes de desporto infantil terem acabado com os resultados nos jogos, para não amolgarem os egos dos perdedores ou, no extremo oposto, de oferecerem troféus a todos os miúdos, só porque estão numa equipa. E, muito por causa disso, são também cada vez mais os estudos que comprovam que as crianças que cresceram a sentirem-se mais especiais do que os seus pares, acabam por se transformar em adultos que esperam, simplesmente, atingir o “sucesso” fácil e rapidamente – em conjunto com a fama e com o dinheiro que lhe é inerente – que se ofendem à mínima afronta relativamente à sua suposta superioridade e que, de forma rotineira, se consideram a exceção de qualquer que seja a regra.

 

Narciso, Freud, Ayn Rand, Greenspan, Breivick e Lance Armstrong?

 

Mais recente, num registo diferente, mas com algumas temáticas em comum, é o livro “The Life of I: The New Culture of Narcissism”, publicado em 2014 por Anne Manne, jornalista australiana e filósofa social, que cita igualmente um corpo crescente de pesquisa que demonstra o aumento do culto do narcisismo nos países ocidentais. Por exemplo, e tendo mais uma vez os estudantes universitários dos Estados Unidos como universo privilegiado de estudo, a autora garante que são cada vez mais os jovens que elegem a fama e a fortuna como os seus principais objetivos de vida e não, por exemplo, o bom caráter e o bem que faz fazer bem aos outros, mais consentâneos com as gerações mais velhas. Para a jornalista, o ‘umbiguismo’ atual está, também, a tornar-se num “novo normal”. E, em sintonia com Twenge e Campbell, também Anne Manne concorda que o narcisismo é estimulado por pais indulgentes, que não sabem estabelecer limites e que incutem nos filhos um sentimento de autoestima exagerado.

 

Apesar de o narcisismo ser terreno propício ao estudo por parte de psicólogos e psiquiatras, esta jornalista, mas também filósofa social, sempre se interessou por este “distúrbio de personalidade” e, no livro em causa, não só revisita as ideias de autoridades na matéria, como por exemplo as de Sigmund Freud, pioneiro no estudo sobre a temática, como dá exemplos de criaturas atuais que tão bem vestem as roupagens de Narciso - o jovem caçador que se apaixonou pelo seu reflexo – e que haveria de dar o nome, curiosamente pedido emprestado por Otto Frank, um colega do próprio pai da psicanálise, a todos aqueles que sentem “um apetite enorme e constante de serem admirados, que revelam sentimentos de superioridade, uma predisposição para a exploração, impulsividade e ausência de empatia e, talvez mais importante que tudo, uma agressividade retaliatória quando sentem que o seu ego inflacionado é, de alguma forma, ameaçado”.

 

Na sua cruzada de rever o trabalho de muitos investigadores académicos, entre outros apaixonados pela temática, Anne Manne garante que o narcisismo está em genuíno crescimento um pouco por todo o lado e, mais preocupante que tudo o resto, são os seus impactos tóxicos na comunidade, na cultura, na política, na economia e até no ambiente. Para a autora, a ideologia prevalecente do neoliberalismo alimenta a cultura do narcisismo e as consequências deste repasto são globais. Apontando o dedo às crenças e práticas construídas em torno da idolatria dos mercados e da glorificação da ganância, é na cultura do auto interesse, particularmente em voga a partir dos anos de 1980, que os comportamentos narcisistas encontraram terreno fácil para crescer e se multiplicarem.

 

Hillary Clinton: fazer selfies com apoiantes é um clássico das campanhas eleitorais 

 

Para exemplificar as múltiplas dimensões narcísicas do neoliberalismo, a jornalista australiana utiliza como exemplo uma das mais influentes defensoras do individualismo no século XX, a escritora, dramaturga e filósofa norte-americana (apesar de nascida e educada na Rússia) Ayn Rand. Tendo como base a filosofia aristotélica, Ayn Rand é a fundadora do objetivismo, que elege a razão e a lógica como a única forma de observar o mundo, ao mesmo tempo que defende fervorosamente que o indivíduo tem o direito de viver por amor a si mesmo e sem ser obrigado a se sacrificar pelos outros. Admiradora do egoísmo ético, do capitalismo do laissez faire, e do sistema que definiu baseado no reconhecimento dos direitos individuais, a filósofa que condenava, entre variadíssimas coisas, o altruísmo, haveria de servir de inspiração a muitos americanos, contando, no seu círculo íntimo de amigos e admiradores, com um acólito muito especial: o economista Alan Greenspan. Aquele que viria a ser presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos é, para Anne Manne (e não só), um dos grandes responsáveis pelos fundamentos da crise financeira global de 2008.

 

Um outro exemplo de como o narcisismo tem consequências e impactos globais negativos está relacionado com as alterações climáticas. Para a autora, o ceticismo persistente no que respeita ao aquecimento global é, também, um claro sintoma de um narcisismo crescente. A nível individual, a relutância em se alterar comportamentos em prol de um bem maior ou a inexistência de qualquer preocupação face ao planeta que iremos deixar às gerações futuras constituem sintomas claros de um narcisismo crescente. E, é claro, a nível político e económico, os interesses instalados da indústria dos combustíveis fósseis e o amor sem limites aos lucros de curto prazo encaixam igualmente bem nas características do mesmo.

 

Em “The Life of I”, e entre outros exemplos bem conhecidos, a autora traça o perfil do assassino em massa Anders Breivick, mas também do famoso ciclista americano, entretanto caído em desgraça, Lance Armstrong. No primeiro caso e recordando que apesar do termo “narcisista” não ter, na linguagem popular, uma conotação assim tão negativa, Anne Manne recorda que o mesmo é reconhecido como uma desordem da personalidade que inclui traços patológicos.

 

Recordando a publicação online do manifesto de “auto grandeza” com 1500 páginas escritas pelo assassino norueguês, a 22 de Julho de 2011, dia do massacre dos 69 jovens na ilha de na ilha de Utoya, o qual expressava a superioridade do mesmo face ao ódio visceral que manifestava contra muçulmanos, feministas ou multiculturalistas, e que acabou por resultar na morte de 77 pessoas no total, a autora elenca um conjunto de traços facilmente reconhecíveis nos narcisistas mais “psicologicamente desordenados”: a ideia de grandiosidade, a obsessão com a aparência, o culto da superioridade e a total ausência de empatia face aos demais.

 

Já o caso de Lance Armstrong é apresentado como um bom exemplo do “narcisismo no desporto”, acompanhado de corrupção e erosões de caráter, sendo que o que a autora pretende sublinhar é a ideia de que “não importa quem está no caminho, nem o como se chega lá, o que interessa é ganhar”. Ao questionar se a corrosão do caráter no desporto é emblemática de um sistema social mais alargado, Manne leva-nos a perguntar a nós mesmos se o narcisismo não é, afinal, o “caráter” dos nossos tempos ou o tal novo normal que muitos parecem defender.

 

Importante sublinhar é o facto de o narcisismo não constituir, simplesmente, “egoísmo ou vaidade exacerbados”. Citando Christopher Lasch, autor do livro “The Culture of Narcissism”, publicado em 1979, Manne recorda o que Lasch descreveu há quatro décadas e que tão bem parece encaixar em muitas das caracterizações que comummente são aplicadas à tão falada geração Y da atualidade: “superficialidade, incapacidade para o compromisso, uma autopreocupação alimentada pela ‘sociedade do espetáculo’ na qual as pessoas se comportam como ‘se as suas ações estivessem a ser gravadas e simultaneamente transmitidas a uma audiência invisível’”.

 

O que parece indicar que Lasch era um visionário ou não vivêssemos nós hoje num permanente espetáculo, ao vivo e em transmissão contínua, não só protagonizado por uma praga de Kardashians, mas também por especialistas em selfies, egocêntricos palradores e vaidosos em excesso que, a todo o momento, nos querem convencer de que não existe vida melhor que a deles.

 

#eu ou a vida no Inchagram e arredores

 

Uma pesquisa rápida no Google e chovem estatísticas, acompanhadas de inúmeros sites que “ensinam” a obter os melhores resultados de exposição possível comparativamente aos nossos pares. Mas fiquemo-nos pelos números: os utilizadores do Instagram partilham cerca de 70 milhões de fotos por dia; no Facebook, o upload de fotos chega aos 300 milhões diários, em cada 60 segundos são atualizados 293 mil estados, “postados” 3,5 mil milhões de likes num só dia e todos os dias são cerca de 1,4 mil milhões de pessoas – qualquer coisa como 20% da população mundial – que publicam detalhes da sua vida na ainda mãe de todas a redes; por último e no Twitter, 310 milhões de utilizadores enviam, diariamente, 500 milhões de tweets, 83% dos líderes mundiais têm aqui conta e Caitlyn Jenner foi a personalidade que mais rapidamente atingiu um milhão de seguidores (em apenas quatro horas).

 

todos os dias são cerca de 1,4 mil milhões de pessoas – qualquer coisa como 20% da população mundial – que publicam detalhes da sua vida na ainda mãe de todas a redes

 

Que terreno mais fértil do que este para acolher narcisistas e, consequentemente, para alimentar dezenas de estudos sobre a ligação direta entre o aumento do narcisismo e as redes sociais? Apesar de não existir um consenso generalizado sobre o fenómeno, inúmeras investigações têm sido levadas a cabo para comprovar que o aumento do Distúrbio da Personalidade Narcisista (ou transtorno, ou desordem, dependendo dos autores) está intrinsecamente relacionado com a ubiquidade dos media sociais. Comportamentos como as tentativas obsessivas de atrair o maior número possível de seguidores, a tendência exagerada de expor os pormenores da vida privada (desde que positivos, é claro) e a necessidade de se projetar uma imagem perfeita continuamente, têm sido descritos pelos investigadores como exemplos inequívocos da exibição de traços de personalidade narcisista nas redes sociais.

 

Trabalhadores da construção civil retratam-se com François Hollande 

 

Curioso é, contudo, o facto de em 1987 – e uns bons anos antes do boom da Internet – os psicólogos Hazel Marcus e Paula Nurius terem defendido a existência, em cada um de nós, de dois “eus”: um “eu agora” e um “eu possível”. Pois bem, seria então a Internet a possibilitar a qualquer pessoa optar pelo seu “eu possível” ou, pelo menos, apresentar uma versão desse “eu” tão desejado.

 

Num excelente artigo publicado pelo The New York Times, intitulado “Narcissism is Increasing. So You’re Not So Special”, o autor que o assina recorda o filósofo francês Jean-Jacques Rousseu e os seus escritos sobre o amour-propre, uma espécie de auto-amor baseado nas opiniões dos outros. Considerando-o como não natural e não saudável, Rousseau acreditava que a comparação social arbitrária levava as pessoas a desperdiçarem as suas vidas tentando parecer e soar atrativos para os demais. E isso, como sublinha o autor, é uma boa forma de descrever esta aparente epidemia que tanto debate está a causar. Como escreve “na mitologia grega, Narciso não se apaixonou por si mesmo, mas sim pelo seu reflexo. E se transpuséssemos o mito grego para a sua versão moderna, “Narciso iria apaixonar-se pelo seu próprio feed no Instagram e morreria à fome devido à contagem compulsiva do número dos seus seguidores”.

 

Ora, comportamentos compulsivos desta natureza são comuns em muitas pessoas que conhecemos, em particular nos casos em que uma selfie “perfeita” é publicada e existe uma verificação contínua do número de likes que a mesma vai gerando. Em linha com algumas das investigações que negam a relação direta entre o aumento do narcisismo e a utilização dos media sociais, o autor do artigo defende que não é o Instagram, ou os seus similares, que criam um narcisista, mas e tal como defendem também outros estudiosos do assunto, as redes sociais podem, sim, agir como um “acelerador”desta desordem, na medida em que oferecem a plataforma ideal para facilitar aquilo que os psicólogos denominam como o “exibicionismo da grandiosidade”.

 

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais, nos Estados Unidos, o narcisismo é uma patologia bem definida, sendo claro que os narcisistas procuram os locais ideias nos quais podem ganhar a sua tão necessária audiência. E, no que a esta necessidade diz respeito, são as plataformas online que melhor palco oferecem para os que sentem uma urgência contínua de se autopromover, comportamentos estes exemplificados pela atualização do “estado” a cada cinco minutos, com a publicação frequente de fotografias de si mesmos, das festas que frequentam, das viagens que fazem, dos restaurantes exóticos que experimentam, dos feitos das celebridades que admiram, e de citações e mottos que servem para se auto glorificar.

 

Face à multiplicação de estudos sobre o aumento de narcisismo nas plataformas sociais, a versão online da famosa revista Psychology Today, lançada em 1967, efetuou um excelente trabalho de compilação dos mais importantes, sendo que alguns são merecedores de especial atenção. De acrescentar ainda que a maioria destes estudos tem como “alvo “ principal os representantes da geração Y, apesar de, em alguns casos, as conclusões baterem também nos egos dos mais “adultos”.

 

"o problema é que o Facebook oferece-nos uma visão limitada das vidas dos nossos amigos, sendo que essa mesma visão tende a ser irrealista" – e exibida sempre como muito mais positiva do que na verdade é

 

Apresentado na convenção anual da American Psychological Association, um estudo da responsabilidade de Larry Rosen, da California State University, demonstrou que os jovens que mais tempos passam no Facebook têm uma maior probabilidade de exibir tendências narcisistas, em conjunto com outros problemas comportamentais. O psicólogo em causa afirma também que os efeitos negativos relacionados com uma utilização abusiva dos media sociais incluem uma maior propensão para a vaidade, para comportamentos agressivos e antissociais, e que estes excessos podem resultar numa performance académica mais pobre.

 

Por seu turno, Dilney Gonçalves, da IE Business School em Madrid, conduziu um estudo que argumenta o que há muito é comummente sabido: a tendência que todos temos em avaliar o nosso sucesso na vida comparando-o com o dos outros. Como escreve “o problema é que o Facebook oferece-nos uma visão limitada das vidas dos nossos amigos, sendo que essa mesma visão tende a ser irrealista” – e exibida sempre como muito mais positiva do que na verdade é. O investigador acrescenta ainda que quanto mais amigos se tem, maior é a propensão para se passar o dia a ler, invejosamente, sobre as férias paradisíacas de um, a nova e gira namorada de outro ou a promoção fantástica que um outro ainda teve no seu já fantástico emprego.

 

Já os investigadores Laura Buffardi e W. Keith Campbell (o co-autor do livro “The Narcissism Epidemic: Living in the Age of Entitlement”) acima mencionado, levaram a cabo também um estudo, publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, que comprova dados já previamente existentes. Como explica Buffardi, “concluímos que as pessoas mais narcisistas utilizam o Facebook com vista à sua autopromoção e de uma forma que pode ser facilmente identificada pelos outros”. O número substancial de “amigos” e a forma como os posts aparecem nas suas páginas correlacionam-se facilmente com as características identificadas nos comportamentos narcisistas, garantem ainda os dois psicólogos. E, se por um lado, sabemos que o Facebook se transformou numa parte normal da vida social – mesmo que virtual – de jovens e adultos, por outro, “os narcisistas usam-no exatamente da mesma forma com que se relacionam com os demais na vida real – para a autopromoção e com um especial ênfase na quantidade em detrimento da qualidade”.

 

Angela Merkel dá autógrafos enquanto jovens de uma escola se fotografam junto da líder alemã

 

Um outro estudo, da responsabilidade de Elliot Panek, da Universidade do Michigan, optou por analisar não só o Facebook, mas também o Twitter. De acordo com Panek, “através do Twitter, os jovens tentam alargar os seus círculos sociais e transmitir as suas opiniões”, sendo que ao longo do processo sobrestimam também o valor e importância das suas opiniões. Todavia, e de acordo com as conclusões do estudo, o resultado mais interessante cifra-se no facto de “entre os jovens adultos e estudantes universitários, termos concluído que aqueles que resultados mais expressivos tiveram para certas tipologias de narcisismo são mais adeptos do Twitter, ao passo que entre os adultos de meia-idade, os narcisistas elegem antes o Facebook para os seus posts de autopromoção”.

 

Muitos mais exemplos poderiam ser dados para ilustrar a ideia de que as redes sociais atraem os narcisistas como as abelhas são atraídas pelo pólen e, citando mais uma vez o trabalho de Laura Buffadi, existe um consenso alargado que “os narcisistas utilizam o Facebook e outras redes sociais porque acreditam que os outros estão realmente interessados nas suas vidas, ao mesmo tempo que é seu desejo inato quererem que os outros saibam tudo sobre as suas vidas também”. Consensual é também a ideia de que as redes sociais encorajam a autopromoção, na medida em que são os seus utilizadores que geram os conteúdos que as alimentam. Keith Campbell explica ainda que muitas pessoas utilizam estes meios para se “mostrarem importantes, se sentirem especiais e para ganharem atenção, status e autoestima”. Mas o problema, e mais uma vez, reside no facto de quase toda a gente que tem esta necessidade excessiva de mostrar o quão perfeita é a sua vida apresentar retratos irrealistas de si mesmos. Tal como as pessoas selecionam as suas melhores fotos para constarem no seu perfil (pelo menos, uma grande maioria), a tendência para povoarem os seus newsfeeds com os mais atraentes pedaços das suas vidas é exatamente a mesma.

 

A culpa é do Facebook?

 

Kim Kardashian e Kanye West num evento social: um casal que está e faz por estar sempre no centro das atenções

 

Mas se o Facebook, e seus similares, são indubitavelmente plataformas por excelência para muitos narcisistas, é impossível afirmar taxativamente que são as redes sociais as “culpadas” deste “pico narcísico”. E como afirma Shawn Bergman , um reconhecido psicólogo que estuda a geração Y, “existe uma significativa quantidade de pesquisa psicológica que demonstra que a personalidade de cada um de nós está quase completamente ‘estabelecida’ aos 7 anos de idade”. Assim, e dado que a política do próprio Facebook e de outras redes conexas não permite o registo de utilizadores com idades inferiores a 13 anos, “os traços de personalidade dos seus utilizadores estão já bem enraizados na altura em que as visitam pela primeira vez”.

 

Será que isso significa que, afinal, são os pais indulgentes os culpados desta pretensa epidemia? Não sabemos. Mas e já agora, aceite o convite para testar o seu nível de narcisismo. A não ser que se sinta demasiado especial para se dar a este trabalho.

 

 

 

 

 

 

publicado às 11:38

Bem-vindos ao admirável mundo do filantrocapitalismo

Por: Pedro Fonseca

 

Como é que os responsáveis de empresas tecnológicas aplicam os seus rendimentos na filantropia? Conheça três modelos pelos responsáveis do Facebook, Twitter e Gravity.

 

O filantrocapitalismo está a disseminar­-se nas empresas tecnológicas, mas será um simples interesse norte­americano ou pode ter impacto no resto do mundo? Mark Zuckerberg e a esposa Priscilla Chan resolveram criar uma empresa com fins filantrópicos, no início de Dezembro. O modelo que escolheram foi criar a Chan Zuckerberg Initiative (CZI), uma Limited Liability Corporation (LLC) ou corporação de responsabilidade limitada.

Na declaração entregue às autoridades financeiras pelo Facebook, a empresa explica que o seu fundador vai, "durante a sua vida, dar ou de outra forma dirigir substancialmente todas as suas acções no Facebook, ou o resultado líquido após impostos dos rendimentos das vendas de tais acções, para desenvolver a missão de avançar o potencial humano e promover a igualdade por meio de actividades filantrópicas, de advocacia pública e outras para o bem público".

 

Zuckerberg irá controlar a votação e a alienação de quaisquer acções detidas pela iniciativa, tendo revelado que "pretende vender ou dar não mais de mil milhões de dólares em acções do Facebook a cada ano nos próximos três anos". Zuckerberg tem cerca de 4 milhões de acções da chamada Class A e cerca de 419 milhões de acções Class B, doando 99% dessas acções que, com a mesma percentagem de Chan, podem totalizar 45 mil milhões de dólares. Os "cínicos", como lhes chamou a Quartz, questionaram o modelo da entidade, ­uma LLC e não uma fundação. As vantagens financeiras são diversas e o controlo da entidade também. De qualquer das formas, neste modelo a CZI não irá fugir ao pagamento de impostos e mantém o controlo de investir tanto em entidades com fins lucrativos como não-lucrativos. Mas os seus financiadores continuarão ricos.

 

A decisão de Zuckerberg surge numa altura de "ansiedade sobre o crescimento do chamado filantrocapitalismo", como dizia a revista The New Yorker. No entanto, e apesar da proporção da transferência dos resultados accionistas do Facebook para a CZI, a decisão não é inovadora em termos de doações.

 

Na grande lista de filantropos de empresas tecnológicas, percebe­-se a existência de diferentes modelos.

Em Outubro passado, o recém-­nomeado director-­geral do Twitter resolveu dar aos funcionários um terço das suas acções na empresa, então avaliadas em cerca de 197 milhões de dólares.

 

As acções disponibilizadas por Jack Dorsey ­- o equivalente a 1% do valor da empresa ­- serviriam segundo alguns "cínicos" para acalmar e segurar as equipas internas, após a empresa ter anunciado pouco antes o despedimento de 300 funcionários. E Dorsey manteve ainda assim 2% das acções do Twitter, rede social avaliada recentemente em 17 mil milhões de dólares.

 

Assim, tanto Facebook como Twitter indexam os seus modelos filantrópicos aos resultados do valor das acções das empresas: quanto mais estas se valorizarem, mais o resultado será interessante para os beneficiários das doações.

 

O caso da Gravity Payments: calculismo, ou apenas a ideia dum tolo bem intencionado? 

 

Mas há ainda um outro modelo dentro das empresas, como revela a fantástica história do CEO que queria pagar 70 mil dólares a todos os seus funcionários. Daniel Price, director­-geral da empresa de processamento de cartões de crédito Gravity Payments, anunciou em Abril passado que o ordenado mínimo na empresa seria de 70 mil dólares anuais, revelando também que iria diminuir o seu vencimento de 1,1 milhões de dólares para 70 mil dólares, por forma a concretizar essa ideia.

Dan Price, fundador da Gravity Payments. Licença CC-SA 3.0, via Wikimedia Commons. 

 

A empresa tinha então cerca de 120 funcionários, com uma média anual de vencimentos de 50 mil dólares. O plano, na realidade, apenas duplicava o valor do vencimento a 30 pessoas e aumentava­-o a 40 que ganhavam abaixo desses 70 mil dólares. Não implicava despedimentos, subida de preços nas ofertas comerciais ou cortes nos vencimentos dos outros executivos, porque "mais de metade do custo seria assegurado pelo corte" no vencimento de Price ou pelos lucros da empresa.

 

A revelação da proposta fez aumentar o interesse mensal de clientes de 30 para 2.000 em duas semanas  -­ um impacto enorme no chamado custo de aquisição por cliente ­-, levando à contratação de mais 10 pessoas.

 

Apesar da apresentada visão de combate à desigualdade interna, Price foi processado pelo irmão Lucas, que detinha 30% da empresa, alegando que Price recebia demasiado em vencimentos da Gravity (50 mil dólares anuais em 2011 e um milhão no ano seguinte, segundo várias notícias, tendo recusado uma proposta de consultores da empresa para receber acima dos 1,1 milhões de dólares em 2013).

 

O vencimento de Price era "atípico" para este tipo de empresa, quando o próprio revelou que o lucro da empresa em 2014 foi de 2,2 milhões de dólares. Mas ele também declarou que o seu vencimento obtinha uma "aprovação unânime e total" do conselho de administração, apesar da objecção de Lucas a estas declarações.

 

O anúncio da empresa gerou um enorme envio de currículos.­ 4.500 só na primeira semana após as notícias iniciais,­ mas Price foi também inundado com convites para artigos noticiosos, por agentes para escrever um livro (uma alegada proposta de 500 mil dólares, que irá ser concretizada) ou "cortejado por mulheres nos media sociais", onde conseguiu mais de meio milhão de interacções. Alegadamente, terá contratado a agência William Morris Endeavor Entertainment para fazer discursos  a 20 mil dólares cada um.

 

Como é que ele se lembrou desta generalização de um elevado ordenado para os seus funcionários? Após ler um artigo de 2010, dos prémios Nobel Daniel Kahneman e Angus Deaton, que mostraram como o bem-­estar emocional melhora à medida dos vencimentos, até chegarem aos 75 mil dólares anuais.

 

Mas também pelo funcionário Jason Haley, que ganhava em 2011 cerca de 35 mil dólares anuais. Em tempos, Price confrontou­-o e obteve uma respostainesperada: "Estás a roubar-­me". Isto porque, na opinião de Haley, os resultados de Price na empresa estavam correlacionados com o facto de ele, enquanto funcionário, "não ganhar o dinheiro suficiente para ter uma vida decente".

 

Price poderá ter tido outra visão. O irmão Lucas apresentou uma queixa judicial "duas semanas após o anúncio de Price" à empresa, mas este terá tido conhecimento do processo duas semanas antes. Em resumo: a proposta "magnânima" terá ocorrido um mês após Dan Price saber que "o irmão o processou por, no substancial, ser ganancioso".

 

O processo deve ir a tribunal em Maio de 2016, mas "70 empregados da Gravity ganham agora mais do que antes. Foi o altruísmo ou um caro processo judicial que motivou isso?"

 

Meses depois, dois funcionários deixaram a empresa (Haley não foi um deles) e esta duplicou a facturação e os lucros, ainda segundo a Slate. A Gravity "perdeu alguns clientes: uns objectaram quanto ao que parecia uma declaração política que os pressionava a aumentarem os ordenados" dos seus próprios funcionários, enquanto "outros temeram um aumento de preços ou reduções de serviço".

 

Vários empresários vão estar atentos a esta questão. A experiência de Dan Price "irá ser saudada seja como um golpe de génio mostrando que os empresários têm pago mal a sua força de trabalho, em detrimento das suas empresas, ou como uma prova positiva de que a Gravity está a ser gerida por um tolo bem intencionado".

 

Há diferentes modelos para a filantropia, como se pode ver. O que interessa são os resultados. Nestes três casos, isso está por provar. Anne Petersen, presidente da Global Philanthropy Alliance, explicava à The New Yorker, que a filantropia americana costumava ser sobre a doação local, mas que "houve uma tendência evidente em direcção à doação internacional", tendência que acredita continuar como dominante. A opção da CZI vai nesse sentido, ao contrário dos outros dois exemplos.

publicado às 14:54

O Regresso do Capitão Jack, ou Como Despedir Pessoas no Mundo Encantado das Empresas Tecnológicas

Por: Rute Sousa Vasco

 

Esta foi, sem dúvida, uma semana em que o Twitter e o seu co-fundador, Jack Dorsey, estiveram nas bocas do mundo. É o terceiro regresso de Dorsey à companhia que fundou e ao serviço que inventou, e volta na mesma semana em que lança em Bolsa a sua segunda empresa, a Square, uma startup de pagamentos móveis. E acontece poucos dias depois de o Twitter ter lançado um novo produto – “Moments” – encarado por muitos analistas como a reinvenção dos jornais.

 

É a semana em que tudo isto aconteceu, mas a razão pela qual trago Dorsey até estas linhas, é outra. O Twitter é, desde a sua fundação, uma marca querida de influenciadores. Numa visão mais cáustica, é também uma marca querida da carneirada que não quer fazer parte da carneirada, usando uma expressão da eterna Mafalda criada pelo Quino. O Twitter cresceu significativamente desde o seu lançamento e entrou em Bolsa há dois anos em clima de grande excitação. Clima esse que durou pouco, porque nem os utilizadores cresceram ao ritmo que os investidores esperavam, nem o Twitter mostrou ter pernas para a sua concorrência mais tradicional, aka Facebook, ou mais modernaça, aka Snapchat. Os investidores, como se sabe, são uma mulher caprichosa e volátil e deram sinais de desinteressse, o que, no mercado tecnológico, onde sempre há um new kid on the block, pode ser fatal.

 

O regresso do fundador ao Twitter foi bem recebido. A Bolsa, as Mecas da tecnologia e os seus arautos gostam de comebacks. Ainda por cima, Dorsey é jovem, tem estilo e há qualquer coisa nele que leva as pessoas a pensar em Steve Jobs (provavelmente a coisa mais parecida é mesmo os dois terem sido despedidos das empresas que fundaram). Se a vida empresarial correr tão bem a Dorsey como a Jobs, é altura de colocar trocos a valer no Twitter.

 

Dorsey regressou com um new look – a indústria tecnológica partilha também alguns tiques da indústria de celebridades. O culto de imagem é um deles e, acreditem, aquela coisa da imagem aparentemente descuidada dá bastante trabalho. O de novo CEO do Twitter apareceu sem barba, cabelo aparado, um homem crescido nos seus 38 anos anos de maturidade. A imprensa reparou – e a twittosfera também, claro.

 

Dorsey regressou ao mesmo tempo que o Twitter lança um novo produto, “Moments”, uma proposta de agregação das histórias que marcam o dia concebida para conquistar novos utilizadores, nomeadamente aqueles que acham o Twitter pouco ou nada útil ou que simplesmente não percebem como funciona (alerta à navegação: se o “Moments” funcionar e se com isso o Twitter se tornar mais mainstream, vai perder alguns fanboys e vai possivelmente ter mais publicidade, de que precisa para poder continuar a pagar contas e a crescer; nada disto significa que ficará um pior serviço, mas, mais uma vez, como na música ou no cinema, se muitos gostarem pode significar que uns poucos terão de se desinteressar e ir à procura de qualquer outra coisa que os faça sentir especiais e únicos).

 

Aconteceram todas estas coisas em poucos dias e ainda mais uma. Jack Dorsey não perdeu muito tempo a reorganizar a empresa que ajudou a fundar. Na terça-feira, dia 13 de outubro, enviou um email a todos os trabalhadores da empresa informando que iriam ser despedidas cerca de 300 pessoas. 336, para ser mais exacta, 8% de toda a equipa. “Tomámos uma decisão extremanente difícil: planeamos abrir mão de 336 pessoas que estão na empresa. Fazemo-lo com o maior respeito por cada uma delas. O Twitter fará tudo ao seu alcance para apoiar cada uma destas pessoas, propondo-lhes pacotes de saída generosos e ajudando-as a encontrar um novo emprego”.

 

Este é um email que merece vários comentários. Pela forma e pelo conteúdo. Pela forma, o site Quartz fez provavelmente o comentário mais assertivo que podia ser feito. Dorsey começa a sua comunicação por dizer: “emails como este estão geralmente encriptados no discurso corporativo e por isso vou dizer-vos directamente o que há para dizer”. É um bom princípio, não apenas para o patrão do Twitter, mas para todos os que gerem pessoas. Imaginam o quão fartas estão da conversa corportativa e das palavras que não querem dizer coisa nenhuma ou que apenas dissimulam o que querem realmente dizer?! Cortem com isso.

 

Mas a verdade é que não é fácil dizer, assim do pé para a mão, que se vão mandar embora 336 pessoas, algumas delas provavelmente em lugares chave da engenharia e da gestão. Dorsey tentou, mas não se pode dizer que tenha conseguido em toda a linha. O Quartz deu-lhe uma ajuda e editou o email para o tornar ainda mais directo e claro. “Tomámos uma decisão extremanente difícil: vamos despedir 336 pessoas em toda a empresa (…) Essas pessoas não têm culpa de nada. Nós é que as contratámos e não devíamos ter feito. O Twitter vai dar-lhes indemnizações decentes e ajudá-las a encontrar um novo emprego”.

 

A outra parte tem a ver com o conteúdo da decisão. Não é fácil despedir pessoas. É ainda menos fácil quando algumas dessas pessoas foram contratadas por quem as despede e algumas, naturalmente, se tornaram mais que colegas. Mas é muito mais difícil – e errado – deixar que um conjunto maior de pessoas perca o rumo e, no limite, possa perder o emprego porque quem decide não foi capaz de tomar decisões. Não há formas fáceis de fazer mudanças, sobretudo quando visam corrigir uma rota de perdas. Geralmente implicam cortes e menores níveis de conforto, pessoal e no negócio. O facto de quem decide assumir os erros passados não torna o momento menos penoso. O Twitter falhou em vários momentos – na gestão dos produtos, nas pessoas que escolheu, na estratégia que adoptou. Reconhecer isso não torna a vida mais fácil a quem se vai embora (e nem a quem fica). Mas tornar a vida corporativa mais honesta – mais humana – pode ser um passo pequeno para um homem ou uma empresa, mas é sem dúvida um passo necessário para todos os humanos que trabalham, têm colegas, chefes, patrões, clientes e cada vez mais procuram na sua profissão, também, um sentido para a vida.

 

Mas nada como fechar com humor. Através de um tweet, claro:

 

 

Tenham um bom fim de semana.

 

 

Leituras sugeridas sobre coisas estranhas, ou nem por isso.

 

Em menos de 12 horas, uma iniciativa de crowdfunding conseguiu juntar 1000 dólares. Para quê? Para pagar a multa de 500 dólares de uma mulher aborígene acusada de ter roubado uma caixa de tampões.

 

Noutro ponto do planeta, bem longe da Austrália, os tampões também são um tema do momento. Na Suécia, transformaram-se em personagem de um programa de televisão para crianças. E cantam.

 

E porque o tema de hoje é o Twitter, deixo-vos com esta curiosidade do reino humano, animal, tecnológico e do marketing. Tudo numa só notícia: a do restaurante australiano que decidiu colocar uma galinha a gerir a sua conta de twitter.

 

 

publicado às 10:43

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