Os cidadãos que se classificaram de indignados, e que há faz agora cinco anos acamparam na Puerta del Sol de Madrid e noutras praças de Espanha, desencadearam o estilhaçar da ordem partidária espanhola, como agora fica evidenciado com o impasse pós-eleições. Depois dos indignados espanhóis, surgiram os Occupy Wall Street e outros movimentos de gente predisposta a mostrar o seu descontentamento e protesto com a prática dos governantes. Agora, é em Paris, com o movimento Nuit Debout (noite em pé), apesar do frio, da chuva e da repressão, a ocupar a Place de la République para uma espécie de Woodstock da palavra em sucessivas noites de discussão e luta.
Esta praça grande de Paris, habituada a acolher manifestações, está a ser palco para uma nova ágora ou assembleia popular permanente, onde todos tomam a palavra e se fazem ouvir ao lado do altar laico da república francesa, a estátua em bronze da Marianne, que mostra um ramo de oliveira na mão direita e que apoia a mão esquerda na carta dos direitos do homem. Naquelas intervenções, eles descarregam as muitas desilusões, fúrias, combates e alguns dos sonhos. São sobretudo jovens mas também alguns não tão jovens. Algumas bandeiras vermelhas desfraldadas confirmam a cor do protesto, que no entanto incomoda quase todos os partidos. Jogam com as palavras gréve (greve, claro) e rêve (sonho) e proclamam, em atmosfera que evoca o Maio de 68, rêve générale (sonho geral) e préavis de rêve (pré-aviso de sonho).
O movimento nasceu no dia 31 de março, com uma manifestação contra leis do trabalho anunciadas pelo debilitado governo socialista de Hollande e Valls. Desde então, discutem tudo todas as noites. Instalaram uma espécie da aldeia dentro da praça, com enfermaria, gabinete de assistência jurídica, cozinha e, atentos aos novos códigos da comunicação, até instalaram a RadioDebout, que transmite tudo online. Denunciam “as violências praticadas pelo Estado”: apontam como principal a falta de emprego. Também se levantam contra o neoliberalismo, contra a indignidade para com os refugiados, contra a xenofobia e vários outros males. Objetivo mais proclamado por estes contestatários, em grande parte estudantes universitários e liceais: reinventar o modo de fazer política e desenhar projectos de esperança a partir do espaço público. São uma frente anti-resignação com o sonho ou a ilusão de poder mudar o mundo. Possivelmente, alguns destes noctâmbulos pouco terão de idealistas, mas a maioria move-se pelo sonho.
A sociedade de entretenimento coletivo em que estamos até costuma explorar estes protestos mas, desta vez, no turbilhão das notícias, não lhes está a dar grande atenção. Talvez seja um erro. Estes indignados de Paris refletem o grande mal-estar social num país que vale 20% da economia europeia. Eles representam uma convergência de combates: pelo direito ao trabalho, à educação, à habitação, à saúde, contra a corrupção. Seguem um calendário que inventaram e que prolonga o mês em que tudo começou: estão esta terça-feira no dia 43 de março. Até quando vão continuar levantados todas as noites? Eles são uma vanguarda que pode desaparecer de uma noite para a outra, mas a chama parece longe de se apagar. Têm o mérito de exprimir uma necessidade de mudança.
TAMBÉM A TER EM CONTA
A Áustria começou a levantar um muro preventivo para barrar a entrada de refugiados. Acontece dois dias depois de, uma vez mais, a morte ter cortado o percurso a refugiados: uma mulher e quatro crianças naufragaram quando tentavam atravessar o mar Egeu na esperança de chegar à Grécia. Com a intenção de sacudir a indiferença do mundo para o destino trágico dos que tentam fugir da barbárie, o papa Francisco vai no sábado ao encontro dos refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia. Ele já avisou que esta tragédia parece “minar as bases do espírito humanista que a Europa tanto gosta de apregoar”. Esta reportagem ajuda-nos a saber algo mais sobre quem são estas pessoas que fogem da guerra.
A grande reportagem literária de Gay Talese está de volta, agora com o Motel do Voyeur. É a história de um homem que comprou um hotel no Colorado e remodelou-o de modo a poder espiar, a partir de um falso tecto, as práticas sexuais dos clientes.
Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, com o estado das coisas na política brasileira.
Pedro Passos Coelho não é um líder isolado, não era antes deste congresso do PSD, tem o partido consigo, já tinha, mas tem sobretudo o partido atrás de si, da sua capacidade para devolver-lhe o poder. O presidente do PSD mudou alguma coisa, pelo menos mudou de sítio, assumiu finalmente o seu lugar como líder da oposição, mas mudou pouco. E ainda bem.
A confusão em que está metido o PSD – política e ideológica – tem um responsável, e esse é o próprio líder do partido. Não percebeu o que tinha acontecido com a construção da ‘geringonça’, e o que isso trazia de novo à política. Não aceitou a consequência de uma vitória eleitoral que não chegou para continuar em São Bento e, sobretudo, sentiu-se injustiçado porque, em cima disso, fez o que lhe era pedido e exigido, isto é, tirar o país da situação de intervenção externa.
Pedro Passos Coelho cometeu, por isso, dois erros que agora, no congresso, finalmente corrigiu. Em primeiro lugar, resistiu o que pode à ideia de que já não era primeiro-ministro e insistiu na tese da ilegitimidade política de António Costa e do novo Governo. Depois, convencido de que a viragem à Esquerda do PS abriu o espaço necessário para o PSD reafirmar a social-democracia, Passos Coelho entrou numa discussão ideológica que só serviu para confundir os que o apoiam. O congresso fez-lhe bem.
Em primeiro lugar, Pedro Passos Coelho afirmou-se líder da Oposição, e isso muda tudo. Afirmou a sua rejeição às políticas do Governo, mas isso não pode significar o que significou, e mal, na discussão do orçamento do Estado para este ano. Pelos vistos, Passos também reconhece que é preciso mudar, apresentar propostas alternativas, é isso que se pede à oposição. Também porque, mal ou bem, Costa tem ultrapassado sucessivas barreiras, leia-se momentos previsíveis de rutura da coligação de Esquerda.
Há outro ponto novo à Direita, de resto. O CDS tem uma nova líder, Assunção Cristas, com nova ambição, ironicamente por causa da estratégia de Costa que permitiu mudar esta ideia de que quem ganha eleições chega a São Bento. Agora, todos os votos contam.
Em segundo lugar, Passos Coelho centrou o PSD onde ele deve estar. Um partido reformista, que abra a economia, que liberalize e promova a concorrência e que, por essa via, diminua as desigualdades sociais. Tem, também por causa da estratégia económica e financeira do Governo, dos equilíbrios políticos internos, uma oportunidade única para mostrar uma diferença. O caminho do governo é reverter o – pouco – que foi feito do ponto de vista estrutural, e manter o sistema como está, favorecer as corporações, garantir votos. E o país, parece, já percebeu que não é possível viver com o que não se tem, por isso, há espaço para mudanças, que o PSD pode protagonizar.
Pedro Passos Coelho não mudou muito, mas mudou alguma coisa. No resto, a teimosia de quem, como dizia Santana Lopes, é como é. Só isso explica a escolha de Maria Luís Albuquerque para a primeira linha do partido. É um nome novo na direção do partido, mas é um nome velho da anterior legislatura, com tudo o que de bom que foi feito, e foi feito muito, tanto que até permitiu e ‘viabilizou’ o governo de Costa.
Do congresso, não saiu um ‘novo’ Pedro Passos Coelho, nem poderia. Um congresso com pouca história, um partido à espera da força do líder, atrás dele. Passos Coelho anunciou que não tem pressa, será talvez a mais importante das afirmações. Porquê? Porque isso permitirá que o líder do PSD faça o que faz melhor, como fez quando derrotou José Sócrates. Chegará para recuperar os 600 mil votos perdidos nas últimas eleições, essenciais para ter a maioria absoluta? Ninguém sabe, até porque o contexto europeu, absolutamente incerto, vai também determinar o que se vai passar em Portugal, sabe-se, ainda assim, que se Passos mudar muito é que não vai chegar lá de certeza.
As escolhas
Domingo, às 19 horas, o mundo conheceu as primeiras informações do ‘Panamá Papers’, o submundo dos off-shores. No mundo dos off-shores, o legal, já se colocam dúvidas e reservas, os incentivos ao não pagamento de impostos, a concorrência entre países, os que têm e os que não têm. Aqui, estamos a descobrir o submundo, o do crime, o daqueles que usam as off-shores para esconder o que ganharam, muitas vezes ilegalmente. Há ainda muito para saber – a TVI e o Expresso são os órgãos de comunicação social em Portugal parceiros do consórcio internacional de jornalismo que investiga este caso há cerca de um ano – desde logo se há portugueses envolvidos.
Mas já se sabe que lá estão Putin, o presidente da Argentina, o rei saudita, mas também Messi e Platini. Há um ponto crítico, no momento em que o sistema capitalista está em crise, e está, sem dar a resposta que os cidadãos esperam, o ‘Panama Papers’ é um furacão de consequências políticas imprevisíveis. E é também por isso, uma oportunidade para os líderes políticos internacionais.
Vamos ter a política portuguesa menos mal disposta. Com um Presidente comunicador como é Marcelo e um Primeiro-ministro negociador como é Costa, anunciam-se meses de equilíbrio harmónico no topo do Estado e na governação do país. É um alívio numa época em que há que suturar a fratura social. Não é que o debate político fique neutralizado como aconteceu na campanha presidencial, esvaziada de discussão. Mas vamos livrar-nos do azedume presidencial e até é de esperar que escapemos, pelo menos por uns tempos, a episódios de baixas astúcias no confronto entre partidos.
Até se poderá esperar – será demasiado otimismo? - que o combate se desloque de algumas das guerrilhas internas para uma sintonizada mobilização ampla (designadamente, Presidente e Governo) para enfrentar o choque com os credores externos nas negociações para a suavização necessária das condições para atenuar o défice e pagar o resgate. Seguramente precisamos todos de uma frente interna coesa e robusta para enfrentar o duelo com os que acham que é com austeridade que o problema português se resolve.
E há que tentar em conta que, a partir de Madrid, o PP de Rajoy, por interesses da sua sobrevivência política, está a fazer tudo para desacreditar na Europa a prática do pacto das esquerdas em Portugal. O Presidente Marcelo tenderá a ajudar o governo a explicar à governação europeia das direitas que o modelo receitado a Portugal nos últimos quatro anos não serve.
Marcelo-candidato mostrou-se na campanha a antítese de Cavaco Silva. Mostrou todos os dias que vai ser um presidente de afectos. Ainda está para se ver como vai o sagaz Presidente intervir, ao longo de todo o mandato, no dia a dia político. Está anunciado que o Conselho de Estado vai ser revitalizado. Seria bonito se o Presidente que no discurso de vitória quis frisar que “é o povo quem mais ordena” escolhesse para dois dos cinco conselheiros que lhe cabe indicar personalidades como Sampaio da Nóvoa e Marisa Matias, que representam um terço da preferência dos eleitores. Ficariam bem num Conselho de Estado que também vai ter a sabedoria de Adriano Moreira e a experiência de Domingos Abrantes, para quem as paredes do PCP sempre terão sido mesmo de vidro. Seria tentador furar o sigilo e poder seguir as discussões num Conselho de Estado assim.
O ciclo político com três eleições (europeias, legislativas, presidenciais) em menos de dois anos está fechado. O início deste novo ciclo talvez traga alguma rearrumação na paisagem partidária portuguesa neste ano de congressos. Será que o PS vai querer optar por um claro posicionamento de centro esquerda com entendimentos preferenciais à esquerda (a escolha que Costa fez em outubro foi de convicção ou circunstancial, de conveniência?) ou vai continuar a deixar pairar a ambiguidade que não ajuda a encher um espaço? Será que o CDS, com Assunção Cristas, vai deixar de ser PP e retomar algo da matriz democrata-cristã? Será que o PSD vai recentrar-se, mesmo que continue longe da identidade que tem no nome? Será que o PCP vai continuar a pensar que é pela via do compromisso que melhor influencia as decisões para o seu interesse e para a governação do país? O BE, como vai evoluir com a base consolidada de 10% do eleitorado? O palco político pode trazer debates interessantes.
TAMBÉM A TER EM CONTA:
Na noite de 25 para 26 de janeiro de 2011, a revolução com rótulo de “Primavera Árabe” eclodia também no Egipto. Foram 18 dias em que os egípcios tomaram em mãos o seu país e que levaram à queda de Mubarak, o presidente que estava há 30 anos no poder. Passados cinco anos, a ilusão está perdida, muitos dos revolucionários de 2011 fazem parte da enorme lista de presos políticos e o autoritarismo volta a impor-se.
Ainda só passou mês e meio sobre o fecho, por entre otimismos, da conferência sobre o clima, em Paris. Nesses dias falou-se imenso do planeta, depois voltou a negligência. Agora, aí está um conveniente alerta.
O Irão está de volta à Europa. Bem-vindo! O presidente iraniano iniciou em Roma uma ronda por capitais europeias. Mas alguém decidiu que para não ofender a sensibilidade iraniana havia que tapar as esculturas de corpos nus nos museus do Capitólio. Que vergonhosa censura de obras de arte.
Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, que confronta o ainda Presidente com a realidade e que nos conta o essencial da manhã, e esta, com a proclamação oficiosa angolana da “amizade e cooperação” com Portugal.
Vivi mais de 30 anos com Cavaco Silva, pelo que escolher um momento desta convivência é difícil. Mas é possível traçar uma linha de vida, sabendo que ele nunca me desiludiu porque eu nunca me iludi com ele - e não falo apenas enquanto Presidente da República, mas também como Primeiro-Ministro. Eis o porquê em cinco simples actos.
I Acto - A caminhada
Cavaco Silva sempre quis passar a ideia de não ser político ou de ser um político diferente dos outros, apesar de ser militante do PPD desde a sua fundação.
Imagem de marca dessa ideia foi a famosa rodagem ao novo carro, directo à Figueira da Foz em Maio de 1985, onde decorria o VIII congresso do partido e no qual acabou eleito. "Não tinha qualquer intenção de ser eleito líder", disse mais tarde, obliterando o pormenor de antes já estar a ser treinado pela actriz Glória de Matos que, ao "Expresso", explicou como ele “tinha a queixada saliente, dentes desencontrados, língua pouco trabalhada”, o que gerava “um problema de dicção e de silabação, era péssimo nas consoantes, problemático nos erres”.
Desde que assumiu o governo a 6 de Novembro de 1985 até ao fim do terceiro mandato, a 28 de Outubro de 1995, Cavaco colocou-se alegadamente acima dos seus interesses pessoais e financeiros, não se coibindo de deixar misturar estes em benefício de terceiros, muitas vezes por omissão.
Foi o caso da enorme avalancha e trapalhada após a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, nomeadamente com o Fundo Social Europeu (FSE), destinado à formação.
Passou ainda pelos casos bancários do BPN (onde investiu e obteve um retorno significativo) ou do BES (sobre o qual falou publicamente e obteve um impacto negativo não assumido).
Sobre o caso BPN, chegou a dizer em Dezembro de 2010 que "para serem mais honestos do que eu, têm que nascer duas vezes".
Em resumo, ser mais honesto do que Cavaco, só nascendo duas vezes.
II Acto - Sozinho contra todos
Em termos de obra feita, Cavaco Silva foi responsável pela flexibilização das ofertas bancárias e pelo acesso mais facilitado ao crédito.
Foi reconhecido como plantador de alcatrão, tendo Portugal passado de 196 quilómetros de auto-estradas em 1986 para mais de 2.000 quilómetros em 2004.
Nesta, como noutras questões, agiu contra a opinião de muitos e teve razão. Dinamizou a construção da Ponte Vasco da Gama (quando peritos diziam que devia ser a terceira escolha), a organização da Expo'98 ou a construção do Centro Cultural de Belém (CCB). Neste caso, era preciso um local para receber no primeiro semestre de 1992 a primeira presidência portuguesa do Conselho das Comunidades Europeias.
O homem que em Janeiro de 1994 dizia apenas ler jornais durante cinco minutos de manhã e outros cinco à tarde (a web estava a emergir e Cavaco nunca foi conhecido por ser ciberincluído), abriu a comunicação social aos grupos privados. E percebeu como a manipular.
No Verão de 2009, entre artigos do Público e do Diário de Notícias, soube-se do caso das escutas a partir de Belém - atribuídas ao seu assessor Fernando Lima - ou de como "consultores de Belém" estavam a ajudar a campanha de Manuela Ferreira Leite contra José Sócrates. O caso levou Cavaco a afirmar existirem "vulnerabilidades" no sistema de telecomunicações da Presidência, num processo de análise técnica que envolveu uma entidade externa e cujos resultados nunca foram divulgados.
No 10 de Junho de 2014, ocorre o segundo desmaio de Cavaco Silva em cerimónias oficiais. Entre preocupações sobre a saúde e a prossecução do mandato pelo Presidente, um jornalista da TSF garante que terá sido usado um "inibidor de sinal" para os telemóveis ficarem inoperacionais. A SIC afirmou que "os seguranças da Presidência afastaram os repórteres de imagem, quando perceberam que Cavaco se sentiu mal, dificultando a recolha de imagens daqueles momentos de tensão". O Público sustentou que "os seguranças impediram qualquer aproximação e mandaram mesmo apagar as fotografias a alguns fotógrafos que estavam mais perto do local onde o Presidente foi assistido".
Em resumo, Cavaco pode ter ideias mas não as quer divulgadas quando podem ser contra ele.
III Acto - Qualidade política
A aspiração política após ter sido o responsável pelos X a XII governos de Portugal - sendo assim o primeiro-ministro com mais tempo na liderança do país no pós-25 de Abril - prosseguiu em 1996, quando foi derrotado por Jorge Sampaio nas eleições presidenciais. Voltou para ganhar o cargo em Janeiro de 2006 e ser re-eleito em Janeiro de 2011, perdendo cerca de meio milhão de votos e registando o pior resultado numa eleição presidencial desde o 25 de Abril.
Já a conspiração política ocorreu antes. Em 2000, escreve o artigo O monstro, onde criticou o orçamento de Estado do governo socialista. Em Novembro de 2004, quando Pedro Santana Lopes era primeiro-ministro, Cavaco escreve no "Expresso" sobre como a “má moeda” na classe política afasta a “boa moeda”. O artigo “Os políticos e a lei de Gresham” salientava ser “chegado o momento de difundir um grito de alarme sobre a tendência para a degradação da qualidade dos agentes políticos”.
Dois anos depois, defendeu "salários mais altos na política", por "forma a atrair os melhores profissionais para a governação do País" e voltou à carga na visão sobre os políticos nos discursos de tomada de posse, na Assembleia da República (AR).
No primeiro, a 9 de Março de 2006, lançou cinco desafios, entre os quais "o da credibilização do nosso sistema político, um domínio de crescente insatisfação dos cidadãos que importa não ignorar", porque "um Estado ao serviço de todos, como se exige em democracia, deve ser servido pelos melhores e, por isso, a escolha dos altos responsáveis não eleitos não pode senão nortear-se exclusivamente por critérios de mérito, onde as considerações político-partidárias não podem contar".
No segundo, a 9 de Março de 2011, afirmou a necessidade "de recentrar a nossa agenda de prioridades, colocando de novo as pessoas no fulcro das preocupações colectivas. Muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático". Pensando "especialmente" nos jovens, apelou aos mesmos que "é possível viver num País mais justo e mais desenvolvido, com uma cultura cívica e política mais sadia, mais limpa, mais digna".
Em Novembro de 2014 insistiu: "é importante lembrar alguns políticos que quando falam de certos assuntos devem estudar primeiro. Devem estudar o que diz a Constituição, o que dizem as leis, como é que as leis foram aprovadas e como é que esses assuntos são tratados nos países da Europa comunitária".
Em resumo, excepto no seu caso, há uma necessidade de renovação política.
IV Acto - Palavras e actos
É também no primeiro discurso na AR em 2006 que Cavaco afirma que "tentar preservar a competitividade à custa de salários baixos é uma estratégia sem futuro" - mensagem que repetiu em anos seguintes.
Mas a aposta na investigação e desenvolvimento (I&D) nunca obteve o seu apoio prático, embora tenha depois abraçado a causa da inovação (mérito de Diogo Vasconcelos, que Cavaco levou como assessor para o Palácio de Belém).
Em 1986, Cavaco Silva prometeu 1% do PIB alocado à I&D dali a dez anos. Em Maio de 1987, nas Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica, estabeleceu "como metas da nossa acção, neste domínio, duplicar a comunidade científica até 1990 e permitir que as despesas em I&D atinjam então pelo menos 1% do PIB". Estava-se então com 0,2%, segundo o Pordata.
Entre 1991 e 1995, este investimento estabilizou-se nos 0,6% do PIB, com Cavaco Silva a anunciar em Novembro de 1993 que "Portugal atingirá no virar do século 1,5% do PIB".
Os governos de António Guterres elevam a despesa em I&D até aos 0,7% em 1999 e Durão Barroso chegou aos 0,9% mas os 1% de investimento em I&D só ocorrem entre 2009 e 2011, tendo depois decaído.
Em resumo, Cavaco Silva falhou nas suas metas para a inovação, apesar de as defender.
V Acto - Impoluto
Cavaco Silva quis sempre mostrar-se o não-político que geria as finanças de forma sóbria e honesta, as suas e as do país.
Sobre as finanças pessoais, afirmou em Janeiro de 2012 - em plena crise de cortes nas pensões - que ia receber um total de pensões que "quase de certeza não vai chegar para pagar as minhas despesas porque eu não recebo salário como PR". Não recebe porque não quis, sabendo-se que tomou a decisão por os cortes salariais na Função Pública terem impacto no valor a receber na Presidência.
Disse então: "Já sei quanto irei receber da [Caixa Geral de Aposentações (CGA)]. Eu descontei, quase 40 anos, uma percentagem do meu salário de professor universitário e também descontei alguns anos como investigador da Fundação Calouste Gulbenkian. Irei receber 1.300 euros por mês. Não sei se ouviu bem: 1.300 euros por mês. Quanto ao fundo de pensões do BdP, para onde descontei durante 30 anos, ainda não sei quanto irei receber. Tudo somado, quase de certeza que não vai chegar para pagar as minhas despesas porque, como sabe, eu não recebo salário como PR".
A afirmação foi escrutinada. E teve ainda maior impacto quando se soube, nesse ano, que recebia mais de 9.300 euros mensais de três pensões (funcionário do Banco de Portugal, pela CGA por ter sido professor e ainda pelo antigo cargo de primeiro-inmistro).
No final de 2012, nova polémica com a sua casa no Algarve. As Finanças de Albufeira recusaram ao diário "Público" o acesso a dados de avaliação da casa, invocando o dever de sigilo fiscal que, segundo explicaram ao jornal, "apenas cessa em caso de autorização do contribuinte", alegando que "o processo de avaliação integrava não apenas dados de natureza pública, mas também dados suceptíveis de revelar a situação tributária dos contribuintes, protegidos pelo dever de sigilo".
Isto quando a Autoridade Tributária já publicava online a lista dos devedores fiscais, sem qualquer autorização destes. Nunca se soube se existiu um tratamento preferencial.
Do lado do Palácio de Belém, Cavaco Silva também demonstrou uma falta de transparência atroz. Foi um dos presidentes "mais gastadores da Europa", como explicava o "Diário de Notícias" em 2011, quando tinha um orçamento anual de 16 milhões de euros e "um regimento de quase 500 pessoas".
A falta de transparência ocorreu igualmente ao nível das aquisições para o Palácio de Belém durante uma década. Ao pesquisar o portal Base sobre os contratos públicos, não existe um único da Presidência ali registado.
As aquisições foram sempre efectuadas "por ajuste directo e sem divulgação", num valor que o Tribunal de Contas acredita chegar aos 4,2 milhões de euros em 2014. "A Presidência promete passar a divulgar no final deste mês" essa informação, revelou o "Jornal de Negócios". Ou seja, quando Cavaco Silva apenas estará a poucas semanas de ser substituído no cargo.
Em resumo, Cavaco Silva é um homem diferente entre o que diz e o que faz. Mas não tenho dúvidas: ele vai sair da Presidência mas não da política. Porque ele nunca me desiludiu...
Este texto faz parte dum conjunto de seis testemunhos pessoais de jornalistas que escolheram um momento definidor do que foi, para eles, o político Cavaco Silva. Leia também:
A semana foi tão marcada pela figura e pela obra de David Bowie que é difícil escapar-lhe. Já tudo foi dito, as canções recordadas, as múltiplas imagens do camaleão devidamente assinaladas. Há primeiras páginas de jornais notáveis, como a do francês Liberation e do britânico The Guardian; há textos que nos enchem o coração, como os de Miguel Esteves Cardoso no Público (online e em papel).
Há memórias que nos remetem para o tempo que cada um tem de Bowie. Ele começou a sua carreira no ano em que nasci - por isso o meu tempo de Bowie é mais de Absolute Beginners ou de Let’s Dance do que Space Oddity. Mas todos nós - um pouco como o Tintin, dos 7 aos 77 anos - temos qualquer memória, qualquer marca daquele homem.
E esse é o sonho de um artista, de um criador: deixar uma marca que fique para lá dele próprio, que seja perene e que tenha espaço na História que o futuro fizer sobre este presente. Bowie tem esse espaço assegurado e garantido.
Durante muitos séculos, foi também esse um desígnio, mesmo que não assumido ou deliberado, dos governantes. Olhar para a História - não é preciso sair da Europa… - é encontrar um generoso conjunto de grandes figuras cuja presença na política de cada país justifica os nomes de ruas, praças, as estátuas, e cuja marca indelével garante o lugar na galeria de que é feita a nossa História. Porque inovaram, porque souberam dar um passo em frente ou reconhecer um erro, porque ousaram, porque nos trouxeram ideias, regimes, anteciparam futuros.
Penso muito nessa vasta galeria quando olho o momento que vivemos. Tanto penso em Churchill quanto em Vasco da Gama, em Humberto Delgado como em Miterrand, em Helmut Kohl como em Kennedy, em Martin Luther King como em Lech Walesa. E pergunto-me: a História falará de Cavaco Silva? De Durão Barroso? De António Costa? De Santana Lopes? De Pedro Passos Coelho?
Tudo bem, deixemos Portugal de fora. Imaginam referências relevantes a Hollande ou à Sra. Merkel? Acham que as ideias de David Cameron serão estudadas daqui a cem anos? Imaginam Alexis Tsipras a servir de exemplo para uma qualquer teoria? Jean-Claude Juncker existirá nos compêndios?
Vivemos o tempo da governação sem ideias. Um tapa-buracos que abre novos buracos, reformas que anulam e substituem reformas, mudanças que pouco ou nada mudam. Sou sincero: nas últimas dezenas de anos, a única área que vi tornar-se eficaz, assertiva e útil (para saciar a fome do Estado, claro), foi mesmo a dos Impostos. Tudo o resto navegou entre o mais do mesmo ou o remendo que abre outra brecha ao lado. Não imaginava, quando estudei os grandes líderes que fizeram a História do Mundo, viver num tempo de burocratas e gestores, sem políticos e sem ideias.
Talvez por isso me tenha virado mais para os lados da cultura, da criação - onde, apesar de tudo, continua a haver quem nos surpreenda, comova, deixe a pensar. E por aí volto ao começo: David Bowie foi e vai ser a figura destes dias não apenas porque a sua popularidade seja um argumento de venda - mas porque ele nos diz respeito e mexe connosco. Acrescentou algo ao que já existia. E só assim a vida faz sentido.
COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA…
Já aqui falei do Newseum, um museu real sobre jornais e comunicação social, em Washington, mas cujo site é quase tão rico quanto o espaço fisico nos EUA. Agora, e por causa das extraordinárias primeiras páginas que se fizeram, pelo mundo fora, inspiradas na figura de David Bowie, vale a pena recomendar esta secção especifica do Museu, onde diariamente se actualizam perto de mil capas de jornais de todo o Mundo. A descobrir…
Quer estar a par do que é novo? Negócios, ideias, plataformas, apps? Há uma revista que discretamente apareceu no mercado há dois meses, a Start UP, mas cujo conteúdo e edição são bem melhores do que a timidez com que chegou às bancas. Tem edição online, e os dois primeiros números constituem uma promessa de futuro. Assim os seus editores saibam fazer da expressão Start UP algo mais do que uma inspiração…
O que começou por ser um blog feminista dinamizado por duas figuras populares da nossa televisão - Rita Ferro Rodrigues e Iva Domingues - tornou-se, um ano depois, uma associação sem fins lucrativos e uma plataforma feminista aberta a todos. Deixou de se chamar Maria Capaz, agora é abrangente: Capazes. Dizem elas: “O contributo português para esta causa global – o feminismo – afirmando a mulher portuguesa no mundo, dando-lhe poder, incentivando o debate , a reflexão e a discussão e ao mesmo tempo inaugurando uma enorme e luminosa sala de exposições do talento com o holofote apontado para as mulheres. Capazes de tudo. Capazes de muito mais”.
O governo de António Costa tomou posse há quatro dias e já é claro que uma das marcas da nova governação é mudar o que existe, qualquer que seja a área, sem avaliações e sem qualquer debate público. O fim apressado e até atabalhoado dos exames do 4º ano é o pior dos sinais e uma evidência de um dos principais problemas da gestão da coisa pública, leia-se a descontinuidade das políticas. Ou instabilidade. Lá vamos nós outra vez.
Sabemos todos que Nuno Crato tinha as condições para ser o melhor dos ministros e acabou um mandato de quatro anos na Educação – sabe-se lá como é que aguentou toda uma legislatura – de forma penosa. Mudou muito e muitas vezes mal, sobretudo na execução. Porque na política, as ideias, por muito bondosas que sejam, dependem sobretudo da sua eficácia.
Tudo isto não justifica a forma como a nova coligação negativa de Esquerda no Parlamento – e que, como já se percebeu, funcionará como uma espécie de conselho de ministros-sombra que impõe medidas ao verdadeiro conselho de ministros – acabou com uma medida que, para lá de todos os alcances, tinha implícita uma ideia de exigência. Nem isso fica.
Nenhuma medida de política educativa, como aliás em qualquer política, funciona sozinha. Mas, se todos concordamos que é preciso aumentar a exigência de qualidade do ensino em Portugal, particularmente do primeiro ciclo, os exames do 4º ano eram uma das formas de assegurar essa exigência Não era a melhor? Então, que tal avaliar os efeitos perversos que os críticos deste exame apontavam, como os incentivos que seriam dados ao estudo para o exame e não ao estudo contínuo ao longo do ano?
Nada disso, qual avaliação, qual discussão. O Governo ainda não aqueceu o lugar, o ministro das Educação, Tiago Brandão Rodrigues, fora do país há 15 anos, ainda nem saberá o caminho para o seu gabinete e já há mudanças de política educativa. O que se segue? Depois, vê-se. Agora, o que é preciso é mudar o que foi feito. Mesmo que fosse a melhor das medidas, porque as crianças são crianças e não podem ser pressionadas nem nenhuma criança pode ficar para trás (será mesmo o melhor, passar crianças de ano sem a devida preparação?), esta foi a pior forma de a tomar.
António Costa quer aparecer como o ‘político bonzinho’, que chegou para pôr fim às maldades de Passos Coelho e Paulo Portas. O político ‘bonzinho’ desta geração e da próxima. É uma narrativa muito pobre, sobretudo porque Portugal saíu de uma situação de bancarrota. É claro que está a pensar nas próximas eleições, no momento certo para deitar abaixo um governo que está pendurado num acordo frágil, para não dizer outra coisa. E isso dependerá das sondagens, que andarão à boleia das medidas positivas, ou melhor, supostamente positivas, e facilitadoras, se é que isso é o que Portugal precisa.
Nuno Crato – e o governo de coligação anterior – promoveram também este tipo de contra-reforma, quando decidiram sem procurarem consensos, sim. Mas quando um novo governo entra em funções, dispensava-se esse tipo de reação política, do género ‘tu é que começaste’.
Na verdade, é um traço de gestão política. Na economia, na política fiscal, nas causas fraturantes, nas leis laborais, também na educação, aquela área das políticas públicas que deveria ser mais estável e menos sujeita aos ciclos políticos. O que é preciso agora é dar, e ter efeitos positivos, na economia e na imagem do Governo. É mesmo este o novo ciclo do PS?
ESCOLHAS
Paris é, por estes dias, outra vez, a capital do mundo. Aquela imagem de milhares de sapatos, a alternativa a uma manifestação silenciosa numa cidade sitiada pelo terrorismo, é brutal, e ao mesmo tempo tocante. A destruição do clima, outra forma de terrorismo sem mortes violentas no mundo que queremos deixar às próximas gerações. Os valores. Leiam, e ouçam, a reportagem da Rádio Renascença, ‘Paris. Quando a emergência ferve numa cidade descalça’. E acompanhem aqui, no SAPO24, os desenvolvimentos de uma cimeira sobre alterações climáticas que é mais um teste aos entendimentos mundiais.
O mérito é bom. A meritocracia é uma ideia de uma sociedade evoluída. Mas, como acontece em tantas outras situações, nada pior para estragar uma boa ideia – uma ideia com mérito – do que usá-la a pretexto de tudo e de nada e esquecê-la olimpicamente quando efectivamente deve ser invocada.
Os últimos anos foram populados de mérito. A torto e a direito. Nas políticas, nas empresas, na vida social, o termo tem sido usado como prova de progresso civilizacional. Já não somos cabotinos!, quase se escuta em alguns discursos à força de tanto se sublinhar que tudo isto é agora uma questão de mérito. É como se, cada vez que alguém invoca o mérito e a meritocracia, vestisse um manto diáfano ou um colete à prova de balas, dependendo da perspectiva.
Sim, vou querer falar da excitação desta semana referente à nomeação de governantes oriundos de minorias étnicas.
Mas não só.
Recuemos um pouco na História.
A palavra mérito deriva do latim (meritum), mas a introdução do conceito de meritocracia é bem mais recente. Em 1958, o termo emergiu pela mão do politico e sociólogo inglês Michael Young, que o usou pela primeira vez no livro The rise of the meritocracy. Tratava-se de um ensaio satírico e futurista sobre o Reino Unido, projectado como um país governado por pessoas escolhidas pela sua inteligência e aptidão antes de qualquer outra, chamemos-lhe assim, força de pressão. No livro, Michael Young questiona a legitimidade do processo de escolha dominante em Inglaterra para se ser membro da elite que governava, bem como os resultados de uma governação assente neste tipo de grupo de ‘eleitos’. The rise of meritocracy desafia as duas ideias que a palavra elite encerra – a ideia do que existe de melhor numa sociedade (a conotação positiva), mas também a ideia de uma minoria que se auto-nomeia e perpetua (a conotação negativa).
Este inglês, um dos grandes pensadores contemporâneos de políticas sociais, nomeadamente no âmbito da escola como primeiro crivo de quem é bem sucedido ou não, começou por falar de meritocracia pelas piores razões, as que excluem, não as que incluem. Cunhou também expressões como minorias criativas e elites inquietas. Alertou também para os danos colaterais de uma sociedade progressista em que escolhamos quem nos lidera pela inteligência e pelas aptidões. Um homem inteligente não é forçosamente um homem bom ou o melhor … Uma visão avisada, uma espécie de alerta vermelho à arrogância que daí também pode decorrer – e que se aceita como dano como natural. “Qualquer escolha de um é a rejeição de muitos”, escreveu Young.
A ideia de meritocracia tem uma longa história. É identificada como um pensamento de Confúcio e de outros filósofos da época e foi usada a primeira vez no século II a.c., na China, na forma de exames destinados a avaliar o mérito dos funcionários escolhidos para servir o país (neste caso,a Dinastia Han). Uma ideia, vamos admitir, bastante revolucionária para um império – avaliar mérito em vez de escolher simplesmente pela preferência, reverência ou mesmo ascendência.
Da China a ideia chegou à Índia britânica já no século XVII e daí à Europa e aos Estados Unidos. No mundo ocidental, do iluminismo até hoje, da política à vida nas empresas, a ideia de meritocracia tem sido vista como uma linha de divisão entre o Antigo Regime e uma nova concepção de mundo em que o favoritismo e o cabotinismo cedem perante ideias maiores como inteligência, aptidão e esforço.
E aqui estamos nós, em pleno novembro de 2015. Aqui estamos nós, umas semanas depois de um politico canadiano ter sido amplamente elogiado, à esquerda e à direita, pelas suas escolhas de governo (diversificadas, inclusivas). Aqui estamos nós, em Portugal, entretidos de, ao fim de 41 anos de democracia e de 21 – vinte e um! – governos, termos uma primeira mulher e negra como ministra, uma primeira mulher e cega como secretária de Estado e um primeiro governante filho e neto de ciganos.
Não havia como não falar do tema e, contrariamente ao que muitos dizem, não é por causa dos media que se tornou um tema.
Estas são primeiras escolhas, são primeiras vezes. E, como tal, vão ficar na História e assinalam um marco.
Alguns de nós podem sentir-se ligeiramente incomodados com o que esta evolução tardia também diz de nós. Será mesmo credível que nestes 41 anos, nunca nenhum membro de uma minoria tenha tido mérito para ser escolhido para a elite que nos governa?
Outros, pelos vistos, sentiram um arrepio na espinha. As escolhas ditas inclusivas mereceram de vários nossos compatriotas comentários paleolíticos. E estamos em novembro de 2015.
Como falámos tanto da cor da pele, da etnia e da autonomia física isso deve querer dizer que já estamos resolvidos com o tema da inteligência e aptidão como critério de escolha. Isso já deixámos para trás das costas – já não somos cabotinos, lembram-se? Pois, mas parece que também não. Porque há um ministro da Educação que era, até há uns dias, investigador numa das mais prestigiadas universidades do mundo e que protagonizou um dos avanços celebrados em todo o mundo na detecção do cancro. Se há coisa que não deve faltar a Tiago Brandão Rodrigues é inteligência e aptidão. Mas nem por isso deixou de ser uma escolha criticável. Demasiado novo, demasiado inexperiente.
Demasiadas mulheres, falta de mulheres, demasiadas minorias, falta de minorias, demasiado novos, demasiado velhos. Podemos sempre avaliar a escolha de um e a rejeição de outros em regime de quotas.
Pessoalmente, não faço ideia se as escolhas ‘inclusivas’ do Governo de António Costa são boas ou más. Resistirei sempre à ideia de que já são boas porque são minorias. E nunca terei qualquer simpatia com quem se incomoda porque são minorias. Tendo a pensar que, como em outras coisas, o novo primeiro-ministro está demasiado sedento de inundar vários sectores da sociedade de boas notícias, o que me deixa preocupada para o tempo em que chegarem as notícias más ou menos boas. Mas, mais importante que isso, é que – usando uma expressão tão cara ao presidente Cavaco – as deixemos trabalhar. Depois disso podemos falar de mérito e de meritocracia e deixar de falar de cor de pele, ascendência, grau de autonomia física e outras características que não deveriam ser nunca referência para decidir quem governa e quem não governa.
Significado de Mérito
mé.ri.to
características que tornam alguém digno de apreço
aquilo que alguma coisa tem de bom, de apreciável
valor moral e intelectual
aptidão, capacidade
superioridade, excelência
(no Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2015)
OUTRAS IGUALDADES E OUTROS PROBLEMAS
Porque é que as mulheres não conduzem camiões? Ou porque é que tão poucas escolhem ser camionistas. Já não é por razões de força fisíca e este é mais um universo a mudar de forma. A BBC conta como.
De repente, um país que tomos tínhamos como calmo senão mesmo monótono entra pelas notícias e Bruxelas torna-se uma capital sitiada. Afinal de contas, o que é se passa na Bélgica e com a Bélgica? Houve quem falasse de um ‘Estado falhado’, termo que não usaríamos para uma democracia ocidental e que também parece uma declaração manifestamente exagerada.
Nota: Este artigo foi editado às 12h28 de 27 de novembro de 2015.
Nos seus momentos de solidão, o Presidente Cavaco Silva deve seguramente perguntar-se muitas vezes “que mal fiz eu para merecer isto?”…
Havia um generoso numero de respostas certeiras a dar a esta pergunta, mas não vale a pena bater mais em quem já bateu no fundo. Deixemo-lo em paz.
Talvez apenas notar a ironia dos tempos: o homem que sempre quis fazer tudo com rigor e precisão, e que certamente terá sonhado com um final de carreira luminoso, magnânimo, sólido - sai afinal de cena, no fim do seu segundo mandato, pela porta dos fundos, a medo, engolindo sapos, mostrando em definitivo que nunca foi “Presidente de todos os portugueses”, e sem sequer conseguir juntar a admiração dos seus pares. Sócrates ainda arrebanha 500 num almoço que assinala um ano… de prisão! Cavaco nem livre consegue chegar-lhe aos calcanhares.
A ironia não podia ser maior: o derradeiro acto público de Cavaco Silva vai ser dar posse a um Governo caucionado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, com o PS na frente. Como se houvesse alguém lá em cima a mexer os cordelinhos e, numa risadinha diabólica, exclamasse: “agora toma, que é para não voltares a dizer que raramente te enganas e nunca tens dúvidas”… E pelo caminho ainda tem que assistir, na TV, a homenagens a um ex-primeiro-ministro sobre quem paira uma nuvem demasiado pesada, mas não o suficiente para o afastar da ribalta.
O Presidente enganou-se, e viveu na dúvida, dias demais. Não que a solução encontrada seja perfeita, ou duradoura - não estou a ver a base eleitoral do PCP brincar com o serviço quando António Costa fizer o que Bruxelas obriga a fazer -, mas a atitude que Cavaco tomou desde o dia das eleições (ou mesmo os avisos que lançou antes delas…) até à última terça-feira, a tal “birra dos 50 dias”, mostrou-nos de que massa é feito aquele homem e como é possível, em democracia, eleger figuras que se revelam bem diferentes dos exemplos que o regime inspira e convoca.
Aqui chegado, Cavaco dirá sempre que fez o que tinha a fazer (depois de todas as tentativas para fazer o que não devia). E vai sentir um alivio de consciência no lugar do peso que efectivamente devia ter. Não é bonito de se ver.
Não é um final feliz para este Presidente. Não sei se é um bom começo para António Costa. É seguramente um momento infeliz do PCP e do Bloco de Esquerda.
Mas acaba por ser uma lição para todos nós: agora sabemos, e é válido por fim para todos os partidos, que na política não há possíveis nem impossíveis. Há apenas a voragem da ambição - e ela não tem limites. Felizmente, em democracia, a lei trava essa voragem e limita a ambição. Do mal, o menos.
COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA…
A revista francesa Elle estava a preparar a edição que assinala o seu 70º aniversário. Parou tudo, deixou a edição para mais tarde, e produziu uma revista de 64 páginas, sem uma única página de publicidade, dedicada às vitimas dos atentados de Paris e aos seus familiares. É na mesma uma revista feminina - mas mostrou o seu lado mais profundamente humano. O jornalismo será sempre uma profissão maior enquanto houver gente que saiba parar no momento certo e pensar: o que é que estamos aqui a fazer?
Ainda na ressaca dos atentados de Paris e das ameaças em Bruxelas, esta matéria da revista britânica The Economisté talvez a mais exemplar análise jornalística do fenómeno do terrorismo. Porque consegue a fina mistura dos factos com as ideias que eles inspiram. A não perder.
Estreia hoje o “novo” “Leão da Estrela”, agora sob o olhar de Leonel Vieira. A critica já disse mal, como lhe competia. Eu, que sou apenas um espectador, posso dizer que vi o filme e me ri a bom rir. E não sou de riso fácil. Não é um “remake”, é uma excelente homenagem com uma história muito bem reinventada. O Tiago R. Santos também faz parte dos que merecem os parabéns, depois de Leonel Vieira e de um naipe de actores de que é difícil destacar alguém. Todos estão bem. Vá: Miguel Guilherme é genial e Sara Matos é a actriz que vai marcar as próximas décadas no nosso mundo do espectáculo.
São 17 os ministros do novo governo e depois ainda virão os secretários de Estado. Mas nem todos têm a mesma importância. Não se trata de desvalorizar uma ou outra área, trata-se apenas de perceber que os danos e as virtudes que ocorram nas várias pastas não têm o mesmo impacto nas nossas vidas.
Os ministros indicados para as áreas económicas - Mário Centeno nas Finanças, Manuel Caldeira Cabral na Economia, Vieira da Silva na Segurança Social, Pedro Marques nas Obras Públicas, Maria Manuel Leitão Marques na Modernização Administrativa, Capoulas Santos na Agricultura - são sólidos, com as ideias arrumadas e, em vários casos, com provas dadas noutros governos.
Mas, porque continuamos a viver tempos invulgares nas prioridades da governação, entre todos quero destacar Mário Centeno. É dele que vai depender, em grande parte, o sucesso ou insucesso da governação.
Este não é mais um governo, na linha dos que se sucederam nas últimas décadas. Não é apenas mais um governo socialista, com as suas virtudes e defeitos, depois de um governo da direita. Este é um governo refém do apoio permanente e expresso de dois partidos que na sua matriz ideológica e programática têm como objectivo a mudança de regime económico, de uma economia de mercado para uma economia controlada pelo Estado.
Isso faz toda a diferença e não é preciso ser dotado de poderes adivinhatórios para antecipar que é dessa tensões entre duas formas radicalmente diferentes de olhar para a economia e para o papel do Estado que virão as maiores dificuldades para os governantes e para o país.
Mário Centeno estará na primeira linha dessa disputa e é sobre ele que vai recair o encargo de fazer as quadraturas do círculo necessárias para acomodar dentro de um orçamento que cumpra as metas europeias as propostas vindas de quem defende que essas metas europeias não deviam ser cumpridas.
Não vai ser fácil, como já se percebeu pelo arranjo que foi necessário para fazer o acordo com o PCP e o BE. Para acomodar o aumento de despesa das medidas exigidas pelos dois partidos mais à esquerda - sobretudo a antecipação do levantamento de medidas de austeridade que, no programa socialista, deviam ocorrer de forma mais faseada - Centeno teve que abdicar de uma medida emblemática no seu plano económico e financeiro: a descida generalizada da Taxa Social Única para a generalidade dos trabalhadores.
Os orçamentos exigem que as contas sejam realistas e batam certo, de preferência causando os menores danos possíveis para a economia. Em cima disto, os governos ainda querem fazê-los populares: com distribuição de mais despesa e com menos cobrança de impostos. Actualmente, querer fazer o pleno disto tudo é uma impossibilidade política e aritmética.
Mas se fazer orçamentos já é difícil e obriga a decisões duras, pior é executá-os e corrigi-los ao longo do ano. Porque é certo que os desvios vão sempre acontecer e, por regra, são por defeito e não por excesso.
Se o PS está mesmo determinado em cumprir aquilo com que se comprometeu e se aprendeu alguma coisa com a sua governação passada, tem que instaurar uma “ditadura das Finanças”. O contexto orçamental já o exigiria mas a natureza dos parceiros de governação obrigam a reforçar o poder do ministro das Finanças. E este tem que ter toda a determinação no uso desse poder.
Não foi por acaso que José Sócrates acabou de relações cortadas com o seu ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, que responsavelmente colocou o país à frente dos interesses conjunturais do Governo e do PS e forçou o pedido de ajuda externa. Também não foi uma coincidência que no anterior governo Vítor Gaspar tenha saído a meio do mandato e que a maior crise da coligação tenha ocorrido por causa da política orçamental e da nomeação de Maria Luís Albuquerque em sua substituição.
Mário Centeno é tecnicamente sólido e sabe fazer contas. Tem uma abordagem às contas públicas diferente da do governo PSD/CDS mas isso não faz dele um delinquente fiscal. Aliás, se hoje podemos olhar para a política orçamental e perceber alguma margem de manobra para fazer um pouco diferente é porque alguém já fez o trabalho mais “sujo” nos últimos anos, aquele que ninguém gosta de fazer mas que muitas vezes não tem alternativa.
Mas o imperativo de um controlo férreo das contas mantém-se e não será uma boa notícia no dia em que esse fusível queimar. Se queimar.
Outras leituras
A Amazon também já é uma empresa de televisão. Das novas, como a Netflix. Para promover uma série espalhou símbolos nazis em Nova Iorque. Claro que causou polémica. Claro que era isso que a Amazom pretendia.
Há coisas que só valorizamos devidamente quando as perdemos. A saúde é uma delas. A liberdade é outra. E a tolerância também está nessa lista. Nestes tempos de chumbo é bom que a saibamos manter e valorizar.
Lamento, mas não me lembro. O que felizmente me dispensa de manifestações exacerbadas sobre o perigo comunista ou sobre a reacção fascista. Sei o que aconteceu, li nos livros da História, acho que compreendi razoavelmente bem os factos e o contexto da época, mas, desculpem lá, estamos em 2015 e não é desse 25 de Novembro que estou a falar.
O meu 25 de Novembro é o próximo – daqui a exactamente 12 dias – e, na realidade, aquilo que me interessa é mesmo o dia a seguir.
O que é que a acontece a 26 de Novembro? Será o dia em que, na Assembleia da República, serão debatidos dois temas de governação importantes: a reposição dos salários dos funcionários públicos e a redução da sobretaxa do IRS.
As propostas a debater e a votar são apresentadas pelo partido socialista e os dois temas estão na cidade proibida dos acordos das esquerdas. Ou, se quiserem, na sua lista negra – aquela onde estão as coisas para as quais não se encontrou “acordo quanto às condições da sua concretização”, mesmo que exista “convergência quantos aos objectivos a alcançar”.
Ou seja, isto é tudo muito bonito, mas o problema é mesmo governar. O acto da governação, com a sua necessidade de tomar opções concretas por um lado ou por outro, é que na realidade estraga a harmonia das ideias elevadas e dos estados de alma com afinidade. O inferno são os outros, dizia o Sartre; na realidade, o inferno é mesmo a governação.
Só uma breve síntese das propostas sobre estes dois temas:
Sobretaxa do IRS
O PS propõe um corte de 50% em 2016
O PCP e o BE pretendem que seja eliminada com efeitos imediatos
Reposição dos salários dos funcionários públicos
O PS propõe uma redução gradual dos cortes nos salários, começando por 25% no primeiro trimestre de 2016, 50% no segundo trimestre, 75% no terceiro trimestre e repondo totalmente os salários no fim do próximo ano
O Bloco de Esquerda concorda com a reposição gradual dos salários
O PCP pretende que a reposição integral dos salários seja imediata
Claro que, qualquer que seja a opção sobre estas medidas, existirá um impacto nas contas públicas e claro que, como as contas públicas são escrutinadas por Bruxelas no âmbito dos acordos a que voluntariamente nos comprometemos, mais cedo ou mais tarde, os quatro aliados à esquerda vão ter de falar daquele tema delicado que se chama Europa ou política europeia. Na realidade, todos sabem que este é o tema. Todos sabem que de uma forma ou de outra é aqui que tudo começa ou que tudo acaba. Está nos livros, nos filmes e na vida das famílias – a forma como superamos, ou não, os temas-tabu, aquilo de que não se fala porque se antecipa conflito e mesmo ruptura, é exactamente aquilo que irá deixar o registo histórico.
O problema dos próximos meses é que estão cheios de temas espinhosos como estes. Não é por acaso que o PS traz para a frente da agenda legislativa e política temas como a despenalização do aborto ou a adopção por casais do mesmo sexo. Estes são o espaço perfeito de lua de mel, não apenas com os partidos de esquerda, mas com várias camadas da sociedade que se revêem num código de costumes e de valores progressista e não refém de dogmas religiosos ou outros. Como diria o Jorge Jesus: “Costa, isso é peaners”. Vai gerar discussão, vamos voltar a ouvir argumentos absurdos, mas essa é a “good fight” do país da Esquerda onde, imagine-se, se conseguem encontrar inclusive alguns amigos de direita do mesmo lado da barricada.
O problema mesmo é a chatice de governar o país todos os dias. As contas, bolas, as contas. O dinheiro que não chega para tudo. “Eles” – o Estado – que na realidade somos “nós”, todos os nós, e os impostos que pagamos. Como gerir este dinheiro? Vamos governar-nos com o que temos ou vamos mas é pedir dinheiro emprestado porque, e é mesmo verdade, as dívidas gerem-se, como dizia um aluno de Ciência Política muito falado em Portugal. Mas as dívidas também se pagam, enquanto se gerem, e, lá está, governar o país também obriga a contar com isso.
E por muito que toquem os violinos, é aqui, é sobretudo aqui, que saberemos, em Portugal e na Europa, que politicos teremos. Se teremos funcionários da política, motivados quais hamsters pela perpetuação da sua roda de poder, ou se teremos homens e mulheres com coragem para desafiar status quo e encontrar novas soluções e rever velhas regras. É uma batalha muito solitária durante muito tempo e provavelmente uma batalha que mais facilmente faz perder votos do que ganhá-los. Porque para ser feita em consciência implica decisões espinhosas, compromissos difíceis e um enorme sentido de responsabilidade.
Um conhecido meu costumava dizer que no plano ideal todos queremos só duas coisas: paz no mundo e uma casa na praia.
No plano ideal, todos queremos emprego para todos, pensões dignas para todos, impostos justos em que os mais ricos pagam – efectivamente – mais e não se escapam nas malhas da lei, boas escolas, bons serviços de saúde, boas estradas, bons transportes públicos. E sim, porque não, a perspectiva de todos podermos gozar pelo menos uma vez ao ano umas boas férias, mesmo que sem casa de praia.
Todos queremos isto e ainda bem. O bem-estar e o progresso devem ser as razões de fundo de qualquer governo, de qualquer sociedade. O problema é que, pelo meio, é preciso fazer escolhas, contas, leis e isso é muito pouco romântico, dá imenso trabalho e exige garantidamente mais do que acordos de princípio.
No dia 26 de novembro, a “família” de esquerda ainda não vai ter a sua prova de fogo, mas vai experimentar o desconforto de ter de tocar em assuntos de que não se fala à mesa para não estragar o jantar.
“Isto é uma escola ou uma empresa?”, era uma das perguntas que se ouvia nas ruas.
O Papa Francisco propôs esta semana que o telemóvel não fizesse parte da ementa do nosso jantar. Ou seja, que não estivesse à mesa. Decerto muitos, quase todos, concordamos, decerto muitos, quase todos, experimentamos a cedência à tentação – ansiedade? paranóia? – de termos de saber o que outros estão a dizer ou a fazer naqueles minutos em que nos desligamos do mundo. Também por isso, vale a pena ler isto.