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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O carro do "rei" esteve desaparecido 50 anos. Até que Jack lhe deu uma nova vida

 Por: Paulo Rascão

 

Todos os anos na praia de Pebble Beach, na Califórnia, mais concretamente ao buraco 18 do Pebble Beach Golf Links, tem lugar uma das mais sérias competições automóveis do mundo. Ao contrário de Le-Mans ou do Mónaco, não ganha o mais rápido, mas sim o mais bonito. Entre os mais bonitos deste ano, está o carro do "rei" Elvis, que esteve desaparecido quase 50 anos e que é uma história de verdadeira dedicação de um coleccionador chamado Jack Castor.

 

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O “Pebble Beach Concours d’Elegance” reúne 200 dos coleccionadores de automóveis mais premiados, do mundo que todos os anos vão orgulhosamente mostrar ao publico e ao exigente júri as suas “jóias” do restauro automóvel. Os proprietários gastam anos de trabalho e autênticas fortunas para conseguirem ter um carro premiado.

E será depois do desfile no 18º buraco do campo de golfe (apelidado pelos concorrentes como “the best finishing hole in golf”) que hoje será conhecido o vencedor deste ano.

 

Competindo com as vedetas habituais - Ferraris, Lamborghinis, e uma reunião de modelos do Ford GT - a BMW leva este ano ao desfile um carro muito especial.Trata -se de um singelo roadster dos anos 50, o BMW 507. Dois lugares, “apenas” 150 cavalos de potência debitados por um motor V8 de 3.2 litros e 205 kms hora de velocidade máxima. Mas estes não são os números que interessam. Neste carro em concreto o número mágico é o 70079, e está escrito no chassi. E o que é que tem de especial?

 

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Pois bem, o BMW modelo 507 com o número 70079, pertenceu a Elvis Presley. Comprado na Alemanha no tempo em que o rei ali cumpriu o serviço militar obrigatório e também conheceu a sua futura mulher, Priscilla, que acompanhava a mãe e o padrasto, um oficial da força aérea americana. O carro do rei do rock esteve desaparecido quase 50 anos até que foi descoberto na garagem de um coleccionador na Califórnia. Depois de quase dois anos de restauro no departamento de clássicos da BMW, volta a rodar para se estrear no “Pebble Beach Concours d’Elegance”.

 

 

O “BM” do Jack que o rei usou na tropa

 

A BMW só produziu 254 automóveis do modelo 507, entre os anos de 1955 e 1959. O que fazia do carro já por si uma raridade. O 507 de Elvis Presley foi comprado em Frankfurt por impulso depois de fazer um test drive. O carro  tinha sido usado em competições por  um corredor conhecido na altura como “hillclimb champion” de seu nome Hans Stuck, que tinha feito algumas modificações ao modelo original, nomeadamente uma caixa de velocidades nova.

 

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O jovem soldado Elvis, então com 23 anos, já era uma estrela reconhecida a as fãs deixavam beijos e mensagens escritas com baton na pintura branca do carro. É por isso que Elvis decide pintá-lo de vermelho para “disfarçar”.

 

Em 1960, depois do serviço militar cumprido, o carro foi despachado para os Estados Unidos, mas poucos meses depois foi vendido em Nova Iorque por 4500 dólares ao animador de rádio Tommy Charles que leva o 507 para a sua terra natal, Birmingham, no estado da Alabama -  e o pequeno carro agora vermelho volta às pistas. É-lhe mudado o motor, caixa de velocidades, eixo traseiro, painel de instrumentos e tem um gloriosa segunda vida nas corridas. Em 1963 é de novo vendido com tantas modificações que já quase só o número 70079 lembrava que era o carro do rei do rock.

 

Mais duas mudanças de dono e em 1968, o 507 vai para a Califórnia e passa a ser o carro de todos os dias de um engenheiro espacial, Jack Castor, colecionador de bicicletas e de carros antigos. Os anos passam e o 507 junta-se à restante coleção na garagem.

 

Jack foi colecionando informações e peças originais do 507 como o intuito de o restaurar, até que um dia, ao ler um artigo na revista “Bimmer” sobre o carro de Hans Stuck e depois de Elvis, resolveu escrever à jornalista Jackie Jouretcarrium  que assinava o artigo a dizer que tinha um BMW 507 e com número de série 70079.

 

O departamento de clássicos da casa mãe da BMW há muito que procurava o carro do Elvis e quando a jornalista os informou que o carro estava na Califórnia, a BMW quis imediatamente adquiri-lo. Mas o engenheiro espacial tinha planos para o 507 e não o vendeu logo; foram necessários vários anos de namoro até que Jack aceitasse a proposta dos alemães, com a condição que o restauro fosse executado com todo o rigor como ele planeara fazer, embora a idade avançada já não lhe permitisse.  

 

Finalmente, o carro volta para a Alemanha, em 2014, num contentor juntamente com as peças originais que Jack tinha vindo a colecionar, e depois de uma breve passagem pelo museu da BMW, numa exposição intitulada, “Elvis’ BMW 507 – Perdido e Achado”, começa o enorme trabalho de restauro, que leva quase dois anos. Para chegar à versão original de 1958.

 

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O carro foi totalmente desmanchado e foram recuperadas todas a peças originais que estavam em bom estado. As partes que não se conseguiram recuperar foram  feitas do zero, com o método dos anos 50 e tecnologia de ponta a ajudar. Os puxadores da portas foram impressos em 3D com base na digitalização tridimensional dos originais e a pele e a costura dos bancos coincide com as fotografias de 1955. O motor e a suspensão foram reconstruídos e a pintura voltou a ser o branco original.

 

Todo o restauro foi executado conforme as indicações do Jack. Embora ele não tenha chegado a ver resultado final, porque faleceu no final de 2014 com setenta e sete anos. Se este carro foi do rei o grande legado que ficará do 507 será o de Jack Castor que cuidou e preservou a jóia da coroa durante tantos e anos, sem saber a quem tinha pertencido antes.

 

E agora graças aos investimentos no restauro que a BMW Classics fez, hoje será possível a outros donos deste modelo, encomendar peças  que entretanto foram produzidas para o 507.

publicado às 17:59

Eles (também) vão por a Isabel no lugar certo!

Por: José Couto Nogueira 

 

A iniciativa do Museu Nacional de Arte Antiga, de criar um crowdfunding para comprar “A adoração dos Magos” de Domingos Sequeira, foi um grande sucesso. No Reino Unido, onde iniciativas deste género são frequentes, os ingleses querem também fazer o mesmo com um quadro icónico.

 

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O crowdfunding, que em português pode ser traduzido como “financiamento colectivo”, é uma invenção atribuída ao empresário e filantropo norte-americano Michael Sullivan, que cunhou, em 2006, este sistema de angariar capital para projectos que teriam dificuldades de crédito junto de instituições bancárias. Qualquer pessoa pode entrar com um pequeno capital, a troco de depois ter preferência na compra do produto ou uso do serviço. Para investimentos maiores, dependendo do projecto, o micro-investidor até pode receber um dos objectos produzidos.

 

O termo é de 2006, mas a ideia é bastante anterior e, na verdade, surgiu para financiar artistas nas mais diversas áreas. A  banda de rock inglesa Marillion é, por exemplo, apontada como precursora neta forma de angariar financiamento com a iniciativa que lançou em 1997 para fazer um disco e uma tournée. Antes disso, em 1985, Bob Geldof e Midge Ure organizaram o que se pode considerar o primeiro financiamento colectivo em larga escala, com uma angariação de fundos para a Etiópia, a troco de bilhetes para o concerto Live Aid, que arrebatou 80 mil pessoas no estádio de Wembley, em Londres.

 

Na área da música e do cinema, sobretudo para documentários associados a causas, o sistema tem sido usado um pouco por toda a parte, desde o Brasil à Austrália. No começo deste século, o crowdfunding entrou nos negócios digitais, quer seja para software, quer para hardware. O sucesso varia conforme o caso, mas já há incontáveis projectos realizados ou em produção. Por exemplo, a Pebble, uma empresa norte-americana que queria desenvolver um “relógio inteligente” (smartwatch) no ano passado propôs um modelo chamado Pebble Time e conseguiu um milhão de dólares em quinze minutos.

 

António Filipe Pimentel, o dinâmico director do Museu das Janelas Verdes (pouca gente lhe chama MNAA), pensou nesta possibilidade quando o quadro de Domingos Sequeira foi colocado à venda pela família proprietária. Afinal eram só 600 mil euros, uma quantia completamente fora das possibilidades do museu ou do escanzelado Ministério da Cultura, mas não impossível num universo teórico de dez milhões de portugueses e das poucas empresas que fazem mecenato. A campanha foi muito bem arquitectada, uma vez que proponha a compra do quadro em pixels, um pixel valendo a módica quantia de 1,5 euros.

 

Como sabemos, correu muito bem. Houve alguns contribuidores chorudos, não muitos, mas o que aconteceu foi um grande entusiasmo da parte de pessoas que precisam de pensar cuidadosamente nos píxeis que gastam por mês e não se importaram de abdicar de alguns para a Arte. O Sequeira já é nosso e está orgulhosamente exposto nas Janelas Verdes.

 

Foi este sucesso que levou o Art Fund britânico a fazer idêntica campanha. O objecto de desejo é um icónico quadro de Isabel I, aquela rainha dita Virgem que nos infernizou a vida no século XVI, ao disputar os mares onde dominavam portugueses e espanhóis. No período em que as coroas de Portugal e Espanha estavam unidas sob Filipe I, Isabel emitia as chamadas “cartas de corso” a navios individuais – ou seja, autorizações para roubar e depois afundar os galeões cheios de preciosidades, sem usar a bandeira inglesa.

 

Foi também durante o seu reinado que a Invencível Armada luso-espanhola levou uma derrota total na Batalha de Gravelines, em 1588. Ora bem, para comemorar a vitória e mostrar a grandeza da rainha, um pintor desconhecido fez-lhe um quadro que ficou conhecido como “O Retrato da Armada” porque ao fundo aparecem os galeões ingleses vitoriosos. Conhecem-se três versões muito parecidas do “Armada Portrait”, mas esta, que está à venda por dez milhões de libras (13 milhões de euros) é considerada a original.

 

E onde se encontra actualmente? Ora, aí é que a História dá uma volta interessante. O quadro pertence aos herdeiros de Francis Drake, o famoso corsário que por acaso até nem esteve em Gravelines. Foi a ele que a rainha ofereceu o retrato, talvez como recompensa pela enorme tonelagem das nossas preciosidades roubadas para os ingleses.

 

O Art Fund, que é uma entidade privada, especialista em arranjar dinheiro para projectos artísticos, patrocinada por mecenas grandes e pequenos, já ofereceu um milhão de libras, para entusiasmar os beneméritos. Se o quadro fosse a leilão calcula-se que chegaria aos 16 milhões de libras – há sempre americanos com vontade de ter uma rainha verdadeira no salão nobre. Mas os ingleses, sendo mais práticos e rápidos do que nós, trataram logo de arranjar uma isenção de impostos para o vendedor, pelo que a família Tyrwhitt-Drake concordou em fixar o preço nos dez. O Museu da Marinha diz que dá 400 mil libras, uma vez que a obra ficará nas suas instalações de Greenwich. A campanha dura até Dezembro deste ano.

 

Este sistema de crowdfunding para preciosidades artísticas nacionais que não devem ser vendidas no mercado internacional já provou que funciona. É preciso reunir certas condições; que a obra esteja na mão de um proprietário único e que ele aceite vendê-la sem ir a leilão, o que lhe daria certamente um maior valor; e que haja pessoas interessadas em gastar uns píxeis com o patriótico intuito de preservar o que é nosso.

 

Vamos a ver qual será a próxima proposta do Museu Nacional de Arte Antiga.

publicado às 12:48

Podem as palavras cruzadas ser plagiadas?

Por: Pedro Fonseca

 

Tecnologias de Big Data ajudaram a detectar algumas semelhanças num dos autores de palavras cruzadas mais reputados nos Estados Unidos. Como diz um cruciverbalista português ( se não sabe o que é, continue para a linha seguinte), "não façam isso, as coisas descobrem-se... sempre!”

 

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Timothy Parker é um dos autores de palavras cruzadas - ou cruciverbalista - mais divulgado no mundo dos media em inglês. Desde 1999, as suas palavras cruzadas foram das mais vendidas nos Estados Unidos mas, segundo revelou a FiveThirtyEight no início de Março passado, "mais de 60 puzzles individuais copiavam elementos" dos do jornal New York Times (NYT) publicados anos antes, sendo assinados com pseudónimos. "Temas, respostas, grelhas e pistas" do NYT foram re-utilizados, assim como problemas de palavras cruzadas antigas do próprio Parker, usando nomes de autores falsos.

 

O "escândalo", como lhe chamou a FiveThirtyEight, foi descoberto por fãs deste passatempo, usando "ferramentas digitais" para análise ao jornal norte-americano de larga circulação USA Today e ao Universal Crossword, um serviço de syndication que revende palavras cruzadas para centenas de meios de comunicação social, sendo o direito de autor para ambos detido pela empresa Universal Uclick.

 

Parker recebeu menções no livro de recordes Guinness, foi considerado multimilionário devido a esta actividade e tinha alegadamente um grupo de 60 pessoas a trabalhar na Universal, onde era o editor responsável pelo resultado final. Esta empresa confirmou "algumas das alegações" no início de Maio e suspendeu Parker durante três meses, afirmando que no seu regresso haverá uma "forte segunda linha" na revisão dos desafios e que ele não voltará a colaborar para o USA Today.

 

O cruciverbalista explicou entretanto que se tratava de "uma coincidência" e não olhava para as palavras cruzadas do NYT "há anos". No entanto, mais de mil desafios de palavras cruzadas da Universal e quase 450 do USA Today tinham 75% de semelhanças com outros anteriores. O jornalista do FiveThirtyEight validou a existência de dezenas de "réplicas" - em termos de letras e espaços a negro -, no caso de Parker. Ao desvalorizar o caso, ele declarou que tendo editado "mais de 15 mil [palavras cruzadas], não estou de todo surpreendido", e que no caso da arrumação gráfica, não se preocupava se ela já tivesse sido usada, "se for boa para a minha audiência".

 

Plágio sem intenção

 

O negócio das palavras cruzadas não é pequeno mas requer alguma criatividade num processo que facilmente se pode tornar repetitivo. O site Crossdown explica as regras que se devem seguir na criação de bons desafios de palavras cruzadas, seguindo as indicações da editora Simon & Schuster, que primeiro as comercializou, e não é uma tarefa fácil. O alegado plágio pode mesmo ocorrer sem intenção.

 

Em 2009, o cruciverbalista Matt Gaffney criou um problema muito semelhante ao de um outro autor. Na revista Slate, assumiu o erro e explicou detalhadamente o que sucedeu, lembrando que a comunidade de criadores de palavras cruzadas nos EUA era pequena - cerca de 300 pessoas a trabalhar para os maiores meios de comunicação social - e, "assim como no jornalismo ou na literatura, o plágio é criticado no mundo das palavras cruzadas" e facilmente descoberto. Mas Gaffney concorda que só devem existir "umas duas dúzias de temas" nas palavras cruzadas, e que muitos dos criadores as repetem.

 

A industrialização das palavras cruzadas

 

Os elogios na descoberta do alegado plágio de Parker vão para a base de dados informática que permitiu validar as coincidências. Foi uma "ferramenta de justiça", considerou Gaffney, enquanto Will Shortz, responsável pelo passatempo no NYT, declarou que "isto nunca seria conhecido excepto na idade electrónica, quando se podem detectar estas coisas".

 

O caso iniciou-se em Fevereiro passado, quando Ben Tausig, um outro cruciverbalista, revelou na sua conta de Twitter que um problema seu de 2004 entregue à Universal e publicado no USA Today fora re-utilizado com pseudónimo em 2008 e novamente usado já este ano. Ele detectou todas as variações usando uma base de dados criada por Saul Pwanson e que integra mais de 51 mil problemas de palavras cruzadas de 11 meios, incluindo as do NYT desde 1942, do Washington Post desde 1992 ou do Los Angeles Times desde 1996.

 

Segundo Tausig, o mais estranho nesta história é a existência de 65 temas do NYT reproduzidos na Universal ou no USA Today, mas só um exemplo replicado em sentido contrário. Mesmo se esses 65 pudessem ser duplicados por acaso, as hipóteses de irem todos num único sentido "são minúsculas".

 

Pwanson, que apenas estava a testar correlações entre grandes quantidades de dados (Big Data), confessa que não esperava por estes resultados. "É a industrialização", quando "é difícil criar umas boas palavras cruzadas". Mas, como explicava Gaffney, as "palavras cruzadas são como flocos de neve" e "mesmo as que parecem muito semelhantes ainda são únicas".

 

Em Portugal, o cruciverbalista Paulo Freixinho também aconselha sobre o plágio nas palavras cruzadas: "não façam isso, as coisas descobrem-se... sempre!”

publicado às 00:21

Sei como jogaste no Verão passado

Por: Pedro Fonseca

 

O venerável bridge está sob acusações de batota. Análises das jogadas e vídeos permitem detectar as falcatruas - por enquanto. Mas mesmo quem acusa não quer ver este jogo de cartas numa versão mais electrónica.

 

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Créditos da imagem: L Ravenhill "Who doubled No Trumps ?" | http://www.haroldschogger.com/history.htm

 

Como se descobre a batota nos grandes campeonatos profissionais de bridge? A questão teve uma resposta recente: analisando as jogadas e os vídeos da competição. O bridge é um jogo de 52 cartas derimido a quatro, com dois parceiros colocados em posição frontal, sendo semelhante no posicionamento ao mais conhecido jogo nacional da sueca. As regras do bridge têm sido actualizadas desde as primeiras enunciadas em 1928, sem modificações radicais.

 

O "escândalo da batota no mundo do bridge profissional", como lhe chamou a The New Yorker, envolveu os israelitas Lotan Fisher e Ron Schwartz mas, perante este caso, surgiram mais acusados. Em 2010, eles triunfaram no World Junior Teams Championship, seguindo-se no ano seguinte o European Youth Bridge Team Championships e os convites para inúmeros torneios com os melhores jogadores.

 

O bridge é um jogo muito baseado na experiência, explicava Gavin Wolpert, profissional e co-fundador do site Bridgewinners, pelo que não é fácil jogadores jovens ganharem. "Quando se é novo, não se entra e de repente se começa a ganhar qualquer evento", disse. Mas foi isso que sucedeu com Fisher e Schwartz.

 

Boye Brogeland, um jogador da Noruega, desconfiou do par no Verão passado - a 15 de Agosto, quando perdeu para aquela dupla -, e analisou as jogadas dele e do seu parceiro Espen Lindqvist contra a dupla israelita, para considerar que eles faziam batota. "Só não sei como a faziam", disse, enquanto Fisher e Schwartz negaram estas alegações.

 

Brogeland foi "recrutado" em 2013 pelo seu ainda actual patrocinador Richie Schwartz e diz receber 50 mil dólares anuais, bem como despesas e bónus pelo desempenho nos torneios, segundo a revista Vanity Fair. Este jogador já estava na equipa de Richie Schwartz quando este contratou Lotan Fisher e Ron Schwartz, mas ele nunca os tinha defrontado anteriormente, apenas ouvido "rumores" sobre as suas prestações.

 

Entre 2014 e no ano seguinte, a equipa de seis - Brogeland, Lindqvist, Fisher, Schwartz, Allan Graves e Richie Schwartz (o patrocinador também pode jogar) - ganhou vários campeonatos de bridge.

 

"A maior falcatrua na história do bridge"

 

Após a separação no final do Verão de 2015, a Vanity Fair descreve como decorreu um desafio posterior em Chicago, em que os ex-parceiros se defrontaram, e não parece ter sido nada simpático. Brogeland triunfou, mas Fisher contestou essa vitória com base num pormenor técnico, tendo-lhe sido outorgada a vitória. Foi quando Brogeland tentou perceber como tinha perdido e começou a investigar a alegada batota de Fisher e Schwartz. Perante as descobertas, tentou sensibilizar as federações do bridge para o caso, mas sem resultados palpáveis e quando se aproximava um torneio importante (Bermuda Bowl).

 

A acusação era grave e Gavin Wolpert aconselhou Brogeland a não a fazer sem provas. Brad Moss, outro jogador norte-americano e que ajudou a obter provas contra Fisher e Schwartz, também o avisou, devido ao patrocinador da dupla israelita (Pierre Zimmermann, "a pessoa mais poderosa no bridge", segundo ele). Outros jogadores ouvidos pela Vanity Fair consideram que Brogeland não tem razão.

 

Mas este avançou com as acusações, criando o site Bridgecheaters e disponibilizando vídeos de partidas no campeonato europeu de 2014, ganho por Fisher e Schwartz. Ele descreve em várias páginas "a maior falcatrua na história do bridge", apontando algumas jogadas dos seus oponentes como "inexplicáveis".

 

Na Vanity Fair, o profissional norte-americano de bridge Chris Willenken considera o caso como um "perfeito exemplo de desobediência civil", perante um "manto de silêncio" das autoridades do jogo e dos pares. Além de analisar as jogadas e disponibilizar vídeos (ou remeter para o YouTube), o norueguês pediu ajuda para confirmar as suas suspeitas - e os dados começaram a chegar.

 

O par tinha sido repreendido pela Federação de Bridge de Israel em 2003 por "violações éticas em eventos de juniores". Dois anos depois, Fisher foi apanhado com uma folha de papel sobre uma jogada que ainda não tinha sido efectuada à mesa de jogo, e acabou suspenso por vários anos. Na mesma altura, Schwartz também foi suspenso mas, "mesmo antes das penalizações terminarem, eles ressurgiram como um par". No entanto, desde o Verão de 2015, quando surgiram as acusações, não voltaram a jogar em grandes torneios, revelou a revista Rolling Stone.

 

O próprio Fisher diz sobre a dupla que "estamos conscientes de que a nossa forma de [ganhar] parece suspeita" mas "entre parecer suspeito e ter um sistema e enganar/transferir informações entre os dois lados... é como a diferença entre o preto e o branco".

 

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Quem é No Matter?

 

Com a cooperação internacional, o Bridgecheaters permitiu detectar como eles faziam a alegada batota no jogo, mas revelou igualmente outros jogadores que usavam truques pouco éticos no jogo - como o par italiano Fulvio Fantoni e Claudio Nunes, que foram contratados para a equipa do Mónaco e ainda estão em investigação, ou os alemães Josef Piekarek e Alex Smirnov, que confessaram sobre alegações à sua "conduta ética" conterem "alguma verdade", e concordaram não mais jogarem juntos em competições. Também os polacos Cezary Balicki e Adam Zmudzinski foram impedidos de participar no referido Bermuda Bowl do ano passado por alegações de batota e estão sob investigação.

 

Curiosamente, algumas das acusações a estes nomes no site surgiram de um utilizador com o nome No Matter, que se presume ser Lotan Fisher. Brogeland não sabe explicar a razão, excepto se for para afastar o "foco" das suas actividades. Fisher concordou ter ajudado o No Matter para "limpar o jogo" e também que pretendia limpar a sua reputação e a de Ron Schwartz.

 

As acusações estão feitas, mas os processos legais que estão a decorrer vão provar quem tem razão. "Fisher e Schwartz disseram a Brogeland que o não processavam se ele retractasse as acusações e lhes pagasse um milhão de dólares", o que Brogeland recusou. Eles estão igualmente a recorrer da decisão da federação israelita de bridge, tendo sido expulsos da equipa do seu patrocinador.

 

Embora haja prémios em dinheiro para os torneios de topo, a verdadeira atracção para os maiores profissionais do jogo é a oportunidade de estarem em equipas patrocinadas por fãs multimilionários. Por exemplo, Pierre Zimmermann é CEO da Zimmermann Immobilier, uma empresa imobiliária suíça, enquanto Richie Schwartz é um matemático e analista informático que fez fortuna nas corridas de carros nos anos de 1970.

 

Jogadores desse calibre podem ganhar centenas de milhar de dólares por ano a jogar em torneios de alto nível. E, explicava a Rolling Stone, "esse dinheiro, segundo alguns jogadores, incentiva ainda mais os concorrentes a fazerem batota". Willenken é claro: "há bastante dinheiro envolvido pelo que é fácil entender porque nem todos podem ser honestos".

 

"No futuro, apanhar batoteiros será provavelmente mais difícil", considera a The New Yorker (que lista antigos batoteiros, os truques que usavam, de como foram descobertos e o nível de segurança imposto nos torneios para os impedir). Isto porque, à medida que eles entendem o potencial das tecnologias como o vídeo, engendram formas de as contornar.

 

Mesmo Brogeland não considera a evolução do jogo do seu modelo analógico para uma versão mais electrónica, apontando antes um empenho numa maior cultura ética.

publicado às 17:15

Foi ela, a miúda que dançou com Springsteen no Rock in Rio

Por: Isabel Tavares

Foto: Carlos do Carmo

 

Chama-se Andreia, tem 20 anos, vive na margem sul do Tejo e é estudante de Jornalismo. Há uma semana Bruce convidou-a para dançar. Dois dias depois, em Madrid, o Boss parou de tocar quando voltou a vê-la no Santiago de Bernabéu.

 

 

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Era uma no meio de mais de 67 mil espectadores e Springsteen escolheu-a para subir ao palco e dançar “Dancing in the Dark”. É difícil saber quem ficou mais feliz, se Andreia Friaças, 20 anos, se o seu pai, um fã incondicional que segue The Boss para onde quer que ele vá.

 

As surpresas não acabaram aqui. Dois dias depois daquela que parecia a melhor noite de todos os tempos, Bruce Springsteen parou de tocar quando reconheceu Andreia no meio da multidão, desta vez no Estádio Santiago de Bernabéu, em Madrid, Espanha.

 

«Até me disse qualquer coisa, mas não percebi o quê. A verdade é que isso tornou o concerto memorável. Penso que achou piada a ver uma miúda em Lisboa na quinta-feira e, no sábado, voltar a encontrá-la em Madrid», conta. Estava do lado direito do palco, onde Springsteen vai menos, mas a partir daí Bruce regressou tantas vezes que as pessoas começaram a colar-se a ela: «eu não saio daqui, diziam».

 

No Rock in Rio foi tudo uma questão de sorte. Andreia não levava os cartazes da praxe a pedir para dançar com Bruce Springsteen, mas estava num bom lugar, o corredor que atravessa o recinto. «Quando ele passou, apontei para mim mesma para ir para o palco dançar, porque ele costuma dançar com alguém - lembra. Olhou para mim e fez sinal com a mão para eu subir e fui puxada por um segurança que, no final, voltou a colocar-me no a sítio onde eu estava, literamente. Nem sei o que lhe disse, agradeci o momento e penso que disse que o veria em Madrid».

 

«Foi giro, muito giro, e um pouco assustador quando olhei e vi milhares de pessoas. Mas não era uma coisa em que eu pensasse, não estava na minha lista de coisas a fazer. Vou aos concertos, porque gosto, para dançar, para curtir a música. O resto não me passava pela cabeça», garante. E quando diz vou aos concertos, Andreia quer dizer que já foi a «uns dez», só de Bruce Springsteen, o primeiro quando tinha apenas 13 anos.

 

É estudante do segundo ano de Jornalismo, na Escola Superior de Comunicação Social, onde pertence a alguns núcleos, como a rádio da escola, a ESCS FM, onde faz os noticiários das 19h e onde tem também um programa: “A voz dos ismos”.

 

Gosta de Springsteen por influência do pai, um informático fã incondicional de Bruce. Mas rock nem é o estilo preferido de Andreia, que se lembra de, ainda muito pequena, ter sido arrastada para um concerto dos Guns N’ Roses e de não ter gostado. Até hoje. Prefere blues e jazz. Adora Miles Davis.

 

O seu encanto pela rádio não tem nada a ver com a música. «Sou até um pouco hostil à ideia de passar música na rádio, de a rádio ser dominada por música. Mas é lá que oiço os noticiários». Isso e reportagem é o que gosta e gostaria de fazer profissionalmente. A Antena 1 é a sua estação preferida e na TSF ouve “Sinais”, de Fernando Alves.

 

Escolheu jornalismo apesar de todas as mensagens dissuasoras que foi recebendo e hoje não trocava de curso por nada. E recorda o optimismo do falecido Óscar Mascarenhas, que foi seu professor. Fala nele várias vezes, uma delas quando conversamos sobre livros: «O professor Oscar Mascarenhas dizia que tínhamos de ter três livros: um na casa de banho, um para ler nos transportes e outro na mesa de cabeceira. Não cheguei ao ponto da casa de banho, mas gosto de ler dois livros ao mesmo tempo», confessa. Acabou agora de ler O Arranca-Corações, de Boris Vian e tem a ideia de que o último livro que leu é sempre o favorito.

 

Atenta, diz que «estamos rodeados de uma realidade que não inspira confiança e não é apelativa. Todos os dias somos [os jovens] bombardeados com mensagens negativas: sai daqui, sai daqui. Pessoalmente, adoro viajar – este Verão vou fazer o Interrail -, mas não queria sair de Portugal. Não sou nada nacionalista, mas gosto do meu país. E estranho que estejam o tempo todo e dizer-me que devo sair».

 

Andreia é uma optimista. Mesmo vivendo em Portugal, na União Europeia, onde «o panorama não é o mais iluminado. A Europa está completamente fragmentada, precisa de uma reforma gigante, considera. Mas a minha ideia é tentar resistir às dificuldades».

 

Que dificuldades pode ter uma miúda de 20 anos? «A minha mãe é enfermeira e agora trabalha em dois hospitais. Sente-se o esforço acrescido. Ganha tanto agora com quando tinha um só emprego e trabalha o dobro. Coloco-me no lugar dela: às vezes sai de casa às sete da manhã para começar a trabalhar às oito e chega às dez, dez e meia da noite. É brutal. E não temos luxos por aí além; se calhar, um concerto do Bruce aqui e ali».

publicado às 17:40

“Meu querido…”

Por : Roberto Pereira

 

Há pessoas que nos marcam mais do que outras. O Nicolau era uma dessas pessoas.

 

 

Quis o destino que fosse com ele o meu primeiro projecto profissional enquanto argumentista. E era também para ele que estava a escrever o meu mais recente projecto. Pelo meio, houveram tantos outros. Televisão, teatro, cinema… fizemos muitas coisas e outras tantas ficaram por fazer. “Mas ainda as vamos fazer, meu querido”, dir-me-ia ele se me ouvisse agora.

A sua energia e vontade de fazer coisas, eram, de facto, impressionantes.

 

Nunca dei por perdido um minuto que estivesse na sua companhia. A falar de trabalho, de futebol, de política ou meramente do tempo mais frio que ele tanto detestava, agradeço-lhe o privilégio que tive em cada um desses minutos. E agradeço, também, o facto do Nicolau nunca ter sido pessoa de tratar dos assuntos pelo telefone ou por email. Foi sempre cara a cara, como fazem as pessoas que gostam de pessoas.

 

Mas hoje sinto-me triste. Muito triste. Não consigo sorrir, nem mesmo quando me recordo das suas histórias contadas na primeira pessoa. A sensação de vazio é enorme. Pessoal e profissionalmente a sua partida é insuperável. Portugal é hoje um país ainda mais pobre. Humana e artisticamente. Porque partiu o melhor de todos.

 

Não fui capaz de ligar a televisão mais do que meia dúzia de segundos, mas uma coisa deu para perceber: há muito tempo não via uma programação tão boa. O Nico estava em todos os canais… como, aliás, sempre esteve – coisa que apenas está ao alcance de alguns. Dos especiais.

 

Vou ter saudade suas. Muitas. Do seu olhar terno e expressivo, da sua educação, do seu sorriso sincero, das suas sábias e amigas palavras e, principalmente, da sua boa disposição. Foi uma honra enorme conhecê-lo e privar consigo, Senhor Nicolau Breyner!

Fico, em parte, aliviado porque tive a oportunidade de lhe dizer o quanto o admirava e gostava de si. E vou gostar sempre. Que falta me vão fazer os telefonemas que começavam geralmente com “Meu querido, temos de falar…”. E temos mesmo!

 

Por isso tenho a certeza que nos vamos voltar a encontrar, e fica, desde já, uma promessa: nesse dia, eu levo o Pêra Manca.

 

 

*Roberto Pereira é argumentista

 

publicado às 14:04

Nico

Por: Rui Sinel de Cordes

 

Há uns anos, tive o meu primeiro trabalho profissional como guionista do “Aqui Não Há Quem Viva”, uma sitcom diferente, na qual Nicolau Breyner acumulava um dos papéis principais com a direcção de actores. Era normal, em todos os episódios, termos actores convidados com papéis pequenos e, na escrita de um dos guiões, apareceu uma personagem que me via capaz de interpretar. Na altura, estava a dar os primeiros passos no stand-up comedy e tinha frequentado um curso de teatro, curiosamente dirigido pelo saudoso José Boavida, na Guilherme Cossoul.

Comuniquei à produção que gostaria de ser eu a fazer aquele papel e depressa me informaram que teria de fazer um pequeno teste com o Nicolau. Pensei em desistir, a vontade de entrar na série não era maior que o stress de estar em frente ao Nico a demonstrar um skill que não possuía. Por outro lado, já estava pedida a “audição”, deixando-me sem outro remédio. Fui aos estúdios e disseram-me para esperar um bocadinho numa sala, que o Nicolau já lá ia ter comigo.

 

Quase 10 anos depois, não me recordo de ter estado outra vez tão nervoso como naquela tarde. Percebam isto, eu não estava nervoso por mim, eu já nem queria saber daquele pequeno papel. O que eu não queria era fazer figura de parvo em frente àquele que considerava ser o melhor actor português, ou fazê-lo perder o seu tempo. Numa sala de quatro metros quadrados, com ele sentado à minha frente, de guião na mão, batemos todas as falas da minha personagem. No final, depois de me perguntar pelas minhas ambições de carreira, sorriu e disse-me “podes vir fazer na segunda-feira”.

 

Eu só queria não me enganar, ele só queria que eu ficasse feliz, apesar de na altura, não ser claramente a escolha ideal para o papel.

 

Voltámos a encontrar-nos anos mais tarde, quando foi o meu entrevistado no episódio do Alentejo do Gente da Minha Terra. Recebeu-me com a generosidade do costume, no seu camarim, minutos antes de um espectáculo a solo no Casino de Lisboa. Novamente, ele calmíssimo, e eu nervoso por estar na sua presença. Dizia ele que “ter de ter graça é cansativo”. É, muito. Mas mais vale passar uma vida cansado, do que parar de criar, de inovar e de tentar (e de conseguir, tantas vezes) como ele.

 

Nicolau Breyner era um homem amado pelo público e também pelos colegas. Notável e invulgar.

 

No entanto, o que lhe invejo não é a vida. É a morte. Adorava poder um dia morrer como ele: lúcido, válido, no campo e em acção. A mexer. Sempre a trabalhar.

 

Que luxo, Nico! Até sempre. 

publicado às 11:01

Progresso alimentar: matar a fome já não é o que era

Por: José Couto Nogueira

 

Os alimentos orgânicos são um requinte da civilização ou a salvação da Humanidade? O que não falta são pessoas a seguir dietas específicas, seguindo as suas próprias convicções ou a conselho de nutricionistas. Os supermercados abrem secções de alimentos "orgânicos" e as lojas da especialidade multiplicam-se. Até os animais de estimação têm hoje direito a uma dieta natural a preços proibitivos para muitas famílias.

 

 

Enquanto durante grande parte da História – e da pré-História – os homens se preocupavam sobretudo em ter o que comer, nesta época final da Civilização Ocidental o problema já não é obter alimentos suficientes, mas sim os alimentos certos – isto é, aqueles que proporcionam bem estar e prolongam a vida saudável. Paralelamente, há a preocupação de praticar uma agricultura que não esgote os solos, permitindo a manutenção permanente de boas colheitas.

 

Tudo isto é relativamente novo; foi em 1911 que o agrónomo norte-americano F. H. King estudou as culturas milenares orientais, isentas de produtos químicos – tanto fertilizantes como pesticidas artificiais – e as comparou com a agricultura ocidental. Nos países industrializados, as necessidades alimentares duma população crescente tinham obrigado a recorrer a uns e outros para obter alimento abundante e barato: matava-lhes a fome mas fazia-lhes mal.

 

É preciso notar que a alimentação de grande parte do século XX, que hoje em dia os defensores dos produtos orgânicos criticam como sendo “impura”, era bastante natural para os padrões actuais. As galinhas, por exemplo, eram cultivadas ao ar livre, os porcos alimentados com os restos domésticos e o gado em geral comia o que se encontra na natureza. Foi a intensa industrialização alimentar – agora chamada “agro-indústria” como sinónimo de ganância empresarial, assassinato em massa, alimentos transgénicos e outros crimes horrendos – foi essa industrialização que criou o movimento contrário, dos pequenos agricultores, dos galinheiros e das vacas soltas no prado.

 

Não adianta os cientistas cépticos, certamente comprados pelas multinacionais gananciosas, afirmarem que todos os cereais e a maioria dos vegetais que comemos foram geneticamente modificados ao longo dos séculos

 

A alimentação dita orgânica começou a surgir em Portugal na década de 1990 e acabou por se tornar ela própria uma indústria, já neste século. Como aliás aconteceu um pouco por toda a Europa, que vai buscar muitos alimentos a África e à Ásia, mas mantém um controlo contínuo junto dos produtores, para garantir que eles não se deixam tentar pelos demónios do aceleramento e protecção químicos ou, pior ainda, vá de retro Satanás, dos horríveis transgénicos.

 

Não adianta os cientistas cépticos, certamente comprados pelas multinacionais gananciosas, afirmarem que todos os cereais e a maioria dos vegetais que comemos foram geneticamente modificados ao longo dos séculos, para se tornarem mais nutritivos, resistentes às pragas e abundantes; a desconfiança está lançada. E também não é segredo que os animais são criados em barracões ao modelo de Dachau, alimentados por sucedâneos do petróleo cheios de antibióticos, ansiolíticos e esteróides. Temos alimentos baratos e abundantes e vamos viver mais dez ou vinte anos que os nossos avós, mas entupidos de toxinas industriais e higienizados por detergentes químicos. Ou seja, morreremos mais tarde, mas muito menos saudáveis que os nossos antepassados, que se lavavam com mijo uma vez por ano e comiam carne podre durante o inverno – daí o sucesso da pimenta da Idade Média, que encobria a putrefacção da carne.

 

Então, a alimentação orgânica é o que está a dar. Batatas que lembram alienígenas de filme de terror, tomates parecidos com o corcunda de Notre Dame, alfaces com o dobro do peso em terra, e frangos que parecem, esses sim, fugidos de Dachau – tudo ao triplo do preço pois, é claro, cultivar e criar sem ajudas artificiais rende menos e portanto custa muito mais.

 

compramos duas postas de pescada “capturada com anzóis e aparelhos de anzol”, que nos garantem ser “pesca artesanal e sustentável da região de Sesimbra” e embalada em plástico a vácuo, com rótulo autocolante impresso a quatro cores

 

Este sobre-preço dos alimentos naturais leva, evidentemente, a uma saudável selecção económica: só as famílias mais abonadas se podem dar ao luxo de comprar nos novos empórios onde os produtos tinham, até há pouco tempo, o desejável mau aspecto das coisas extraídas das entranhas da terra. E dizemos que tinham, e não que têm, porque entretanto a procura intensa por tanta natureza levou – adivinhe! – à necessidade de industrializá-la.

 

Graças a mais este avanço da civilização, que consiste na origem natural dos produtos combinada com a embalagem pós-industrial das doses, podemos comprar cereais de pequeno-almoço colhidos à mão por camponeses de rusticidade garantida e embalados em alumínio plastificado impresso por serigrafia a laser.

 

Por exemplo, no mais novo supermercado biológico de Lisboa, muito mais chique que o La Redoute de Paris ou as secções gourmet dos melhores supermercados nacionais, compramos duas postas de pescada “capturada com anzóis e aparelhos de anzol”, que nos garantem ser “pesca artesanal e sustentável da região de Sesimbra” e embalada em plástico a vácuo, com rótulo autocolante impresso a quatro cores. (A cola do autocolante é um químico altamente poluente, mas não vamos ingeri-la, não é verdade?) Aliás, o supermercado tem garagem própria na cave e um arrumador que nos leva e traz o carro, não vá uma caminhada com os produtos pela rua poluída estragar os efeitos benéficos de tanta natureza.

Sim, nós merecemos comer do melhor – isto é, do industrialmente mais natural que é possível fazer passar pela longa cadeia de distribuição que leva um produto colhido à mão em Trás-os-Montes a chegar à Av. Duque d’Ávila, no coração da capital, possivelmente trazido em carroça de madeira natural puxada por burros alimentados a fava. Mas, se nós merecemos, o que dizer dos nossos queridos animais de estimação?

 

É preciso ver a estante dos produtos orgânicos para animais! É preciso ver porque, sinceramente, é um progresso impensável que, apenas 100 anos depois de se dar os restos das refeições aos bichos da casa, agora se gaste uma pipa de euros para lhes dar iguarias que os sem-abrigo nem saberiam identificar. Tudo embalado no tal alumínio multi-colorido selado contra bactérias.

 

A resposta está dada: não, a alimentação orgânica não é uma preciosidade da decadência, mas sim o retorno à glória do ditado sempre presente: “mente sã em corpo são”. Porque a sanidade mental é um bem cada vez mais escasso!

publicado às 11:51

Carinhos vendem-se - e não, não é o que está a pensar

Por: Helena Oliveira

 

O negócio dos mimos – sem cariz sexual – vai bem e recomenda-se. São já várias as empresas que apresentam um portefólio de serviços que incluem a oferta de carinho, abraços, aconchegos e outras emoções similares aos que vivem demasiado sozinhos para os terem de borla. Bizarro? À primeira vista, talvez. Mas se tivermos em linha de conta que a solidão faz, comprovadamente, mal à saúde, talvez seja mais fácil aceitar o que estes profissionais do amor platónico têm para oferecer

 

 

E se de repente um desconhecido lhe cobrasse um dólar por minuto para o abraçar? E, mais inimaginável ainda, se você aceitasse cobrar por esse serviço. Serviço? Sim, leu bem, o negócio da venda de mimos, afagos e aconchegos não vai mal e o que é verdadeiramente uma estratégia inovadora e, quiçá, competitiva, é o facto de não incluir, de todo, no seu modelo de negócio, qualquer conotação sexual.

 

“O toque tem o poder de nos confortar quando estamos tristes, de nos curar quando estamos doentes, de nos encorajar quando nos sentimos perdidos e acima de tudo o resto, de nos fazer aceitar que não estamos sozinhos”. 

Samantha Hess, fundadora da CuddleUpToMe

 

 Samantha Hess, da Cuddle Up To Me.

 

Para que tal premissa seja cumprida, o cliente assina, como em qualquer acto comercial, um contrato no qual se compromete a respeitar as regras da actividade prestada. Para “venda” existe uma variedade de produtos emocionais oferecidos por prestadores profissionais de mimos e carinhos. Ora leia.

 

“Oferecemos ‘sessões de mimos’ completamente platónicas, integralmente vestidos, com a duração mínima de 15 minutos e máxima de 5 horas. O objectivo de uma sessão é ajudá-lo nos momentos da vida em que ou precisa de doses extras de meiguice, ou quando não consegue ‘extrair’ mais carinho das pessoas que ama. Queremos que saiba que você importa e que aqui pode ser amado sem culpa, vergonha ou julgamento próprios da nossa cultura (…). O custo deste serviço afectuoso é de um dólar por minuto; e os resultados não têm preço”.

 

Esta é a resposta, em tradução livre do inglês, de uma das faqs no site da Cuddle Up To Me, uma empresa fundada por Samantha Hess, “dadora profissional de mimos” [cuddler de cuddles], em finais de 2012, em Portland, no estado de Oregon. A ainda jovem empresa – mas não uma start (me) up - de Hess tem como missão servir como “uma plataforma para se ser amado, compreendido e apreciado”. O mesmo acontece com uma empresa sua concorrente, a Snuggle Buddies, sedeada em New Jersey e que se auto-intitula de “fornecedora de mestres em amor platónico” ou de um novo tipo de terapia que promete “remover” a solidão e os seus sintomas – depressão, ansiedade e stress – através do toque terapêutico. De acordo com o seu fundador, Evan Carp, a empresa conta agora com 125 “mimadores” profissionais e com receitas mensais na ordem dos 16 mil dólares.

 

Se esta é a versão dos tempos modernos do papel das damas de companhia de outrora ou uma contorção da ideia das damas (e cavalheiros) acompanhantes da actualidade, não se sabe ainda. Primeiro há que digerir o pasmo da coisa e manter a mente aberta, que isto de viver no século XXI não é, de todo, fácil.

 

Na verdade, o que o negócio de Hess oferece é a possibilidade de se contratar pessoas que dêem mimo, afectos, carinhos e meiguices por determinado valor por minuto. E se o que à primeira se estranha ou se desdenha ou se condena, pode transformar-se num bom exercício de reflexão. Numa mistura de empreendedorismo – sim, já cá faltava -, sociologia, saúde, neurociência e um pouco de imaginação, o negócio dos carinhos oferece doses extra de oxicotocina – uma molécula extremamente poderosa e benéfica - a clientes solitários que muito provavelmente não sabem que a solidão faz mal à saúde, numa sociedade meio alienada e indiferente, movida a conexões humano-digitais e que conta com um número crescente de solitários. A ideia não é nova, mas tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos à medida que do preconceito se passa para um novo conceito que assegura que é possível oferecer “calor humano” sem qualquer cariz sexual. Tal não impede, como seria de esperar, que os fundadores destes novos empreendimentos recebam, de forma recorrente, mensagens de ódio, e até de morte, pela prestação de tais supostamente estranhos serviços.

 

A este propósito, em Julho de 2014, a revista "The Atlantic" publicou um artigo sobre uma “festa de mimos” que juntou cerca de 20 pessoas em Dallas, na sua maioria de meia-idade, e que em conjunto se divertiram com guerra de almofadas, carícias, abraços, risadas em volta de snacks e conversas soltas e honestas sobre uma das mais básicas necessidades do ser humano: a de receber carinhos. Como se pode ler no artigo, os dados “oficiais” indicam que este tipo de festas teve início há mais de uma década e que de uma primeira experiência bem-sucedida, em Fevereiro de 2004, em Manhattan, surgiu a organização Cuddle Party, a qual dá formação a “facilitadores” deste tipo de eventos (ou workshops, como se pode ler no seu website) em 17 países do mundo. As regras de convivência são simples, mas de cumprimento obrigatório, sendo que estímulos ou possíveis ideias de “manifestações sexuais” são estritamente proibidos.

 

Mais impessoal e com um cariz diferente, mas muito bem-sucedido também, é um outro negócio que também oferece companhia, denominado RentaFriend, que conta com cerca de 530 mil pessoas que, em regime de freelance, podem ser contratadas para acompanhar homens e mulheres que viajam com frequência por motivos profissionais e que optam por ter a companhia de um estranho que a eles se junte para partilhar uma refeição, uma ida ao teatro ou ao futebol, num ambiente de simples camaradagem. O serviço prestado por esta empresa é igualmente procurado por pessoas que chegam a uma cidade pela primeira vez e que, em vez de contratarem um guia turístico, optam por escolher um “local” para fazer de cicerone. Mas, na verdade, o serviço de “aluguer de amigos” serve múltiplos propósitos, seja o de se ter uma companhia agradável quando se é convidado para um casamento ou para uma festa, seja ainda o de alguém que sirva de “incentivo” para que não se falhem as idas ao ginásio. Como seria de esperar, as fotografias e os perfis dos prestadores de companhia estão disponíveis no site em causa, que opera em vários locais do mundo. Mas o serviço de “aluguer de amigos” pouco tem a ver com o que promete o negócio dos mimos.

 

 

Já não mais vale só do que mal acompanhado

 

Por muito “modernos” que nos sintamos, a ideia de se pagar a alguém para oferecer companhia e carinho é passível de causar incredulidade, umas boas risadas ou meros sentimentos de repulsa. Principalmente a quem nunca sentiu o vazio da solidão e os males – físicos e psicológicos - que a mesma encerra.

 

E se este fenómeno da solidão tem sido, até agora, mais associado a idosos, a verdade é que um pouco por todo o mundo são cada vez mais as pessoas que afirmam sentir-se sós, independentemente da faixa etária a que pertencem. Sendo o Japão o recordista no que respeita ao isolamento, nomeadamente ao que é auto-imposto e que deu origem à síndrome conhecida como “hikikomori” – a qual “ataca” principalmente jovens entre 20 e 30 anos, a residir em casa dos pais e que se afastam voluntariamente da sociedade, vivendo entre as quatro paredes dos seus quartos e apenas ligados à Internet –, são também inúmeros os estudos que apontam para um aumento da solidão na generalidade dos países ocidentais. Partindo sempre da dualidade inerente ao uso das tecnologias - os que defendem que as mesmas provocam alienação versus os que afirmam que, pelo contrário, diminuem a solidão – a verdade é que, face às duas últimas décadas do século passado, estar só, mesmo que acompanhado, assemelha-se a uma espécie de vírus em progressão no mundo em que vivemos.

 

A título de exemplo, num estudo publicado em 2006 pela American Psychological Association, um quarto dos americanos auscultados (em 2004) afirmava não ter ninguém com quem discutir questões importantes, o dobro do número dos que confessavam o mesmo em 1984. Dados mais recentes recolhidos pela Pew Internet, em Novembro de 2009, davam conta de que as redes de discussão dos americanos apresentavam um decréscimo em cerca de um terço face a 1985. E, em 2013, por intermédio de uma pesquisa efectuada pelo Barna Group, 20% dos entrevistados admitiam sentir-se sozinhos contra apenas 12% uma década antes. Dois outros estudos, mais recentes e citados num outro artigo que a "The Atlantic" publicou em Dezembro último, reportam que, nos Estados Unidos, são já cerca de 40% os adultos (e não apenas os seniores) que se sentem socialmente isolados.

 

Se este número crescente de isolamento representa um fenómeno sociológico próprio das sociedades modernas, existirão motivos para que se critique empresas como a Cuddle Up To Me ou a Snuggle Budies – e outras que vão aparecendo entretanto – que no seu portefólio de serviços tentam, por determinado preço, é certo, amenizar os males da solidão?

 

A resposta será variável, decerto, de acordo com os preconceitos de cada um, mas talvez ajude na aceitação desta venda de amor platónico o facto de, comprovadamente, a solidão fazer mal à saúde. Se pagamos a um psicólogo para simplesmente nos ouvir, que mal tão grande advirá de contratarmos alguém para nos abraçar e dar mimos, principalmente se tivermos em mente os efeitos negativos que o isolamento provoca no ser humano?

 

Em Fevereiro de 2014, John Cacciopo, em conjunto com a equipa de psicólogos que lidera na Universidade de Chicago, apresentou um estudo que afirmava que a solidão extrema pode aumentar as probabilidades de morte prematura em 14%. O estudo, que teve uma duração de seis anos, acompanhou mais de duas mil pessoas com 50 ou mais anos, e concluiu que o isolamento está directamente relacionado como problemas de saúde tão díspares como a pressão arterial elevada, mutações de alguns genes e alterações significativas nos padrões de sono. Esta investigação veio apenas confirmar o que outros estudos têm vindo a alertar, como é o caso de a taxa de mortalidade das pessoas solitárias ser comparável à dos fumadores ou duas vezes superior à que advém da obesidade.

 

O isolamento social prejudica ainda o sistema imunitário, aumentando as probabilidades de inflamações, as quais podem conduzir à artrite, à diabetes tipo II e a doenças coronárias. Adicionalmente, o estigma que acompanha a solidão e o facto de esta ser “socialmente incompreendida” contribui para que o ciclo do isolamento se perpetue e que seja crescentemente difícil sair dele.

 

 

A oxitocina e o poder do toque humano

 

 

Para além dos estudos que comprovam, cientificamente, que a solidão faz mal à saúde, são muitos os investigadores, em particular nos últimos anos e graças aos progressos efectuados nas neurociências, que afirmam que o toque tem poderes “curativos”. Na verdade, vários clientes da Cuddle Up To Me e da Snuggle Budies procuram os serviços destas empresas por os considerarem terapêuticos, ajudando-os a lidar com situações passadas de abusos físicos ou de negligência, ou com algum tipo de distúrbio de stress pós-traumático. No entanto, a emergência deste novo tipo de negócios está a servir um conjunto de outras necessidades “modernas”, as quais não entram necessariamente na categoria dos exemplos acima referidos.

Madame Vigée-Lebrun et sa fille, por Louise Élisabeth Vigée Le Brun, 1789 

 

Na Cuddle Up To Me, durante uma sessão um-para-um de “cuddling” – que custa entre 60 a 80 dólares por hora – pode-se abraçar, cantar, ler, fazer jogos, conversar “bem pertinho”, praticar a posição de “colher” – ou mais 50 outras diferentes – devidamente explicadas no livro escrito por Samantha Hess e intitulado Touch: The Power of Human Connection, ou simplesmente receber a atenção de que tanto se precisa. As sessões podem ainda ser customizadas de acordo com as formas que melhores sensações de relaxamento produzem no cliente, como por exemplo “o tipo de amor que uma mãe oferece a um filho”.

 

E, dado que este último é um dos serviços devidamente sublinhados na oferta da empresa, é impossível não nos assaltarem, de novo, as dúvidas face à sua credibilidade. O que nos leva de regresso ao tema da neurociência e da influência que estes “actos emocionais” têm no nosso cérebro e, consequentemente, na nossa saúde.

 

Quando experimentamos o bem que sabe uma boa dose de mimos, o nosso cérebro liberta, no geral, endorfinas (a hormona do bem-estar) e dopamina (que ajuda, entre outras funções, a controlar o humor). Mas quando recebemos carinho através do toque humano, em particular, os níveis de oxitocina, a denominada molécula do amor, da generosidade ou da confiança, são libertados em pequenas doses que não só produzem um sentimento de “aconchego” na altura, como perduram ainda durante algum tempo “pós-toque”. Na verdade, a oxitocina é uma hormona produzida pelo hipotálamo que tem como principais funções promover as contracções musculares uterinas, reduzir o sangramento durante o parto, estimular a libertação do leito materno - e os laços criados entre mãe e filho -, desenvolver apego e empatia entre as pessoas e, paradoxalmente, produzir parte do prazer do orgasmo e do medo do desconhecido. Mas os seus efeitos vão tão mais além de todos estes que muitos cientistas a elegem como “a mais extraordinária molécula do mundo” ou ainda como a “rainha das moléculas”.

 

De acordo com experiências recentes, a oxitocina reduz o stress e a tensão arterial, melhora a comunicação entre os casais, aumenta os níveis de felicidade e bem-estar, bem como os sentimentos de confiança, contribuindo igualmente para reforçar as nossas relações sociais e impedir vários problemas psicológicos e fisiológicos (tendo também efeitos negativos, como o aumentar da inveja e da soberba, os quais não se manifestam, contudo, quando recebemos “mimo”). Ou, de forma mais conceptual, a oxitocina, enquanto químico cerebral, é crescentemente considerada como um dos ingredientes principais que faz de nós os humanos que somos.

 

Paul Zak, um cientista e economista citado num dos artigos da "The Atlantic", autor do livro The Moral Molecule: The Source of Love and Prosperity, afirma também que a quantidade de oxitocina que libertamos depende de quão afeiçoados nos sentimos relativamente à pessoa que nos está a dar carinho ou a tocar. “Se o carinho que recebemos dos nossos familiares pode aumentar a libertação da oxicitocina entre 50 a 100%, os níveis libertados quando o mesmo acontece com um estranho não são tão elevados”, afirma também. Todavia, serão suficientes q.b. para aqueles que não tem qualquer hipótese de sentir o toque humano e os benefícios que dele emanam.

 

Numa sociedade em que é difícil admitir a falta de carinho e a solidão, estas novas empresas que se comprometem a satisfazer uma necessidade humana tão básica como o toque podem vir a ter um lugar cativo. E, a acreditar nos relatos que se podem encontrar nos sites das empresas citadas, pagar por um pouco de amor e compreensão não é assim tão bizarro. Afinal, o all you need is love é também uma questão de saúde.

publicado às 16:58

Algumas coisas (que talvez não saiba) sobre David Bowie

Por: Pedro Fonseca

 

 

David Bowie morreu e recebeu vários tributos dirigidos à sua vida artística. No entanto, o seu impacto no mundo da tecnologia passou despercebido, embora tenha sido uma figura importante na antecipação de tendências. A influência de Bowie no mercado online e da tecnologia foi discreta mas marcante.

 

Em 1994, lançou o CD-ROM "Jump", que permitia editar o vídeo da música "Jump, They Say" e ver entrevistas com o autor mas também integrava alguns segredos a descobrir nas suas diversas versões.

 

Bowie foi o primeiro artista proeminente a lançar um single exclusivamente em "download", em Setembro de 1996. "Telling Lies" demorava então mais de 11 minutos a ser transferido através das ligações "dial-up" que permitiam aceder à Internet. Mesmo assim, mais de 375 mil fãs fizeram "downloads" de músicas a partir do seu site.

 

Em 1997, fez um falhado "cybercast" a partir de um concerto em Boston (EUA), com os inevitáveis erros devidos à então falta de largura de banda. Daí nasceu, em Setembro de 1998, a BowieNet. Esta surgiu ainda antes do sucesso do Napster e era um fornecedor de acesso à Internet (ISP ou "Internet service provider"), através da empresa UltraStar, que ele co-fundou. Recomendava a ligação por modems a 56 kbps.

 

Como artista, e "se eu tivesse 19 anos de novo", disse no Verão de 1998, "iria directamente para a Internet".

A BowieNet funcionou até 2012 e oferecia a cada utilizador 20MB gratuitos para a criação de uma "homepage", bem como acesso a conteúdos exclusivos do artista e a "Web chats" com ele ou outros artistas (modelo seguido depois pelo MySpace), por 19,95 dólares mensais nos EUA e, mais tarde, no Reino Unido, antevendo um lançamento mundial para 2000. Dava igualmente endereços de email (@david-bowie.com ou @davidbowie.co.uk), acesso a uma rádio online gerida por Bowie e a um mundo virtual em 3D, BowieWorld, com avatars - isto antes de se falar do Second Life ou de mundos virtuais semelhantes e posteriores.

 

Entre as várias ofertas inovadoras da BowieNet, constava o acesso a uma videocâmara a transmitir imagens a 360º do seu estúdio, quando Bowie estivesse a trabalhar.

 

A UltraStar chegou a ser valorizada em 818 milhões de dólares e a obter capital da empresa promotora de concertos SFX Entertainment em Dezembro de 1999, mas a BowieNet acabou a 15 de Março de 2012 com uma mensagem no Facebook: “Whatever the truth, the old Bowienet, as we have known it, is kaput!”.

 

Em 1999, Bowie trabalhou com o estúdio francês Quantic Dream no jogo "Omikron: The Nomad Soul", não apenas na música mas também aparecendo no jogo.

 

A 24 de Maio desse ano, registou a primeira "cibercanção", com as letras de "What's Really Happening" a obterem contributos de 80 mil pessoas online.

 

Em Setembro de 1999, foi o primeiro artista numa grande editora a vender um disco online, deixando o valor ser decidido pelas lojas online e antes do lançamento do disco em CD. O álbum foi lançado nos formatos Liquid Audio e Windows Media, mas não em MP3.

 

Em 2000 - e três anos depois da experiência com as Bowie Bonds, que permitiram ganhar 55 milhões de dólares nos "royalties" sobre as suas canções -, envolveu-se novamente no sector financeiro com o banco online BowieBanc, lançando o seu próprio cartão de crédito (e correspondente subscrição gratuita à BowieNet), suportado nas operações do USABancShares.com.

 

Além de ser um influenciador da ficção científica, Bowie sempre foi "fascinado pelas inovações", dos sintetizadores usados pelo seu amigo e artista Brian Eno à aplicação informática Verbasizer, que ajudou a desenvolver.

 

Numa entrevista em Fevereiro de 1974, com William S. Burroughs, Bowie nota como gostaria de lançar uma estação de televisão e antecipa a programação a pedido. Antes dos hologramas, haveria primeiro a generalização das videocassetes: "não se consegue [gravar em vídeo] suficiente bom material da televisão. Eu quero ter a minha própria escolha de programas".

 

Ele percebeu como a Internet podia ser "subversiva e possivelmente rebelde e caótica e niilista", antecipando a ligação mais directa entre o artista e a sua audiência. "Tem a ver com a comunidade. tem a ver cada vez mais e mais com a audiência", dizia.

 

Em entrevista ao New York Times, em 2002 "e três anos antes da Apple lançar o iTunes", apontava o fim dos álbuns e a afirmação da tecnologia MP3. "Estou totalmente confiante de que os direitos autorais, por exemplo, não vão existir daqui a 10 anos" e que "a música por si vai ser como a água ou a electricidade".

 

No entanto, quando em Abril de 2001 lançou a rádio online BowieRadio, não permitiu a cópia ou a partilha de músicas, optando apenas pelo modelo de "streaming" - o modelo das rádios convencionais. Já em Janeiro de 2013, colocou online e discretamente um vídeo da música "Where Are They Now", antecipando o lançamento do primeiro novo álbum em quase uma década. A "anti-promoção digital" teve sucesso, com os "sites" noticiosos e os media sociais a divulgarem a novidade.

 

Aliás, no lado dos direitos de autor, Bowie protagonizou uma das primeiras experiências no ramo do direito de autor espacial.

 

Em 2012, enquanto estava na Estação Espacial Internacional (EEI), o astronauta canadiano Chris Hadfield gravou a famosa canção "Space Oddity" de Bowie, tendo negociado com o autor os direitos, bem como com a NASA e as agências espaciais canadiana e russa. A licença para o vídeo estar online era de um ano, mas ele continua disponível. O vídeo conseguiu mais de 27 milhões de visualizações desde então e tem um novo aviso, de que "não pode ser reproduzido e é licenciado apenas para uso musical online".

 

Independentemente do local onde o vídeo foi registado, quando a EEI tem vários módulos da responsabilidade de diferentes nações, as leis de cada país sobre o direito de autor teriam de prevalecer, além de que o local onde o vídeo fosse visto - Portugal, por exemplo -, também teria implicações por estar a ser transmitido sem pagamento de direitos às entidades gestoras do direito de autor - apesar de a gravação ter sido feita no espaço e de Bowie a ter autorizado.

 

Mais de 40 anos depois, é extraordinário que uma canção sobre o homem na Lua possa ser cantada no espaço e transmitida para a Terra. E essa canção é de David Bowie.

publicado às 16:35

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