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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Eco precioso para entender e "ouver" o mundo

Por: Francisco Sena Santos

Eco. Três letras. Vinha a calhar dobrar o “c” para ganhar a grafia italiana, ecco: eis, aqui está! Eco, Umberto Eco é o sábio que nos enquadra o mundo em que vivemos e que nos ajuda a compreender muito do que ficou para trás. Soube não se fechar numa torre de marfim da sabedoria, escolheu meter-se com gozo no centro da arena da actualidade. Mestre nos estudos sobre a comunicação e, ao mesmo tempo, grande comunicador, Eco faz-nos entender a relação entre as coisas, os mecanismos da comunicação de massa.

 

Uma vez, há já bastantes anos, coincidindo com uma cimeira europeia que decorreu no Castello Sforzesco, em Milão – Bettino Craxi era o anfitrião e Mário Soares liderava a delegação portuguesa – uma livraria milanesa acolhia ao fim da tarde um debate no qual participava Umberto Eco.  Obviamente, foi irresistível a tentação para, por umas duas horas, trocar a cimeira político-económica que tinha sido o motivo da deslocação em reportagem para ir escutar e ver (ouver, como diz José Duarte) o mestre que se tinha tornado best-seller mundial com o apaixonante romance O Nome da Rosa.


Foi para mim (por mais que resista a falar na primeira pessoa, neste caso, é inevitável) uma experiência inesquecível, ainda que encavalitado sobre o corrimão de uma escada num equilíbrio que mal dava para acompanhar o essencial da sessão por entre tanta gente apinhada. Foi uma ocasião única.

Impressionante o modo como, a partir de cada palavra que era colocada pela jornalista da RAI que conduzia a discussão, aquele homem, erudito, divertido, cheio de humor, contava uma história e mais outra e mais outra, cruzando filosofia, literatura, ciência, religião, misticismo, política, jornais, revistas, televisão publicidade, design e até futebol. Com espírito fascinante, interrelacionando tudo. Várias vezes repetiu: estudem, é preciso que estudem para afastar a estupidez. Estudem a História para poderem compreender o tempo contemporâneo. E lá vinha a seguir mais um sorriso, um olhar para um lado e para outro, e uma outra história. Naquele fim de tarde ele parecia querer falar sobre significados em slogans políticos.


Eu tinha ido para aquela sessão cheio de curiosidade mas à espera de encontrar no professor famoso um homem distante, arrogante, talvez pedante. A impressão que ficou foi a mais oposta. É certo que não foi especialmente amável quando na porta de saída tentei colocar-lhe duas perguntas – respondeu, já com o chapéu de aba larga na cabeça, que estava atrasado, de facto a sessão tinha-se prolongado pelo dobro do tempo previsto - mas, perante aquela espantosa energia intelectual, aquele gosto de partilhar saber que gera cumplicidade, teria de sair daquela sessão fascinado por aquele jogo de inteligência conduzido por um sábio divertido.


Voltei, porque era essa a tarefa do ofício, à procura da actualidade da ocasião na cimeira política europeia no Castello Sforzesco e a tratar de a cruzar com o que ouvira de Eco. Caminhei a pensar numa das respostas naquela sessão: “Evitem as frases feitas, só os burros usam palavras triviais, descuidadas”.

 

Nesta terça-feira, 23 de fevereiro, a cerimónia fúnebre de Umberto Eco, o mestre dos códigos que gostava de rir dos poderes, o explicador do mundo em que estamos, o semiólogo, filósofo, professor, investigador, crítico, escritor, cronista, estrela mundial de primeira grandeza, decorre precisamente no Castello Sforzesco, em Milão. "La Repubblica" conta que Umberto Eco via aquele castelo da janela de sua casa.
Apetece retomar a leitura das 160 páginas de Número Zero (livro editado em Portugal em maio de 2015 pela Gradiva), um romance pleno de ironia em volta do tema da intriga e da mentira no jornalismo na história recente de Itália (tudo tem âncora em junho de 1992). Ou como um jornal que nunca chega a sair pode servir, não para difundir, mas para encobrir as notícias.


Eco, deveria ser ecco: sim, eis o sábio.


Está prometida para maio a edição de um último livro do sábio Umberto Eco, Pape Satan Aleppe, título escolhido a partir da enigmática abertura do Canto VII do Inferno, na Divina Comédia de Dante. Eco remete-nos, neste livro de crónicas, para a confusão do tempo contemporâneo.


TAMBÉM A TER EM CONTA:


Estão a faltar remos e motores para conduzir o bote da humanidade na direcção certa? É o alerta reforçado por Zygmunt Bauman, o filósofo da modernidade líquida.


O apelo do papa Francisco para uma moratória, em todo este ano, na execução de penas de morte, vai ser ouvido? Falta que não seja apenas moratória. Quando é que o mundo se livra da pena de morte?

Donald Trump (aqui em versão Game of Thrones, Winter is Trumping) está mais perto de ser o nomeado republicano para a final presidencial nos EUA em novembro. É, mesmo assim, menos perigoso para o mundo que Ted Cruz, o pupilo do Tea Party, e que Marco Rubio, o Neo Con. No campo dos democratas, no Nevada, Hillary Clinton ganhou, mas por poucos (sempre é melhor que perder) a Sanders. A próxima terça-feira é decisiva e Bloomberg está à espera de saber se há espaço vazio para ele avançar.

Em quatro anos, três prémios principais do Festival de Berlim para uma nova vaga de cineastas portugueses: depois de João Salaviza e Miguel Gomes (2012), agora Leonor Teles, com A Balada de um Batráquio.

O mexicano Alejandro González Inãrritu vai emparceirar com Ford e Mankiewicz e receber dois Óscares consecutivos (depois de Birdman, agora O Renascido) como melhor realizador?  Este é, finalmente, o ano de Leonardo DiCaprio? Ou o de Edie Redmayne? O de melhor atriz pode ser para outra que não Cate Blanchett? Spotlight, com seis nomeações, que estatuetas vai receber? A festa é já na noite de domingo para segunda e há que seguir tudo, também no SAPO.

Correntes d´Escritas, a partir de hoje, por cinco dias na Povoa de Varzim

José Duarte: 50 anos a fazer Cinco Minutos de Jazz. Eco precioso.

publicado às 07:31

Os meus ecos de Umberto

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Achei interessante ir ler, no Facebook, o que se diz de Umberto Eco. Soa-me como a vingança. O homem que abominava as redes sociais – 'deram o direito a falar a legiões de idiotas' – não escapou, na sua morte, ao escrutínio das mesmas. Mas presto-lhe vassalagem. Ele tinha razão quando disse – e se mais não dissesse, e muito disse, isso quase bastava para a imortalidade – que não há texto ou livro que escape, nem que se complete, sem a interacção do leitor. Na verdade, é de uma 'obra aberta' que falamos quando lemos as diversíssimas leituras que todos fazemos das mesmas coisas que o mesmo diz. O eco – sim, não escapo ao som e ao signo – das suas palavras é entendível de modo diverso conforme o receptor. E mais do que isso – cada um amplia a parte da sua imensa retórica que mais lhe interessa. Quem fala de tudo e de todos arrrisca-se a milhentas interpretações, ou era essa mesmo a sua intenção? Talvez só o próprio Umberto soubesse responder a isto.

 

Há, nos computadores e na Internet, tal como Eco soube antes de todos, uma perversão do tempo, no que ao passado e à História diz respeito. Vejamos o 'word' em que agora escrevo. Se não o sinalizar com uma data, basta um dia mudar-lhe vírgulas para que ele assuma o tempo novo e revisto; e perde-se para sempre o dia em que escrevi primeiro. Por velhice ou sabedoria – ou as duas coisas entrelaçadas –, Umberto Eco ficou-se pelos livros, quer os ensaios que enunciou abundantemente enquanto académico, quer os romances que, segundo ele, começou a escrever quando já tinha feito quase tudo – ou seja, aos 48 anos. Ou ainda, e sempre numa versão do próprio, porque quando não se pode teorizar deve narrar-se.

 

O que é um pouco a vida que lhe fui apercebendo. Um homem que dizia que a mentira tem muito mais interesse do que a verdade – 'o que torna os signos interessantes não é servirem para dizer a verdade, mas poderem ser usados para mentir ou falar de coisas que nunca vimos' –, tinha por força de ir além da criação de uma ciência. Para quem, como eu, ainda hoje ser semiótico e não semiológico faz quase tanto sentido como a frase de Bond 'shaked not stirred', é evidente que se pode ler Eco no esoterismo ou na sua recriação quase cómica. E no entanto – lembram-se? - foi por causa do riso que morreram frades.

 

Aliás, numa das suas últimas entrevistas – já se pode dizer últimas, e não 'mais recentes', porque a morte dá-nos o direito a só ter passado -, o professor de Bolonha e autor de 'O Nome da Rosa' anunciava que não tinha ainda iniciado a sua próxima obra, que era um ensaio sobre a comédia. Não teve tempo. Alguém aí para o fazer? Não se importará Eco, de certeza, com isso. Não um homem que dizia que a literatura universal era sempre repetição, e que já Homero repetia a tradição oral, milenar, anterior a ele. 'Se os textos são máquinas preguiçosas que precisam da colaboração do leitor, então este, quando passa a escritor, reescreve essa mesma obra que o influenciou'. E 'quando lemos um livro devemos perguntar a nós próprios não o que diz, mas o que significa'. Foi ele que disse, e já não pode voltar com a palavra atrás.

 

Lembro-me bem do dia em que Umberto Eco me foi apresentado. Lembro? Não, minto. Sei porque dato os livros que vou comprando, e a minha memória é tão só isso e o efeito que me ficou de os ler. É um daqueles ensaios curtos, sessentistas, sem data por mim descoberta mas exalando data no que escreve, que o autor publicou por volta da 'Obra Aberta' e dos 'Apcalípticos e Integrados'. Era sobre vestuário, uma paixão minha antiga, que Eco titulou de forma banal 'O Hábito faz o Monge'. Nos livros, como ele dizia, por vezes procura-se uma forma de nos justificarmos; e eu fiquei contente, naquele Fevereiro de 79 em que li o texto, quando ele me disse que, no que vestimos, está uma forma de nos exprimirmos, que é algo mais do que comunicarmos e diferente de exibirmo-nos. Daí partia para a arte da sedução pelo gesto/signo, os trajes do teatro como denotações, ou a mini-saia, que naquele tempo, dizia ele, na Catânia [Itália profunda] transmitiria a ideia de uma rapariga leviana, em Milão a de uma rapariga moderna, em Paris a de uma rapariga, tão só, e em Hamburgo, no 'red district' da Rieperbahn, poderia muito bem ser um rapaz...

 

Sobre o islamismo e a sua invasão da Europa, assume a sua faceta de 'pop-star' que é um pouco parte da sua segunda metade da vida

Falava de religião mas não esquecia o diabo. Era tão incoerente como qualquer um que muito pensa, muito escreve e muito diz. Na revisitação que lhe faço, à hora da sua morte, encontro o que sempre dele tive – umas coisas sim, outras coisas não. Umberto Eco é, para além de um precursor, um 'self-service' de citações. Não esqueceu que a religião tanto pode ser, como dizia Marx num dia aziago, o 'ópio do povo', como a sua cocaína, porque para muitos funciona como um despertar e acelerar a revolta, tida como redenção.

 

Sobre o islamismo e a sua invasão da Europa, assume a sua faceta de 'pop-star' que é um pouco parte da sua segunda metade da vida. Tão depressa lemos textos em que fala de 'nazismo islâmico' – mas pior que o primeiro, porque este está no meio de nós, não para lá de uma fronteira de guerra que dele nos separa, e que nos permitiu combatê-lo eficazmente, segundo Eco – como em seguida se mostra entre o justificativo e o complacente para com as migrações actuais. Umberto Eco era um europeísta convicto. Em dez minutos, no mesmo texto, assume o terror pelo futuro dos netos, numa sociedade islamizada e numa Europa que 'vai mudar de cor', na qual vai 'correr muito sangue', logo antes de afirmar que, quem não encarar a mudança - que prevê inelutável – 'mais vale suicidar-se'. Acredita que, um dia, se encontrará um novo equilíbrio, como depois das invasões bárbaras no Império Romano, mas que antes acontecerá 'algo de terrível'.

 

Mas culpa a França, por ter querido impor a ética da República aos migrantes – ele não põe 'i' antes da palavra – sem nunca ter conseguido integrá-los, afastando-os para guetos nos subúrbios. 'Se os muçulmanos morassem em redor de Nôtre-Dame seriam diferentes', sustentou já depois dos atentados ao 'Charlie Hebdo'. 'Um muçulmano em França torna-se fundamentalista porque a sua integração não foi completa nem podia ser, a longo prazo pode haver integração, mas no curto não; e a não integração produz uma reacção que só pode ser o ódio', afirma. Parece óbvio, que para o historiador/filósofo, o 'longo prazo' tem uma largura imensa.

 

Um homem que, de si próprio, dizia que o fim da vida lhe tinha dado para odiar a Humanidade, continuava a ser um optimista a quem, aparentemente, tinham roubado o húmus de que alimentava essa esperança, roteada na guerra erm Itália e nas esquinas onde se escondia, diz ele, 'porque numa esquina há sempre dois lados para onde fugir'. Da Universidade onde passou grande parte da vida – principalmente em Bolonha, mas convidado em Columbia, Toronto, Harvard, Collège de France e mais meia dúzia – dizia agora que era boa ideia tê-la aberto a tanta e tanta gente. Mas logo depois aduzia que o facilitismo recente encerra uma perversão inelutável. 'Nos três primeiros anos [das faculdades] os alunos não lêem livros com mais de cem páginas; no meu tempo tive que ler milhares e milhares de páginas e não morri por causa disso', desabafava.

 

Termino com uma nota pessoal. Umberto Eco, a certa altura, 'meteu-se' com o Super-Homem. Não um ensaio sobre Nietzsche, mas sim sobre o personagem da BD americana. Sob o seu olhar semiótico – que não é, cedo uma vez mais à anedota, ver só com um olho -, o leitor das aventuras do 'homem de aço' inventado por Jerry Siegel é subjugado à condição de fantoche dominado pela propaganda do poderio norte-americano, ilustrada na força do super-herói que tudo resolve em três tempos. Uma imagem que faz ascender o cidadão comum, personificado pelo seu alter-ego Clark Kent, ao seu desejo de perfeição, ao rechaçar da sua impotência para vencer as frustrações. Baseado no que lhe impelem as aspirações de status, de nível social, inconscientemente integrado, o sujeito esquece-se e perde a sua identidade.

 

Mas eu sempre quis ser Clark Kent. Já não vou poder perguntar a Eco se tenho alguma coisa de errado.

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado às 20:08

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