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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Crickhowell, o pequeno reduto galês que paga impostos como os super-ricos

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© Crown copyright (2011) Visit Wales 

 

Por: Pedro Fonseca

 

Uma cidade do País de Gales adoptou um modelo tributário de "offshore" para demonstrar as falhas nas cobranças fiscais permitidas pelos governos e até peticionou para o dono do café local ser o presidente da autoridade tributária do Reino Unido. Quando as "offshore" estão a ser questionadas, descubra como nem sequer fazem bem aos países que as acolhem.

 

Crickhowell é uma pequena cidade do País de Gales, com cerca de 2.800 habitantes. No ano passado, ficou conhecida por anunciar que ia ser a primeira localidade a usar as mesmas tácticas de fuga aos impostos utilizadas pelas empresas multinacionais, no programa televisivo "The Town That Went Offshore", emitido pela BBC2 a 20 de Janeiro passado. O movimento iniciou-se após Crughywel, do nome em galês, ter evitado a compra de um "pub" local por uma cadeia de supermercados. Segundo o Wales Online, a estratégia juntou 180 pessoas na aquisição do "pub" por 500 mil libras em Novembro passado.

 

O documentário televisivo demonstrou como era possível a empresas locais de uma pequena cidade usarem os mesmos subterfúgios fiscais das multinacionais, com algumas empresas de Crickhowell a criarem uma "offshore" na ilha de Man - um paraíso fiscal inglês situado entre a Irlanda e a Inglaterra, com taxação praticamente nula -, com ligações a uma outra entidade criada na Holanda.

A ilha de Man foi escolhida por a rede Caffé Nero ter ali a sua sede para efeitos fiscais - e um dos principais dinamizadores da iniciativa Fair Tax Town Scheme em Crickhowell ser o dono do café local. Mas outras multinacionais foram visadas.

 

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, foi convidado para participar num debate público no festival Hay, que decorre de 26 de Maio a 5 de Junho na região. O objectivo é questionar como o Facebook pagou menos impostos relativamente a um trabalhador inglês. "Nenhum homem inteligente poderia defender-me por pagar oito vezes mais do que os impostos do Facebook", disse Steve Lewis, proprietário do Number 18 Café, em Janeiro passado ao jornal The Independent, quando um político lhe pediu para moderar a campanha antes dela atingir níveis nacionais.

 

Em Novembro de 2015, o jornal francês L'Humanité explicava como as cadeias de cafés praticavam esta "injustiça fiscal". Elas apresentam "resultados negativos em todos os países da Europa há anos, mas um resultado global muito benéfico. Cada estabelecimento Starbucks ou Caffé Nero paga a uma primeira filial, baseada na Irlanda, pelo menos 20% dos seus resultados em termos de propriedade intelectual (pela utilização da marca e do conceito). Nesta ilha, os benefícios ligados aos 'royalties' não são impostos. Cada café deve em seguida comprar obrigatoriamente as suas matérias-primas a um levado preço numa outra filial muito rentável. É assim que a Suíça, país muito generoso em termos de impostos sobre os resultados, se tornou líder europeu na venda de grãos de café..."

 

Em resultado disso, "a Starbucks é deficitária em França como no Reino Unido, pelo que ali paga muitos poucos impostos, mas tem um benefício líquido global de mais de dois mil milhões de euros".

 

 

Copiar estratégias para embaraçar governos

 

A campanha Fair Tax Town também teve percalços. Steve Lewis avançou para um cargo na administração da HM Revenue & Customs (HMRC), a entidade tributária do Reino Unido, explicando no site da campanha que ia desistir de membro fundador para se focar nos abusos das multinacionais, pressionando-as a "pagarem impostos justos, expor as suas práticas e deixar o público julgar as suas verdadeiras intenções como cidadãos corporativos".

 

Lewis considera que "replicar" o modelo das multinacionais "não é uma opção", optando pela luta por um lugar na administração da HMRC, que deve vagar este mês, com a anunciada saída de Lin Homer, que obteve uma grande indemnização com a promessa de não ocupar cargos que possam "embaraçar ministros". Uma petição online para Lewis ocupar o cargo conseguiu mais de 140 mil assinaturas. "Enquanto eu pago 20% dos lucros do meu café em impostos, muitas grandes cadeias de cafés usam falhas legais para evitarem impostos ou negociarem com a HMRC para reduzirem a sua taxa de impostos para 0%", clarificou Lewis.

 

Ele considera que a HMRC deve "parar de ajudar as multinacionais a reduzirem as suas facturas fiscais e começar a trabalhar para o público britânico e as pequenas empresas britânicas a terem impostos justos para todos - grandes e pequenos", disse ao This Is Money. Lewis quer alguém na HMRC que entenda os "cidadãos normais ou os pequenos negócios". Além disso, quer promover a revelação e a negociação públicas dos acordos entre multinacionais e governos para uma menor taxação fiscal.

 

Jo Carthew, da empresa local de alimentos fumados Black Mountains Smokery, também explicou ao Financial Times que "o conceito que criámos pode demonstrar como, em princípio, as pequenas empresas, trabalhando em coligação, se podem tornar mais eficientes em termos fiscais ao copiarem estratégias usadas pelas multinacionais".

 

O dono da padaria, Steve Askew, considerou que o objectivo da campanha era embaraçar as grandes empresas e o governo, considerando que qualquer pessoa deve pagar impostos, mas "o que as pessoas não aceitam é a injustiça". Disse ainda, ao The Independent em Novembro passado, que "queremos pagar os nossos impostos porque todos usamos escolas e hospitais locais mas desejamos uma mudança da lei para que todos paguem a sua justa parte".

 

Também Irena Kolaleva, proprietária da empresa de serviços ópticos, explicou à BBC Radio Wales que pretendiam "chamar a atenção para o problema. É muito simples. Se uma empresa está baseada neste país e emprega pessoas neste país, que pagam os impostos neste país - pessoas normais que são taxadas -, porque usa subterfúgios legais pagando os seus imposto fora?"

 

 

Respostas são complexas

 

Um crítico da evasão fiscal através destes esquemas, Richard Murphy (conselheiro do trabalhista Jeremy Corbyn), compara a situação como se se fosse "protestar sobre o crime urbano indo cometer crime urbano" - é "irresponsável", considerou. No entanto, neste país, "tanto nas campanhas eleitorais de 2010 e 2015, cada partido prometeu reprimir a evasão fiscal, e ainda assim ela continua", com perdas nas receitas de impostos, explicava a Vice em Janeiro passado. "Parece muitas vezes que o contribuinte comum é totalmente impotente para fazer alguma coisa sobre as empresas que evitam os impostos, o tempo todo a serem forçados a pagar cada cêntimo da sua própria factura fiscal ou a enfrentar sérias consequências".

 

No início de Abril, Paul Heywood, professor de políticas europeias na universidade de Nottingham, colocava uma questão semelhante na The Conversation: se os Panama Papers não revelam quase nada de novo e sabendo-se que isto ocorre há várias décadas, porque se foi tão ineficiente a prevenir o problema? As respostas são "inevitavelmente complexas", mas ele aborda três factores para explicar "um dos maiores falhanços políticos nas recentes décadas".

 

Primeiro, se a corrupção existiu desde o pós-Guerra Fria, só no início dos anos 90 do século passado se constatou ser "endémica nos antigos estados comunistas e no mundo em desenvolvimento", contribuindo para a sua conceptualização e posterior erradicação ou controlo pelos estados ocidentais. Heywood considera que estudos da Transparency International ou do World Bank mostram uma "clara correlação entre os elevados níveis de desenvolvimentos sócio-político e económico e os baixos níveis de corrupção". Mas esses trabalhos focam-se num modelo desactualizado de corrupção (no pagamento de luvas, por exemplo), quando a mesma engloba diferentes níveis, desde sofisticadas redes transnacionais a um nível mais local envolvendo poucas pessoas.

 

Em segundo, e relacionado com a anterior falha, considera que o combate à corrupção ocorreu mais ao nível de estratégias nacionais mas não transnacionais - isto quando os Panama Papers demonstram serem "precisamente as operações transnacionais que são quase impossíveis para os estados de gerirem individualmente".

 

Por fim, questiona a generalização do termo, comparando o uso de "combate à corrupção" a um genérico "combate à doença". Não faz sentido, diz, devendo-se especificar que tipo de corrupção é, onde, quem está envolvido e as suas motivações ou que sectores estão implicados, entre outras considerações.

 

 

Super-ricos acima da lei

 

O próprio World Bank foi acusado em Abril passado pela ONG inglesa Oxfam de emprestar dinheiro para projectos na África subsariana a empresas que usam "offshores", diminuindo o nível de transparência na gestão dos subsídios. A acusação foi negada pelos responsáveis da International Finance Corporation (IFC), a entidade privada de financiamento do banco.

 

A IFC acusou a Oxfam de "trabalhar na ideia errada de que as jurisdições 'offshore' são inevitavelmente usadas para evasão fiscal". Frederick Jones, porta-voz da IFC, declarou: "há usos legítimos para estruturas 'offshore'". O problema é que a protecção destes paraísos fiscais e a fraca revelação dos seus segredos é enorme. E muito passa pelos chamados gestores de fortunas, que dão a cara para esconderem a dos seus clientes.

 

Em Outubro de 2015, na revista The Atlantic, a socióloga Brooke Harrington explicou como foi ameaçada ao confrontar um desses gestores de fortunas nas Ilhas Virgens britânicas, lembrando a sua sorte perante o trabalho da jornalista Leah Goodman. Esta preparava um trabalho para a revista Newsweek em 2013 sobre a ilha de Jersey, acusando-a de crimes fiscais, entre outros, e acabou impedida de re-entrar na ilha ou mesmo no Reino Unido durante alguns anos.

 

Para Harrington, na sua análise aos gestores de fortunas que facilitam a existência de negócios em "offshores", o que descobriu no decorrer do estudo "não foi apenas uma visão sobre a realização da grande desigualdade crescente da riqueza em todo o mundo. Havia também algo maior, e ainda mais preocupante: um domínio da fantasia libertária tornada real, em que a intervenção profissional tornou possível às pessoas mais ricas do mundo ficarem livres não só das obrigações fiscais mas de quaisquer leis que considerem inconvenientes".

 

Estes super-ricos "estão acima da lei" e isto é "potencialmente muito perigoso", considera. Harrington clarifica que não é a posse do dinheiro que permite este estado das coisas "mas a aplicação do conhecimento financeiro-legal", pelo que é necessária a contratação dos tais gestores de fortunas para os elucidarem sobre a melhor forma de sigilo e desconhecimento geral para a aplicação dos seus bens - legais ou não - e para garantir que essa riqueza "se mantém na família, geração após geração".

 

Este conhecimento não beneficia a população local do Panamá. Um recente artigo da Al Jazeera demonstrava como os benefícios de uma sociedade baseada em ricos "offshores" não chegavam aos pobres do país. Dos quase quatro milhões de habitantes (com quase metade na capital Panama City), 12,7% de pessoas vivem em zonas rurais e a pobreza nesse segmento chega aos 70%, com a probreza extrema a atingir os 40%, com enormes falhas no acesso a água, cuidados de saúde e de sanidade.

 

Apesar de ter registadas 214 mil empresas, segundo os Panama Papers, e de ser um dos países com maior crescimento económico (6,2% no PIB em 2014, apontam dados do World Bank), a população local não beneficia das "offshores".

 

A muitos milhares de quilómetros, Crickhowell descobriu que pode tentar mudar esse mundo.

publicado às 23:54

O fim

Por: Pedro Rolo Duarte

 

A semana não tem sido apenas de chuva - tem sido mais escura que cinzenta, mais triste do que a palavra Primavera anunciava. Parece que a jornalista Tereza Coelho tinha razão: quando mais se bate no fundo, mais ele desce.

 

Ponho ao mesmo nível os escândalos Volkswagen, BES, WikiLeaks, e agora o Panama Papers. Todos nascem do mesmo defeito de fabrico humano: a ambição desmedida. E todos resultam de um mesmo raciocínio: é só um bocadinho, sou só eu, ninguém vai dar por nada.

 

Quando se revelam, quando se abatem sobre o comum dos mortais, os casos têm um de dois efeitos: ou nos deixam a pensar que somos totós por não fazermos o mesmo; ou nos deixam de rastos por chegarmos a esta fase do desenvolvimento humano e vermos que, afinal, boa parte dos que nos rodeiam são selvagens e aldrabões sem principio nem fim.

 

Faço parte do segundo grupo, e dou comigo na absurda situação de estar a ver as notícias sobre o Panama Papers ao mesmo tempo que a operadora que me serve ameaça cortar o serviço porque me atrasei no pagamento de uns escassos euros. É a velha máxima dos bancários: quando deves cem euros ao banco, o problema é teu; quando deves um milhão, o problema é do banco. Acrescento: se não quiseres dever, aldraba, corrompe, foge, mente, e no fim, sorri.

 

Batemos no fundo da ética, da seriedade, e do crédito nos políticos, nos gestores, até mesmo nalguns dos heróis que elegemos no mundo do desporto ou da cultura. Parece que se desmorona a ideia de honestidade associada àqueles que admiramos, ou pelo menos respeitamos. Deixámos de estar apenas no domínio do financiamento partidário, ou das empresas sem escrúpulos, para descermos ao rés-do-chão da existência: ter muito e querer ter mais, a qualquer preço, sem olhar a meios; enganar o Estado e com a mesma desfaçatez enganar clientes, sócios, no limite famílias; viver como se não houvesse regras, leis, como se fosse válida a frase “sem rei nem roque”.

 

Sinceramente, não tenho grande interesse em saber como vai acabar tudo isto, se haverá processos e prisões, responsáveis e casos exemplares - porque o desânimo e o descrédito são mais fortes e mais pesados, derrotam princípios e deixam-nos com poucos argumentos para educar bem os nossos filhos.

 

Achamos que o terrorismo é condenável e julgamo-nos superiores porque dialogamos e vivemos em (suposta) democracia. Na verdade, a corrupção e os negócios sujos do mundo do dinheiro constituem a nossa forma de exercer terrorismo. São minas em terreno que dizemos limpo. Arrasam países como bombas. E também matam - quando o desespero de um desempregado chega ao suicídio, ou quando o dinheiro não chega para a renda e “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”.

 

Cada cêntimo opaco que esteja nos milhões de documentos do Panama Papers foi roubado a um de nós. Ter esta consciência é essencial para entender a gravidade do caso - e para perceber onde chegámos. Chegámos ao fim da linha. Já não há fundo onde bater para que ele desça ainda mais.

 

Esta semana não passo sem:

 

Sobre o mega-caso “Panama papers”, todos os jornais, e não apenas o Expresso, que integra a equipa da investigação, têm tentado traduzir em miúdos o que parece, e é, de uma complexidade que escapa à maioria. Mas nada como ir à fonte e visitar o site do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação. Não é tempo perdido…

 

Estreia hoje entre nós “Verdade”, a obra de estreia na realização do argumentista James Vanderbilt - um filme sobre jornalismo, sobre a investigação no jornalismo, sobre a verdade e a mentira, que parece feito à medida para a semana que estamos a viver. Com a garantia das prestações de Cate Blanchett, Robert Redford e Dennis Quaid, o filme tem por base o livro "Truth and Duty: The Press, the President and the Privilege of Power", de Mary Mapes, a produtora envolvida no caso que ficou conhecido como “Rathergate” (foi protagonizado pelo jornalista Dan Rather, da CBS), conta a história deste escândalo à volta de uma investigação sobre George W. Bush ocorrida em 2004.

 

Os 40 anos da Constituição da Republica Portuguesa foram assinalados por todos os media nacionais - mas esta reportagem do “Público” leva, para mim, a taça das taças… 

publicado às 09:23

Seis notas sobre os Panama Papers

 

por: Paulo Ferreira

 

Não há solução para os “off-shores” que não seja global. Enquanto existir um, o dinheiro sujo irá lá parar. Pior do que não cobrar ou cobrar poucos impostos é garantir o sigilo absoluto dos seus beneficários e recusar colaborar com as autoridades de outros países em investigações fiscais ou criminais

 

 

1- O jornalismo está em crise e o mal não é só nosso. São as novas tecnologias a obrigar à mudança de paradigmas históricos e a desafiarem os modelos de negócios que os pagam. É a mistura nem sempre clara de distinguir entre jornalismo e contributos de cidadãos nas plataformas electrónicas. É a tabloidização que avança, por vezes como instinto de sobrevivência à procura das receitas que se perdem. É a profissionalização e sofisticação crescente das fontes e a proletarização crescente das redacções.

Os “Panama Papers” também são, entre muitas outras coisas, uma demonstração da importância decisiva do jornalismo e da sua missão mais nobre: divulgar dados de interesse público que muita gente preferia manter em segredo. Naquele contexto difícil, isto assume um valor redobrado que é acrescido pelo facto de se tratar de uma cooperação global entre centenas de jornalistas de dezenas de países - em Portugal o “Expresso” e a TVI participaram desde o início nesta investigação.

 

2- O problema dos “off-shores” é tão antigo como os próprios e qualquer cidadão medianamente informado sabe o que se pode por lá passar. Mas uma coisa é esse conhecimento teórico, outra é a demonstração com casos concretos. Todos sabíamos há muito que morrem diariamente adultos e crianças na travessia desesperada do Mediterrâneo mas o sobressalto maior aconteceu quando vimos o corpo do pequeno Aylan Kurdi com a sua camisola vermelha numa praia turca. Ver é mais forte do que saber. Ver a demonstração dos vários esquemas e dos protagonistas que a eles recorrem faz mais do que centenas de discursos inflamados contra os paraísos fiscais.

 

3- Devemos sempre resistir à tentação facilitista de meter no mesmo saco farinhas que são muito diferentes. Independentemente do que se pense sobre eles, os “off-shores” são legais e o uso que deles se faz não é necessariamente ilícito ou criminoso. Muito mais importante do que saber quem lá tem dinheiro é saber qual é a proveniência desse dinheiro e o motivo da sua utilização. Ninguém terá grandes dúvidas sobre a origem dos milhões do futebolista Lionel Messi. Mas o mesmo já não podemos dizer do património que é atribuido a Vladimir Putin ou a outros governantes ou ex-governantes, em muitos casos de países pobres ou em guerra. No primeiro caso poderemos estar, quanto muito, perante uma fuga ao fisco. Nos outros, a corrupção pode ser a origem mais óbvia. Entre um esquema para pagar menos impostos, que até pode ser feito dentro da lei - e depois podemos discutir se é moral ou imoral - e o encobrimento de uma fortuna feita com tráfico e droga ou de pessoas ou o financimento do terrorismo vai uma distância enorme que não podemos esquecer. Podemos ficar desiludidos com Pedro Almodovar mas isso não faz dele um fora da lei.

 

4- Não há solução para os “off-shores” que não seja global. Enquanto existir um, o dinheiro sujo irá lá parar. Pior do que não cobrar ou cobrar poucos impostos é garantir o sigilo absoluto dos seus beneficários e recusar colaborar com as autoridades de outros países em investigações fiscais ou criminais. O que os donos de patrimónios acumulados de forma ilícita ou criminosa procuram é o secretismo. Enquanto este persistir aqueles vão sentir-se seguros. A divulgação dos Panama Papers fez mais para abalar esse conforto do que centenas de investigações em vários países.

 

5- Nas últimas décadas o controlo dos “off-shores” já esteve na agenda de dezenas de reuniões dos G7, G8, G20, FMI, OCDE, UE e outras organizações supra-nacionais. Pouco ou nada se fez que fosse realmente efectivo. Talvez porque, de uma forma ou de outra, os decisores globais acabam por beneficiar deles. Não necessariamente de forma directa ou particular, mas porque há muitos governos de países que consideramos decentes que os utilizam para ocultar o rasto daquilo que não querem que as opiniões públicas conheçam: financiamento secreto de guerras e conflitos, tráfico de armas, apoio a grupos de guerrilha por conveniências de “real politik”.

 

6- Já caiu um governante - o primeiro-ministro islandês - e outros poderão também cair. Vai haver danos na reputação de muita gente, que serão tanto maiores quanto mais democráticas forem as sociedades a quem têm que prestar contas. Mas no fim de tudo vai mudar verdadeiramente alguma coisa? Gostava de ser optimista e responder que sim. Mas não sou. Ainda assim, é bom saber que há muitos que se esforçam por cumprir o seu papel. Neste caso a dianteira é dos jornalistas.

 

 

Outras leituras:

 

Será como peixe na água esta visita de Marcelo ao museu das notícias e da comunicação, obra de Luís Paixão Martins. Se na política há um entendido na matéria ele é certamente o novo Presidente da República. 

 

Belas e ao mesmo tempo aterradoras estas perspectivas de Hong Kong. Foram feitas com um drone pelo fotógrafo Andy Yeung.

publicado às 01:03

Passos Coelho mudou pouco... e bem

 

Por: António Costa

 

Pedro Passos Coelho não é um líder isolado, não era antes deste congresso do PSD, tem o partido consigo, já tinha, mas tem sobretudo o partido atrás de si, da sua capacidade para devolver-lhe o poder. O presidente do PSD mudou alguma coisa, pelo menos mudou de sítio, assumiu finalmente o seu lugar como líder da oposição, mas mudou pouco. E ainda bem.

 

 

A confusão em que está metido o PSD – política e ideológica – tem um responsável, e esse é o próprio líder do partido. Não percebeu o que tinha acontecido com a construção da ‘geringonça’, e o que isso trazia de novo à política. Não aceitou a consequência de uma vitória eleitoral que não chegou para continuar em São Bento e, sobretudo, sentiu-se injustiçado porque, em cima disso, fez o que lhe era pedido e exigido, isto é, tirar o país da situação de intervenção externa.

 

Pedro Passos Coelho cometeu, por isso, dois erros que agora, no congresso, finalmente corrigiu. Em primeiro lugar, resistiu o que pode à ideia de que já não era primeiro-ministro e insistiu na tese da ilegitimidade política de António Costa e do novo Governo. Depois, convencido de que a viragem à Esquerda do PS abriu o espaço necessário para o PSD reafirmar a social-democracia, Passos Coelho entrou numa discussão ideológica que só serviu para confundir os que o apoiam. O congresso fez-lhe bem.

 

Em primeiro lugar, Pedro Passos Coelho afirmou-se líder da Oposição, e isso muda tudo. Afirmou a sua rejeição às políticas do Governo, mas isso não pode significar o que significou, e mal, na discussão do orçamento do Estado para este ano. Pelos vistos, Passos também reconhece que é preciso mudar, apresentar propostas alternativas, é isso que se pede à oposição. Também porque, mal ou bem, Costa tem ultrapassado sucessivas barreiras, leia-se momentos previsíveis de rutura da coligação de Esquerda.

 

Há outro ponto novo à Direita, de resto. O CDS tem uma nova líder, Assunção Cristas, com nova ambição, ironicamente por causa da estratégia de Costa que permitiu mudar esta ideia de que quem ganha eleições chega a São Bento. Agora, todos os votos contam.

 

Em segundo lugar, Passos Coelho centrou o PSD onde ele deve estar. Um partido reformista, que abra a economia, que liberalize e promova a concorrência e que, por essa via, diminua as desigualdades sociais. Tem, também por causa da estratégia económica e financeira do Governo, dos equilíbrios políticos internos, uma oportunidade única para mostrar uma diferença. O caminho do governo é reverter o – pouco – que foi feito do ponto de vista estrutural, e manter o sistema como está, favorecer as corporações, garantir votos. E o país, parece, já percebeu que não é possível viver com o que não se tem, por isso, há espaço para mudanças, que o PSD pode protagonizar.

 

Pedro Passos Coelho não mudou muito, mas mudou alguma coisa. No resto, a teimosia de quem, como dizia Santana Lopes, é como é. Só isso explica a escolha de Maria Luís Albuquerque para a primeira linha do partido. É um nome novo na direção do partido, mas é um nome velho da anterior legislatura, com tudo o que de bom que foi feito, e foi feito muito, tanto que até permitiu e ‘viabilizou’ o governo de Costa.

 

Do congresso, não saiu um ‘novo’ Pedro Passos Coelho, nem poderia. Um congresso com pouca história, um partido à espera da força do líder, atrás dele. Passos Coelho anunciou que não tem pressa, será talvez a mais importante das afirmações. Porquê? Porque isso permitirá que o líder do PSD faça o que faz melhor, como fez quando derrotou José Sócrates. Chegará para recuperar os 600 mil votos perdidos nas últimas eleições, essenciais para ter a maioria absoluta? Ninguém sabe, até porque o contexto europeu, absolutamente incerto, vai também determinar o que se vai passar em Portugal, sabe-se, ainda assim, que se Passos mudar muito é que não vai chegar lá de certeza.

 

 

As escolhas

 

Domingo, às 19 horas, o mundo conheceu as primeiras informações do ‘Panamá Papers, o submundo dos off-shores. No mundo dos off-shores, o legal, já se colocam dúvidas e reservas, os incentivos ao não pagamento de impostos, a concorrência entre países, os que têm e os que não têm. Aqui, estamos a descobrir o submundo, o do crime, o daqueles que usam as off-shores para esconder o que ganharam, muitas vezes ilegalmente. Há ainda muito para saber – a TVI e o Expresso são os órgãos de comunicação social em Portugal parceiros do consórcio internacional de jornalismo que investiga este caso há cerca de um ano – desde logo se há portugueses envolvidos.

Mas já se sabe que lá estão Putin, o presidente da Argentina, o rei saudita, mas também Messi e Platini. Há um ponto crítico, no momento em que o sistema capitalista está em crise, e está, sem dar a resposta que os cidadãos esperam, o ‘Panama Papers’ é um furacão de consequências políticas imprevisíveis. E é também por isso, uma oportunidade para os líderes políticos internacionais.

 

 

publicado às 10:54

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