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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A rutura

A rutura das negociações entre o CaixaBank e Isabel dos Santos não é um problema apenas para o BPI – que não merecia isto. É mais um caso que abre novas fontes de incerteza num sistema financeiro que está longe de estar resolvido– leia-se, preparado – para ultrapassar a crise de negócio e de capital.

 

O BPI tinha até 10 de Abril para diminuir a sua exposição a Angola, que se materializa na posição maioritária que tem no BFA, em associação com Isabel dos Santos. Para que isso fosse possível, o acordo não poderia passar apenas por Angola, claro, porque Isabel dos Santos é a segunda maior acionista do BPI, com cerca de 20% do capital, a seguir ao CaixaBank, com 44%. E, sem acordo, sem solução, os rácios de capital do BPI vêm por aí abaixo.

 

Ainda não se sabe tudo das negociações falhadas no BPI. Já é certo, ainda assim, que Isabel dos Santos voltou a pôr em cima da mesa das negociações condições que já teriam sido ultrapassadas. E condições que, para a administração do BPI e, claro, do próprio CaixaBank, eram inaceitáveis. Sabe-se, isso sim, que o Banco de Portugal ainda não deu o ‘ok’ à administração do BIC, um outro banco em Portugal controlado pela empresária angolana. Se a justificação é esta, Isabel dos Santos faz mal, e põe-se numa posição de pressão que a deixa do lado errado das negociações. Legitima, até, intervenções na secretaria, do Governo, do Banco de Portugal, do BCE.

 

Sai mal, mas não sai mal sozinha. O primeiro-ministro convidou-a a entrar no Millennium bcp depois de sair do BPI, coisa que, pelos vistos, não articulou com o regulador que, agora, não lhe concede o regime de idoneidade necessário. Portanto, alguém se esqueceu de avisar António Costa e, já agora, Marcelo Rebelo de Sousa. Que, pela primeira vez desde que foi eleito, respondeu ‘à Cavaco’. Marcelo vai defender os interesses nacionais. Notícia seria o contrário, não era?

 

Agora, o problema já não é o passado, é o futuro. O CaixaBank lançou uma OPA – outra – sobre o BPI, o governo legislou sobre o fim dos limites aos direitos de voto nas empresas cotadas, coisa que existe no BPI e dá poderes ‘reforçados’ a Isabel dos Santos, o BCE poderá anunciar outras medidas para pressionar a empresária angolana. No limite, Isabel dos Santos é ‘corrida’ do BPI à força.

 

E depois? O problema mantém-se, isto é, o BPI continuará a ter uma participação maioritária num banco angolano e vai continuar a não cumprir as imposições do BCE e os limites aos grandes riscos. E qualquer decisão do BPI em Angola depende, claro, das autoridades angolanas, do Banco Nacional de Angola. Como se sai daqui sem um acordo? Das duas, uma: o BCE revê a sua avaliação da exposição do BPI a Angola e dispensa o banco de vender a sua posição no BFA porque, agora, passa a ser uma extensão do CaixaBank; ou impõe uma medida extrema, uma medida de resolução que separa a operação do BPI em Portugal da operação angolana.

 

Qualquer que seja o caminho, a presença do BPI em Angola mudará para sempre. O ‘novo’ BPI não será o mesmo, será outro. Durante anos, o BFA foi uma fonte de lucros, chegou a ser a única. Já em 2015 o BPI lucrou 90 milhões de euros só da atividade doméstica. Mas sem a operação africana, o BPI tem de encontrar outro caminho, agora sob o domínio do Caixabank. Até lá, é sobreviver no meio de uma guerra acionista, gerir o banco com o mesmo cuidado com que foi gerido nos últimos anos, sem o risco que se viu, por exemplo, no BES ou no BCP ou até no Banif. Mesmo tendo em conta as perdas com a dívida grega, o BPI tem um balanço saudável no quadro do sistema português. Ulrich seguiu no BPI uma estratégia de avaliação de risco que só tem paralelo no Santander.

 

A rutura das negociações no BPI, essa, tem impactos muito para além do próprio banco. Terá, por exemplo, no BCP, banco no qual a Sonangol tem 20% do capital e de que é o maior acionista. Dificultará a venda do Novo Banco e vai expor ainda mais a situação do sistema financeiro português no quadro europeu e internacional. Por último, mas não menos importante, vai ser uma fonte de choques entre Portugal e Angola, de consequências ainda imprevisíveis.

 

AS ESCOLHAS

Depois de Angola, o Brasil. O processo de impeachment de Dilma Roussef no congresso foi aprovado e vai agora para o Senado, como pode ler aqui. É, para o futuro do país, um caminho cheio de riscos, para a própria Democracia. Dilma deveria pedir a demissão, sim, é parte do problema e não da solução, já terá até contra si muitos dos milhões de brasileiros que a apoiaram e levaram à presidência. Mas, não dando esse passo, a linha que separa a legitimidade política do golpe político é ténue. Sobretudo quando o regime político brasileiro, tão dividido, não dá sinais de conseguir encontrar saídas para esta possível destituição.

publicado às 10:51

Adeus BPI, olá Caixabank

 Por: António Costa

 Já está o que chegou a parecer impossível: o Caixabank e Isabel dos Santos chegaram a um acordo que vai transformar o BPI num banco catalão em Portugal. Ainda não se sabe quase nada do acordo, mas sabe-se o mais importante, o que preserva o BPI e a estabilidade do sistema financeiro. Mas as mudanças na banca portuguesa só agora começaram.

 

Há um ano, o BCE tinha imposto o dia 10 de Abril como data-limite para o BPI diminuir a sua exposição a Angola, por causa da posição maioritária que tinha naquele país no BFA, o maior banco angolano, em parceria com Isabel dos Santos. E logo se percebeu que a empresária angolana, com 20% do BPI, e o Caixabank, com 44%, tinham aqui a oportunidade para separar águas que, na verdade, sempre estiveram turvas. Era um casamento de interesse destinado a acabar em divórcio. Foi quase litigioso, e assinado no último dia possível.

 

Do acordo, não se sabe por exemplo o preço que o Caixabank vai pagar a Isabel dos Santos para comprar os 20% do capital, e esta informação é crítica para todos os outros acionistas. Porquê? Porque os catalães vão ter de oferecer o mesmo preço a todos os outros acionistas. Já se sabe uma coisa: é que Isabel dos Santos é talvez a única acionista nos últimos cinco anos em Portugal a ganhar dinheiro com o investimento na banca. Por outro lado, a empresária vai comprar o domínio do BFA, hoje nas mãos do próprio BPI.

 

Sabe-se que o BPI vai deixar de ter a operação em Angola – a maior fonte de lucros do banco desde há muito anos – e passará a ser um banco catalão. O BPI tem um balanço limpo, não entrou na estratégia de concessão de crédito aos amigos, mas tem uma operação cara e pouco eficiente, só disfarçada com os ganhos que apresentou nas aplicações financeiras. Ao passar a ser catalão – é inevitável, a prazo, a transformação do BPI em Caixabank BPI - vai beneficiar da estrutura do banco em Espanha, e os catalães vão na verdade tentar replicar o modelo Santander, que tem grandes resultados.

 

Para a empresária angolana, sair do BPI não é a melhor solução, até porque as vantagens da alternativa BCP são ainda difíceis de avaliar, mas uma coisa já conseguiu: ganhar dinheiro com a venda, o que não é pouco. Isabel dos Santos vai trazer o BFA para a bolsa de Lisboa, e em Portugal já tem o BIC. A prazo, antecipa-se a fusão dos dois bancos.

 

Resolvido o BPI – com um envolvimento do primeiro-ministro António Costa que ultrapassou os limites do que deve ser uma intervenção política que poderia ter corrido mal -, o futuro do Novo Banco e do BCP tem outros horizontes. O Novo Banco tem de ser vendido, o BCP tem de encontrar novos acionistas, às tantas ainda acabam casados. Sobra a Caixa Geral de Depósitos, que vai ter de receber um financiamento de cerca de dois mil milhões de euros para cumprir as suas obrigações e equilibrar os rácios de capital.

 

AS ESCOLHAS

 

Saiu um, entrou outro, saiu um ministro-poeta, entrou outro ministro-poeta. A cultura vai ser tutelada pelo embaixador Luís Filipe Castro Mendes. João Soares não foi um problema para António Costa, foi uma oportunidade, um seguro para problemas futuros mais graves e mais difíceis de ultrapassar.

 

E António Costa assinou um contrato com o seu emissário especial para os negócios, Diogo Lacerda Machado. O anuncio, na entrevista à TSF e DN, foi feito a contragosto, como se a transparência e a responsabilização fossem um custo. Não são; são uma obrigação de qualquer primeiro-ministro.

 

Boa semana a todos

 

 

publicado às 10:58

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