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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Um dia para a coragem de informar

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Machado de Assis é um dos mais notáveis e inspiradores escritores na língua portuguesa. Cronista acutilante, ele definiu, em meados do século XIX, a imprensa como “a verdadeira forma de república do pensamento.” Machado foi mais fundo no esquadrinhar do papel da imprensa: “É a reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum dos factos e dos talentos, locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, literatura comum universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções.”

 

Neste dia 3 de maio, data anual da celebração por todo o mundo da liberdade de imprensa, será pertinente pensarmos em como está essa “faísca da inteligência”, prolongamento da liberdade de expressão, garante do acesso de todos à informação plural que nos permite compreender o que se passa tanto à nossa volta como lá longe.


Os diagnósticos globais inquietam: “Estamos no 12º ano consecutivo de declínio global da liberdade de imprensa pelo mundo”, alarma-se a Freedom House, de Washington, no seu relatório anual com foco sobre 199 países. A análise dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) confirma que a liberdade de imprensa está a ser dinamitada: “Todos os indicadores (independência dos jornalistas, auto-censura, transparência, abusos e legislação vigente) mostram que a liberdade de imprensa está a degradar-se em todas as regiões do mundo; que entramos numa nova era de propaganda, com vários países onde as autoridades tentam limitar o debate público, e que há um elevado grau de violência contra quem representa a informação independente.” Os relatórios coincidem na avaliação de situação particularmente agravada na América Latina, onde é constatada violência institucional na Venezuela e no Equador, ameaças do crime organizado nas Honduras, impunidade na Colômbia, crise dramática no México, corrupção no Brasil e concentração da propriedade dos media na Argentina. O Washington Post espanta-se com o resultado que mostra a África a ultrapassar as Américas no quadro da liberdade de imprensa. Síria, China, Coreia do Norte, Irão, Cuba e Rússia estão no fundo da lista negra em que Turquia, Polónia, Hungria e Bulgária também aparecem miseráveis em liberdade. A França, com a legislação anti-terrorista, está em queda vertiginosa no índex da liberdade de imprensa.


Cabo Verde está no relatório RSF como bom exemplo de imprensa livre, Moçambique tem registo de liberdade parcial e Angola aparece entre os países sem liberdade de imprensa, embora com liberdade parcial na internet.


Portugal aparece na avaliação RSF num simpático ou indulgente 23º lugar entre 180 países. O quadro legislativo português protege obviamente a liberdade de imprensa. A censura acabou com o 25 de abril. Mas há várias ameaças sobre o dia a dia da qualidade de informação nestes tempos de crise com erosão de valores.


As condições laborais nas redacções puxam para que a necessária determinação e coragem ceda ao medo de ficar indigesto perante quem manda e assim perder o lugar inseguro – não será esse um motivo para o declínio dos vitais conselhos de redacção? A precariedade está a disparar e a enfraquecer o jornalismo livre, promovendo a docilidade. Os despedimentos e as reformas precoces são outro barómetro do mal: nos últimos oito anos Portugal perdeu 1200 jornalistas.


A diluição das fronteiras entre jornalismo, comunicação e publicidade é uma ameaça cada vez mais séria – requer jornalistas e redacções fortes na defesa da deontologia.


A convergência dos media é a realidade actual e tornou-se um sistema – mas coloca preocupações sobre a liberdade e o pluralismo.


A competição pelo share dita cada vez mais a agenda – fica cada vez mais reduzida a autonomia dos jornalistas para contarem histórias que não prometem à partida grande audiência mas que são preciosas para fornecer dados objectivos e compreendermos o que acontece no mundo em que vivemos.


A reportagem e a investigação jornalística recuam enquanto crescem os espaços de opinião e debate ocupados maioritariamente por políticos – tantas vezes metidos num pugilato sectário desprovido de sentido de interesse público. Esgotam o espetador. Felizmente a rádio escapa a esses diálogos de surdos onde raramente é possível algum reconhecimento de mérito ao adversário.


A ânsia de imediatez e a proliferação do direto televisivo sem critério está a tornar-se uma ameaça – a falta de mediação especializada é o jornalismo a demitir-se da sua função.
O culto da híper-rapidez tende a ser inimiga da fiabilidade. É necessário algum recuo para que o enquadramento seja rico.


O valor de mercado do jornalismo original está a ficar espalmado – alguns circuitos das redes sociais instalam e credibilizam rumores que sugerem ser notícia, mas com realidades remodeladas. Ainda que esses rumores não sejam jornalismo contribuem para a quebra de confiança e respeito pelos media.


A publicidade está a reduzir o fôlego aos jornais – o World Press Trends Report de 2015 mostra que em 2014 os jornais pelo mundo conseguiram maior volume de receita nas vendas e assinaturas do que na publicidade.


Há alguns bons exemplos de adaptação de media de referência, agora também em Portugal, a este tempo digital – mas a publicidade digital cresce menos que o previsto e até um titã do jornalismo como é The Guardian está ameaçado por grave crise.


O jornalismo existe para ajudar o cidadão a pensar com liberdade e para proporcionar cultura. – não para o convencer, doutrinar ou estupidificar.


Seja como for, apesar de muitas e inquietantes ameaças, o jornalismo em Portugal escapa ao terror de perseguições violentas, assassinatos, sequestros ou detenções como acontece em tantos países do mundo. Há neste momento centenas de jornalistas que operam, sem mínimas garantias de segurança, em cenários de alta tensão. Estão lá para nos contar a vida de quem não tem voz. No último ano, diz-nos a RSF, pelo menos 63 jornalistas foram assassinados por exercer o seu ofício. Algumas vezes quem vai às linhas de risco são bravos repórteres portugueses – estou a lembrar-me de José Manuel Rosendo, de Paulo Moura e de Cândida Pinto, entre outros.


Machado de Assis acreditava que a imprensa seria uma arca poderosa ou um banco inteletual onde se discutiriam as ideias, as questões e os problemas, mostrando o pensamento humano, desenvolvendo a confiança, a riqueza e os melhoramentos. Portanto, Machado, sendo um inquiridor da modernidade e um percursor de tendências, também era um utópico.

 


TAMBÉM A TER EM CONTA NESTE DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA:

Jornalistas turcos denunciam a “caça às bruxas” desencadeada por Erdogan.


El Pais dedica um especial à liberdade de imprensa “sob ameaça constante”.


Também no El País, uma exposição multissensorial celebra os 40 anos deste grande jornal europeu – que também não está imune à crise e que já despediu alguns dos seus melhores.

 

La Repubblica abriu um inquérito aos leitores sobre como melhorar a informação online.

 

Primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, esta e esta.

 

 

publicado às 07:03

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