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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O Natal é deprimente? Só se não for cristão...

Por: Pedro Fonseca

 

O Natal não é uma altura feliz para todos os europeus, excepto para os cristãos muito religiosos, segundo um estudo de Michael Mutz, da universidade alemã  Georg-August, em Gottingen.

 

Michael Mutz quis saber como é vivida a época natalícia em vários países europeus. Para tal, analisou dados do European Social Survey (ESS) para países cristãos ou protestantes europeus, como Portugal, Bélgica, Estónia, Alemanha, Hungria, Irlanda, Holanda, Espanha, Suécia e Reino Unido, em dois momentos (2006 e 2012).

O estudo tem limitações, começa por alertar o investigador, como seja "o pequeno número de entrevistas" nas férias de Natal. Em entrevista ao SAPO24, Mutz afirma mesmo que "os dados analisados não permitem alegações fiáveis sobre países individuais, como Portugal", um dos países referidos no estudo. Sublinhaa a pequena amostra conseguida na altura do Natal, por contraposição com as outras, e nota haver discrepâncias na classificação dos "não-cristãos" no estudo do ESS, nomeadamente sobre os ateus.

 

O nível de educação elevado ou o facto de haver crianças em casa também ajuda a ter uma visão positiva sobre a época natalícia. Mas os cristãos em geral "parecem ser muito menos afectados do que as pessoas não-religiosas", explica Mutz no trabalho "Christmas and Subjective Well-Being: A Research Note", publicado recentemente na revista científica Applied Research in Quality of Life.

Mutz analisou dois inquéritos, um no período do Natal (entre 16 e 26 de Dezembro) e outro no pós-Natal (27 a 31 de Dezembro) dos referidos anos, comparando-os com outras alturas do ano e excluindo os meses de Julho e Agosto. "Em geral, os inquiridos perto do Natal mostraram uma significativa menor satisfação com as suas vidas e experienciaram mais emoções negativas do que os outros entrevistados noutras alturas do ano", nota. Mas esta situação não ocorreu com os muito cristãos, que afirmaram ser mais positivos com a época natalícia, tal como com os inquiridos com maior nível de educação ou com crianças em casa. Segundo Mutz, a questão não é se os cristãos se sentem mais afectados pelo Natal mas, pelo contrário, eles aparentam não ser tão afectados como os não-religiosos, de qualquer crença.

 

O investigador salienta é que essa insatisfação pode provir do stress das "obrigações sociais" ou das compras de presentes numa "crescente cultura de consumismo material, relacionada com problemas financeiros". Segundo dados do ano passado, uma família europeia gastou, em média, 265 euros em presentes e mais 160 euros em comida na época natalícia.

A "investigação anterior deu provas limitadas de que o Natal pode ser negativo relativamente à saúde física e mental, mas a investigação directamente apontada ao SWB é escassa" (bem-estar subjectivo). Citando outros estudos, Mutz nota que na época de Natal aumentam as mortes diárias (22% relativamente à semana anterior), bem como problemas respiratórios e cardíacos, mentais e, no pós-Natal, problemas com suicídios e problemas auto-destrutivos.

 

Aliás, segundo a "Social Readjustment Rating Scale" (SRRS), o Natal é um dos 43 eventos relacionados com o stress ou a saúde ao longo da vida, comparado mesmo com pequenas violações da lei. No SRRS, um divórcio tem um valor de stress de 73 pontos, ser despedido equivale a 47 pontos e o Natal é associado a 12 pontos.

 

SAPO24 - Como explica a diferença entre "menos satisfação" e "emoções mais negativas" no Natal, relativamente a outras épocas do ano?

Michael Mutz - Encontrámos no nosso estudo um declínio na satisfação com a vida e bem-estar emocional, na última semana antes do Natal. Acreditamos que este declínio é devido ao nível de stress elevado que muitos europeus sentem no momento imediatamente anterior às férias de Natal. Nestes dias, muitas coisas são feitas simultaneamente e, muitas vezes, sob pressão de tempo: compras, preparação da comida, planeamento de visitas a familiares e amigos, etc. A família média europeia gasta, por exemplo, cerca de 425 euros para presentes e alimentos no Natal. O Natal tornou-se uma orgia de consumo e acreditamos que esta é uma possível razão para a redução do nível de bem-estar.

 

SAPO24 - Por que os cristãos muito religiosos são mais positivos e menos afectados pela época do Natal?

Michael Mutz - No nosso estudo, o grupo de cristãos que se consideram muito religiosos é uma excepção ao padrão geral. Este grupo é menos afectado pelo declínio geral do bem-estar. Isto acontece supostamente devido a diferenças na forma como os cristãos muito religiosos experienciam o Natal. Acreditamos que comemoram este feriado mais orientados para dentro e possivelmente gastam menos tempo em actividades de consumo.

 

SAPO24 - Tem uma explicação porque as pessoas com níveis mais elevados de educação ou com crianças em casa são mais felizes no Natal?

Michael Mutz - As pessoas com crianças em casa e aquelas com ensino superior revelaram um maior nível de bem-estar subjectivo durante todo o ano, mas não no Natal. Assim, eles não são uma excepção à tendência geral de níveis de felicidade em declínio no Natal.

 

SAPO24 - Acredita que países não-europeus terão os mesmos resultados?

Michael Mutz - Acho que os resultados que encontrámos em países europeus tendem a ser encontrados nalguns países ocidentais não-europeus também, dado que estes países têm níveis semelhantes de desenvolvimento económico e prosperidade. 

publicado às 19:31

Uma sexta-feira como outra qualquer

Por: Rute Sousa Vasco

 

 “Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra.”

 

A notícia foi divulgada há exactamente uma semana. O astronauta Thomas Pesquet vai transportar para o espaço, no próximo ano, o texto do eventual acordo sobre as alterações climáticas que saia da cimeira de Paris, em dezembro. Agora é preciso é que haja acordo, porque esse ainda não é certo. Mas, se os líderes dos principais países poluidores conseguirem entender-se e comprometer-se, o presidente francês, Francois Hollande, entregará a Thomas Pesquet a prova do compromisso que ele levará consigo rumo à Estação Espacial Internacional, em novembro de 2016. “O ambiente é algo que sempre esteve próximo do meu coração. Quando regressam do Espaço, os astronautas vêm sempre um pouco diferentes porque viram a fragilidade da Terra”, realçou o francês, de 37 anos.

 

Fez também ontem uma semana que o Argentina-Brasil, da terceira jornada da qualificação sul-americana para o Mundial de Futebol de 2018, foi adiado para o dia seguinte. Choveu forte e feio em Buenos Aires e não houve outra hipótese que não cancelar o jogo.

 

Bem longe dali, e 24 horas depois, o partido de Aung San Suu Kyi, conquistou a maioria no parlamento da Birmânia. Foi um dia histórico! Apesar de um quarto dos assentos estar reservado aos militares, o partido da Nobel da Paz ultrapassou a barreira que lhe permite eleger o Presidente e formar governo. Foram as primeiras eleições livres na Birmânia em mais de 25 anos.

 

Isto aconteceu a 13 de novembro de 2015, um dia em que, aliás, aconteceu muita coisa. A Universidade de Coimbra, por exemplo, anunciou neste dia que conta atualmente com 3.769 estudantes de mais de 80 nacionalidades em regime de mobilidade e através do estatuto de estudante internacional. Também na mesma data, o Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve foi selecionado para um projeto europeu que pretende promover o aumento da aquacultura até 2020. E o Campo Arqueológico de Mértola, no Alentejo, recebeu o prémio deste ano das Academias Pontifícias do Vaticano, dedicado aos primeiros séculos do Cristianismo, pelas campanhas arqueológicas dos últimos anos e pelos "extraordinários resultados obtidos".

 

No dia a seguir, 14 de novembro de 2015, soubémos que o arquiteto Eduardo Souto de Moura criou um projeto para construir um auditório junto à sede da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que, a ser aprovado, deverá tornar-se a grande obra do prémio Pritzker na capital do país. Que boa notícia para Lisboa.

 

E soubemos também que um conjunto de marcas de mobiliário, iluminação e decoração portuguesas se juntou para criar uma forma inovadora de promover os seus produtos no mercado britânico. Alugou um apartamento residencial que transformou em espaço de exposição em Londres, o Covet London. Aí estão marcas como as do grupo Menina Design, Boca do Lobo, DelightFULL, BRABBU, Koket, Maison Valentina e Luxxu. Que boa ideia...

 

Em Évora, arrancou um projeto-piloto, o Programa “Mais”, com o objectivo de promover o emprego partilhado de técnicos entre as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e o recrutamento de profissionais desempregados para estas entidades. A iniciativa é da UNITATE – Associação de Desenvolvimento da Economia Social, uma IPSS sediada em Vila Viçosa (Évora), mas de cariz nacional, e dirige-se, nesta fase inicial, às 80 associadas da União Distrital das IPSS de Évora.

 

Quem passou por Lisboa foi Laurie Anderson que veio ao Lisbon & Estoril Film Festival estrear o seu último filme, Heart of a dog. Um filme sobre "liberdade e medo", num mundo criado por palavras. "Pediram-me para fazer um filme sobre a minha filosofia de vida. Disse logo que eu não a tenho e se tivesse não a punha num filme para toda a gente ver. Mas acabei por fazer uma coleção de histórias e, no final, é a minha filosofia de vida. Traiu-me.", contou. Ao longo de pouco mais de uma hora, Heart of a dog gira em torno de Lollabela, a cadela de Laurie Anderson.

 

O tenista português João Sousa subiu esta semana ao 33.º lugar do 'ranking' mundial de ténis, a melhor posição de sempre de um tenista português. E está confidante que "a época de 2016 vai ser ainda melhor".

 

No dia 16 de novembro, começaram os "Dias do Desassossego", uma iniciativa promovida, em Lisboa, pela Casa Fernando Pessoa e pela Fundação José Saramago para celebrar o livro e a leitura, com música, cinema e debates.

 

Mais coisas que aconteceram esta semana. Os 2.500 bilhetes que o Benfica tinha disponíveis para o jogo de sábado com o Sporting para a da Taça de Portugal esgotaram poucas horas depois de terem sido colocados à venda. No próximo dia 21, dez dos melhores pianistas nacionais e internacionais vão estar juntos em palco num concerto no centro cultural de Viana do Castelo, a maior sala de espetáculos do Alto Minho. E a revista médica The Lancet HIV revelou que um medicamento utilizado para tratar o alcoolismo associado a outras substâncias poderá contribuir para eliminar o vírus da sida em seropositivos (uma notícia conhecida no mesmo dia em que o ator Charlie Sheen contou no programa de televisão Today que é portador do vírus da sida).

 

Somos capazes de não ter reparado em várias destas notícias. Estas são as notícias da nossa normalidade.

 

Do direito que conquistámos – porque não foi sempre nosso e não é ainda um direito de todos – de usufruir simplesmente da normalidade. De sair de casa para ir trabalhar, trocar dois dedos de conversa no café da esquina, meter óculos escuros porque faz este fantástico sol de novembro e encontrar um lugar no metro onde possamos ler durante alguns minutos o livro que nos acompanha. Trabalhar, pensar em fazer coisas novas, combinar ‘comes e bebes’ com amigos, ir ao cinema ou simplesmente passear pela cidade.

Tudo isto sem termos de pensar duas vezes.

Isto é ser feliz sem saber.

Isto é aquilo de que não podemos abrir mão. Isto é aquilo que temos de reivindicar para quem não tem ainda. Apesar do medo. Apesar do horror. Apesar.

Todos os dias têm de ser uma sexta feira como outra qualquer. Em Lisboa, em Paris, em Beirute, em Lagos ou em Damasco.

 

Outras coisas sobre o direito à normalidade.

 

Normalidade é também igualdade. A igualdade dos géneros, nomeadamente no que respeita a salário igual para trabalho igual, ainda está longe e é preciso acelerar bastante o passo.

 

O que não é normal é que já se tenham passado 20 anos desde que este filme estreou. O Toy Story já tem 20 anos. O miúdo já está mesmo na faculdade. Mas que bom continua a ser sentarmo-nos no sofá e rever o filme.

publicado às 10:42

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