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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Libertários, o terceiro partido norte-americano. Sim, é natural que não tenha ouvido falar

Por: José Couto Nogueira

 

As pessoas raramente ou nunca se lembram de que o Partido Democrata e o Partido Republicano não são os únicos partidos existentes nos Estados Unidos. Costumam até dizer que o país tem um modelo bi-partidário, como acontece notoriamente na Grã-Bretanha, com os Conservadores e os Trabalhistas. No entanto os americanos, tal como os ingleses, têm um sistema democrático em que qualquer grupo de pessoas pode formar um partido político e concorrer a todas as eleições – municipais, estaduais e federais.

 

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Os libertários são liderados por Gary Johnson, que já foi Governador do Estado do Novo México

 

 

Na verdade, existem nos Estados Unidos dezenas de partidos, inclusive um Partido Comunista, o Partido Nazista e o Partido das Panteras Negras. A maioria só tem dimensões estaduais, ou em apenas alguns estados. Cinco partidos, além dos dois grandes, ganharam lugares em assembleias estaduais: Partido Progressista do Vermont, Partido das Famílias Trabalhadoras, Partido Conservador de Nova Iorque, Partido da Independência de Nova Iorque e Partido Libertário.

 

Ora bem, se existe a possibilidade de haver outros partidos, porque é que só dois tem projecção nacional e probabilidade real de governar o país? Boa pergunta. E a resposta é simples; por uma razão institucional e outra prática. Institucionalmente, o sistema eleitoral está organizado de maneira que torna extremamente difícil concorrer ao nível nacional. Não que fosse essa a intenção dos autores da Constituição; na verdade, a sua maior preocupação era criar um sistema equitativo que desse iguais oportunidades a todos os cidadãos. Mas o documento foi escrito em 1777; é a mais antiga constituição e a única que não sofreu grandes alterações. Ora, em 1777 ainda nem sequer tinha havido a Revolução Francesa e portanto não havia experiência nenhuma de construir um sistema de “garantias e equilíbrios” (“checks and balances”). Daí o complicadíssimo sistema com primárias, delegados e diferentes pesos para as mesmas medidas. Com a experiência das centenas de constituições que entretanto foram feitas pelo mundo, poderia ser aperfeiçoado, mas os americanos são particularmente avessos a qualquer alteração.

 

A razão prática são os fundos necessários para fazer uma campanha a nível nacional. Só mesmo milionários como Ross Perrot ou Donald Trump é que têm capital para estourar em semelhante aventura. Aliás nem é preciso elaborar muito sobre isto, uma vez que todos conhecemos os esforços constantes que os partidos fazem, nos Estados Unidos e em todos os países democráticos, para angariar fundos para as campanhas. Esforços e desonestidades, muitas vezes descobertas e raramente criminalizadas, diga-se de passagem.

 

Então, além dos democratas e dos republicanos, qual é o maior partido norte-americano? Estranhamente, um dos mais recentes, fundado em 1972: o Partido Libertário. Em termos eleitorais, tem vindo a subir lentamente, e nas eleições presidenciais de 2012 obteve 1.275.821 votos, quase um por cento do total. O candidato era, e será também nesta eleição, Gary Johnson, um empresário da construção civil com ar circunspecto, que contrasta bastante com as figuras alternativas da maioria dos filiados.

 

O Partido Libertário, como o nome indica, tem uma agenda de total liberdade e zero interferência do Estado na vida das pessoas. Numa altura em que, tanto nos Estados Unidos como na Europa, existe um enorme cansaço e desilusão com as soluções políticas tradicionais e com a ineficiência e incompetência dos governos, é natural que as propostas de menor intervenção ganhem eleitores. De certo modo, e com o sinal contrário, é essa a razão do sucesso de Bernie Sanders e sobretudo de Trump; são candidatos anti-sistema.

 

As propostas do Partido Libertário são, no mínimo, radicais. É a favor do porte de arma pelos cidadãos – armas de qualquer calibre, inclusive nucleares. Também propõe legalização sem restrições de todos os imigrantes, da prostituição e do uso de drogas. Eliminação de toda a fiscalização prévia e inspecções, quer seja de alimentos, seguranças do consumidor, veículos automóveis ou práticas empresariais (“no pre-emptive regulation”). Impostos, só directos, ou seja, taxas de utilização. Acaba o IRS, IRC, valor acrescentado ou quaisquer outros impostos indirectos. Na saúde e na educação, cada um trata de si e fé na Humanidade (o partido é agnóstico). Finalmente, nenhuma ajuda ou intervenção no estrangeiro; o pais só reagiria se fosse atacado no seu território, para o que teria umas forças armadas mínimas, decerto reforçadas com os tanques, caças e bombas nucleares que os cidadãos guardariam no quintal.

 

Pode parecer que uma agenda surreal como esta, e que ainda por cima desagrada tanto a conservadores como progressistas, liberais e socialistas, não teria quaisquer hipóteses fora dos mais radicais campus universitários. Contudo, mais de um milhão de votos não são poucos votos. E as posições concretas defendidas por Gary Johnson, que já foi Governador do Estado do Novo México, incluem oposição às guerras do Afeganistão, Iraque e Síria e cortes monumentais nos orçamentos do Estado. Há muitos eleitores que se revêem no simpático senhor que ficou em terceiro lugar nas últimas presidenciais.

 

 

 

publicado às 08:28

E se Trump ganha?

Por: José Couto Nogueira

 

 

O Presidente dos Estados Unidos da América é considerado, com alguma razão, o Homem Mais Poderoso do Mundo. O que poderá acontecer se um megalómano ocupar o lugar?

 

Num ponto concordam os “anti-imperialistas” e os pró-americanos: o Presidente do “Império” e Comandante em Chefe das suas forças armadas tem poderes que se estendem do Pólo Norte ao Sul, e do Alaska à Austrália, passando pelos orientes (Próximo e Médio) e, fatalmente, pela Europa. Também tem influência, já agora, no padrão de vida de 322 milhões de norte-americanos.

 

Portanto não surpreende que as eleições para este cargo superlativo, marcadas para 8 de Novembro, suscitem interesse e ansiedade em todo o mundo. E também não surpreende que uma grande maioria de habitantes desse mundo esteja de cabelos em pé com a perspectiva de que ganhe um homem de estranhos cabelos cor de laranja e ainda mais estranhas ideias quanto ao que fará com o planeta.

 

No complexo sistema constitucional do país, a eleição do presidente é feita indirectamente por um Colégio Eleitoral de 538 representantes dos Estados. Para ser candidato a presidente também é preciso ser escolhido pelos delegados do seu partido, num processo semelhante: os delegados dum estado votam todos no candidato escolhido pelos eleitores do partido nesse estado.

 

Isto é importante para perceber como está a situação nesta altura, princípio de Março. Para conseguir a nomeação pelo Partido Republicano é necessário o voto de 1.237 delegados. Estas eleições, ditas “primárias” são feitas estado a estado, em datas diferentes, o que permite ir avaliando as possibilidades dos candidatos. Trump tem, até agora, 316 delegados, enquanto os senadores pelo Texas, Ted Cruz, tem 226, e o pela Flórida, Marco Rubio, tem 106. Os observadores consideram as próximas primárias de 15 de Março como a última oportunidade para parar Trump. Uma vitória de Rubio em seu Estado natal, a Flórida, levantaria questões sobre a força de Trump, assim como uma vitória de John Kasich, governador de Ohio.

 

Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

O Partido Republicano está muito dividido, e não apenas porque há vários candidatos, mas também porque os seus próceres – os senhores que tradicionalmente determinam quem vai enfrentar o democrata – têm sérias dúvidas de que Trump consiga vencer Hilary Clinton na eleição de Novembro. Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

Por outro lado, Trump tem uma agenda própria, errática, sem as preocupações estratégicas que os velhos republicanos consideram indispensáveis para ser viável. Por exemplo, Mitt Romney e John McCain já vieram publicamente afirmar que ele não é aceitável. Em termos simplistas, é muito mais à direita do que o conjunto do partido, ao mesmo tempo que tem propostas consideradas sacrílegas e delirantes pela filosofia republicana tradicional. A declaração mais recente (há declarações novas todos os dias) foi a aceitação do apoio dos grupos suprematistas brancos – as organizações que defendem a superioridade da raça ariana e querem eliminar (fisicamente ou por expulsão) todos os negros, hispânicos, muçulmanos e demais minorias. Estes grupos não só são moralmente inaceitáveis como politicamente inviáveis – ou seja, o apoio deles é uma espécie de beijo da morte para qualquer candidato. Mas é indiscutível que Trump tem muitos apoiantes e que, se nada se fizer, ganhará a candidatura.

 

Para nós, europeus, que temos outros problemas, receios e preconceitos, é difícil perceber porque Trump faz tanto sucesso. Dizer que os americanos são estúpidos, racistas, imperialistas, etc. é uma opinião ideológica que não explica nada. A opção por Trump tem a ver com angústias profundas da sociedade americana que se têm agudizado nos últimos anos a um nível quase paranóico.

 

Os conservadores – chamemos assim ao conjunto muito díspar de pessoas que consideram que os valores e a qualidade de vida estão seriamente ameaçados – sentem que o país já não lhes pertence. Aquele país ideal, que talvez nunca tenha existido mas sempre foi uma possibilidade, em que os imigrantes eram servis e invisíveis, o trabalho abundante, a diferença entre ricos e pobres ultrapassável – qualquer pobre poderia vir a ser rico – a homossexualidade não tinha direito de cidade e a criminalidade estava contida, esse país está a desmoronar.

 

Aquilo a que eles chamam de “valores” – as religiões cristãs, a família nuclear, a ascensão pelo mérito – estão a perder-se. No mundo, a América é desafiada pela China e achincalhada pela Rússia, e não consegue ganhar nenhuma guerra em que se mete; em casa, a criminalidade e a pobreza aumentam a olhos vistos, até o Presidente é negro e o Estado cada vez mais policial. Há uma sombra sinistra que se espalha pelo céu azul dos valores certos e estabelecidos, como que a anunciar o Armagedão.

 

Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia

 

Portanto, um homem que tem instintos básicos para identificar todos os perigos e fulminar todos os demónios, com instinto mediático e sem medo de dizer o que pensa, parece o redentor que vai afastar as dúvidas, o relativismo moral e os marginais que estão a destruir o país. Um homem que vai expulsar os indesejáveis que atulham o mercado de trabalho, falar de cima para baixo aos chinocas e comunistóides, e pulverizar os terroristas islâmicos que os querem matar a todos, violar as mulheres e obrigá-los a uma religião infame.

 

A outra variável que perturba os velhos republicanos é a falta de candidatos credíveis. Tanto Marco Rubio como Ted Cruz, os dois que ainda restam na corrida, são fracos. Têm os valores certos, mas não convencem. Rubio é um cristão devoto, quase medieval, com um discurso desactualizado que nem consegue ser percebido pela população urbana. Além disso já mudou de ideias em questões fundamentais, como a imigração, conforme pensa no que o eleitorado quer. Ted Cruz é detestado pelos seus colegas senadores, que o vêem como um manipulador barato cuja palavra não vale um caracol. Ou seja, por mais perigoso e impalatável que Trump seja, o establishement republicano não preparou a tempo nenhum outro candidato com massa crítica e ideias aceitáveis que lhe possa fazer frente.

 

Finalmente, há que levar em conta que os grandes financiadores do Partido Republicano são os irmãos Koch, donos da segunda maior empresa privada dos Estados Unidos (petróleo, produtos químicos, plásticos, etc), e Sheldon Adelson, dono de casinos no Nevada e em Macau. Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia. Embora Trump seja demasiado obsceno para os seus pontos de vista, certamente que preferem por os seus milhões nele perante o perigo doutro mandato democrata. Os republicanos mais moderados não se podem permitir a contrariar Koch e Adelson, que contam com mais de 50 por cento do financiamento do partido.

 

Pois é, o Partido Republicano está numa encruzilhada. O que quer dizer que os Estados Unidos também estão, uma vez que o equilíbrio entre os dois partidos tradicionais tem sido, há duzentos anos, o equilíbrio do sistema político. Se perder vergonhosamente, haverá uma hegemonia excessiva dos democratas, o que não é bom – os democratas também não são nenhuns santos, mas isso é outra conversa. Se ganhar, a terceira Guerra Mundial será uma possibilidade mais séria, para não falar nas iniquidades que ocorrerão nos Estados Unidos.

 

Então, se os Estados Unidos estão numa encruzilhada, o que será de nós, europeus, que também não estamos a saber governar-nos?

 

Num mundo ideal, todo o planeta poderia votar para a presidência norte-americana, já que lhe sofre as consequências.

 

O que vale é que a colonização da Lua está em andamento.

 

 

publicado às 10:22

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