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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Portugueses e franceses: mas qu‘est-ce qu‘il se passe com os nossos íntimos vizinhos

 Por: Bruno Lorvão *

 

Somos campeões europeus de futebol há uma semana, e desde há dois dias que sofremos em francês com Nice. Esta é uma reflexão sobre portugueses e franceses, o que os une e o que os separa. Entre o conto de fadas e o filme de terror, há uma realidade feita de cumplicidade, oportunidade e algumas desinteligências.

 

 

Maus perdedores, arrogantes, condescendentes. Os qualificativos para depreciar este grande, e histórico, vizinho que é a França inundam a teia portuguesa. Como que para acrescentar valor à nossa sofrida, mas merecida, vitória, queremos acreditar que o desleal adversário nada fez para realçar e felicitar o talento dos nossos jogadores. Neste papel de David contra Golias, somos os pequenos lusos, mas bons, que derrubaram o vilão, muito vilão, gaulês. O franco-português que eu sou, fã incondicional da equipa das Quinas, não pode aceitar tão simples conto de fadas. Venho então pedir a todos os portugueses, que consideram que o adversário da final foi mal perdedor, muito bem, que sejam, por sua vez, bom ganhadores.

 

Deste simples evento desportivo sobressai por todos os lados a relação complexa, e cheia de complexos, que une os dois países. Os 1,200.000 portugueses, luso-descendentes, franco-portugueses que habitam o território francês são a prova evidente desta relação.

 

Não contesto que o olhar dos franceses sobre nós está repleto de caricaturas, como a da Linda de Suza e da sua mala de cartão, do português pedreiro e da portuguesa porteira, assim como a nossa alimentação que se limita a comer bacalhau ao pequeno almoço, almoço e jantar. É verdade que muitos dos nossos compatriotas foram recebidos em bairros de lata nos anos 60 e 70 e que foi com imenso espírito de sacrifício e humildade, longe de casa, que conseguiram oferecer uma vida aos filhos nascidos no país de exílio. Mas seria injusto limitar a nossa relação mútua a simplificações, alguns dirão mesmo racismo.

É necessário ir além do folclore.

 

Para dizer a verdade, o povo francês, na sua grande maioria, gosta de nós. Gosta de nós, por uma variedade de razões, e ficariam surpreendidos ao descobrir quão bem nos conhecem alguns franceses. A imagem de um povo trabalhador que é transmitida por uma comunidade coesa, a portuguesa, contribui muito para este sentimento positivo, mas este não se limita à presença dos imigrantes. Paris é, por exemplo e sem qualquer dúvida, o centro nevrálgico da produção de cinema português. Sem o público francês, autores como Manoel de Oliveira ou João César Monteiro nunca teriam conseguido a obra cinematográfica única que os define. Nos circuitos literários, Pessoa, Saramago, Lobo Antunes são lidos como autores de talento e de valor universal. O mesmo se passa com a música da esfera lusófona. Melhor, não é raro ouvir em França pessoas que pensam em emigrar para Portugal, e não falo só de reformados. Porto, Lisboa, a Costa Vicentina, o Alentejo são destinos que encantaram muito dos franceses que por ali passaram. Finalmente, e longe de ser um detalhe, não diria todos, mas quase todos os franceses tem um amigo português, e isto não engana.

 

Estes amigos luso-descendentes, filhos de pedreiros e porteiras, são hoje o orgulho da mãe e do pai. Formaram-se e hoje são engenheiros, banqueiros, mas também padeiros no pais do pão, políticos, ou mesmo pedreiros à frente de PME com êxito. A França ofereceu a estes filhos de imigrantes o que os pais não conseguiram em casa. Um exemplo, nascido em Cascais, emigrado aos 3 anos, o jornalista de investigação Paulo Moreira, uma referência na profissão, é a prova vigente que, no final a França, foi generosa com os filhos da nossa nação, e soube aproveitar os talentos dos recém-chegados.

 

 

Tocamos aqui num tema menos confortável da relação do português de Portugal com a França e, mais especificamente, com os imigrantes que por lá se instalaram, os “ça-vas” e os “avecs”. Estas mulheres e homens, filhas e filhos de portugueses fazem parte do mal-entendido que existe entre os dois povos. Todos os anos durante o mês de agosto, visitam a pátria das suas origens, têm como nome Céline ou Adrien, têm um português aproximativo, cheio de francesismos, falam alto, e ocupam de maneira brutal o espaço que deixaram os pais quando deram “o salto”. E isto incomoda.

 

Eles rememoram-nos, com muito desconforto, que a nação lusitana apesar da sua extraordinária e genuína Historia não soube reter as gerações futuras. E é sempre mais confortável pensar que por lá, onde criaram uma nova vida, voltaram menos portugueses e mal educados e arrogantes … como os franceses, claro. A França, sem querer, participa desta relação cheia de mágoa inter-portugueses. O lema escolhido pela Federação Portuguesa de Futebol para apoiar a seleção, “Não somos 11, somos 11 milhões”, é o exemplo mais notável da desconfortável relação de Portugal com os seus emigrantes que pelo mundo se encontram. Não há margem para dúvida que, bem feitas as contas, somos bem mais do que 11 milhões.

 

Durante mais de um mês, à frente da sede da seleção em Marcoussis, milhares de portugueses, filhos de portugueses, netos de portugueses e até mesmo amigos de portugueses foram apoiar os nossos 23 guerreiros. Para este povo bi-nacional, a equipa das Quinas é o eixo central da relação que os une a Portugal e que lhes dá orgulho de ser português em França. O pequeno Mathis, que foi reconfortar o adolescente francês destroçado pela derrota dos “bleus”, é o simbolo mais forte desta identidade mestiça que nasceu da nossa intíma história recente. Este pequeno luso-descendente francófono e seguidor da seleção é um belo exemplo do que une os dois países.

 

 

Voltando ao tema da final do Euro 2016. Tenho que admitir que os franceses reagiram com alguma (eufemismo) má fé depois da derrota contra Portugal. Não nos esqueçamos, no entanto, que o mesmo nos aconteceu há 12 anos. A seleção então chefiada por Luis Figo e Rui Costa tinha um dos melhores estilos de jogo daqueles anos. Os gregos chegaram com um implacável pragmatismo e “roubaram-nos” o nosso Euro. Foi exatamente a nossa tática este ano e deu resultado. Não tínhamos habituados os franceses ao nosso lado “germano-pragmático”. Para eles, a equipa de Portugal era a representante europeia do futebol samba. Perder contra um Portugal calculista fica-lhes na garganta. Mas isto são conversas de bola. Nada de grave.

 

Desde de domingo, tenho recebido dezenas de mensagens, dos meus tais amigos franceses, que me felicitaram pela vitória portuguesa, realçando o facto de ainda não termos nenhum título e que esta “anormalidade” tinha sido emendada. Por esta e outras razões, em cima assinaladas, deixemos aos nossos íntimos vizinhos gauleses “engolir” a derrota caseira e tudo voltará ao normal.

 

 

* Bruno Lorvão é português, realizador, e vive em França há 20 anos.

publicado às 10:09

Eles estão a ganhar

 

Por: Pedro Rolo Duarte

Aqui há dias, em Lisboa, numa grande superfície comercial, estava numa sapataria quando se ouviu um estoiro, algo que parecia ser um tiro, fora da loja, mas perto de nós. Assisti a um momento único: num ápice, a loja ficou vazia, havia sapatos espalhados pelo chão, e olhando o corredor daquela ala, percebi que as dezenas de pessoas que andavam às compras se apressaram a procurar lugar seguro, ou pura e simplesmente sair para a rua. O estoiro terá sido de um infantil e ingénuo balão - mas a reacção da massa colectiva foi semelhante à de uma potente bomba…

 

Umas semanas antes, tendo passado por Manchester, testemunhei o alarido mediático de uma ameaça terrorista no estádio do Manchester United - que levou à evacuação do recinto e adiou o ultimo jogo da “Premiere League” -, e veio a verificar-se ser apenas uma “falsa bomba”, estupidamente esquecida pela empresa que, dias antes, tinha justamente testado o sistema anti-terrorista no estádio do clube inglês.

 

A estes dois casos, inocentes e sem fundamento, juntou-se esta semana a captura de um presumível terrorista que, dizem as autoridades, estaria a planear 15 atentados terroristas em França, durante o Euro 2016. Foi detido pelos serviços ucranianos de segurança, há algumas semanas, mas só agora a notícia foi revelada. O arsenal que estava na sua posse é de respeito: cinco armas-automáticas Kalashnikov, mais de 5.000 balas, dois lança-mísseis, 125 quilos de dinamite e 100 detonadores.

 

Os media aproveitaram a embalagem da notícia para exibirem as medidas de segurança já visíveis em França, junto aos estádios, mas também nas principais atracções turísticas de Paris, e nas cidades por onde vai passar o futebol. Até a nossa selecção tem protecção especial. São manifestações de força, de prevenção, e formas de passar ao cidadão comum uma ideia de segurança, de paz, sem a qual o Europeu de futebol não pode ser bem sucedido.

 

Porém, como cantou Sérgio Godinho, “Na vida real as aparências estão do outro lado do espelho” - e a verdade é que estes três episódios revelam uma outra face da realidade: o Ocidente receia o Estado Islâmico, o fundamentalismo, a loucura que não poupa nada nem ninguém, que não olha a meios para atingir fins - e que, acima de tudo, tem conseguido quase sempre surpreender nos momentos menos esperados, nos lugares mais improváveis.

 

Nessa medida, o mais provável é que o Campeonato Europeu de Futebol decorra com normalidade, sem ataques, sem ameaças, sem mácula. Mas o objectivo fundamental do terrorismo islâmico já está mais do que conseguido: incutir em todos nós a semente do medo, o culto de prevenção, e a tranquila aceitação de políticas violadoras da nossa privacidade, e da nossa liberdade de movimentos, em nome da segurança, em nome da paz.

 

É a mais perversa das vitórias: sem mexerem um dedo, eles conseguem que cedamos em tudo, em todas as frentes, e nos deixemos conduzir como marionetas, sem cérebro nem liberdade - mas com a quase absoluta certeza de chegarmos a casa vivos depois de cada jogo. Ao que chegámos.

 

 

Esta semana, ainda em tempo de Feira do Livro

 

Não tarda faz 25 anos, mas continua a ser a mais brilhante, viva, romântica e (estranhamente coincidente…) história da Bossa Nova, da MPB e do fascinante mundo da cultura que o Rio de Janeiro exportou para todo o Globo no século XX. Durante anos, era preciso comprar pela net ou pedir a algum amigo que a trouxesse do Brasil. Graças à editora Tinta da China, tem agora uma edição exclusiva para Portugal: “Chega de Saudades”, de Ruy Castro, chegou! E ele anda por aí, na cidade…

Espero que se siga o seu “dicionário” consequente: “Ela é Carioca”…

 

Parece (leio Isabel Lucas no Público…), que terá sido, segundo o escritor Paul Metcalf, “um dos segredos mais bem guardados da literatura americana”. Mas o segredo chegou este ano (traduzido) a Portugal. “Manual para Mulheres de Limpeza” é um genial livro de contos, de Lucia Berlin, e foi a mais forte descoberta literária que tive nos últimos anos. Fica a sugestão, e o link para o que Isabel Lucas escreveu.

 

Em português chama-se “O Curso do Amor” e, para não variar, mistura o romance com a filosofia, o testemunho pessoal com a reflexão mais profunda sobre o que nem sempre parece relevante. Mas é. Trata-se da última incursão de Alain de Botton pelo mundo das relações humanas, e uma voltinha pelo site do autor abre o apetite para o livro que, por ser edição recente, tem destaque na Feira do Livro. É escolha segura…

 

publicado às 11:00

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