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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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E se Trump ganha?

Por: José Couto Nogueira

 

 

O Presidente dos Estados Unidos da América é considerado, com alguma razão, o Homem Mais Poderoso do Mundo. O que poderá acontecer se um megalómano ocupar o lugar?

 

Num ponto concordam os “anti-imperialistas” e os pró-americanos: o Presidente do “Império” e Comandante em Chefe das suas forças armadas tem poderes que se estendem do Pólo Norte ao Sul, e do Alaska à Austrália, passando pelos orientes (Próximo e Médio) e, fatalmente, pela Europa. Também tem influência, já agora, no padrão de vida de 322 milhões de norte-americanos.

 

Portanto não surpreende que as eleições para este cargo superlativo, marcadas para 8 de Novembro, suscitem interesse e ansiedade em todo o mundo. E também não surpreende que uma grande maioria de habitantes desse mundo esteja de cabelos em pé com a perspectiva de que ganhe um homem de estranhos cabelos cor de laranja e ainda mais estranhas ideias quanto ao que fará com o planeta.

 

No complexo sistema constitucional do país, a eleição do presidente é feita indirectamente por um Colégio Eleitoral de 538 representantes dos Estados. Para ser candidato a presidente também é preciso ser escolhido pelos delegados do seu partido, num processo semelhante: os delegados dum estado votam todos no candidato escolhido pelos eleitores do partido nesse estado.

 

Isto é importante para perceber como está a situação nesta altura, princípio de Março. Para conseguir a nomeação pelo Partido Republicano é necessário o voto de 1.237 delegados. Estas eleições, ditas “primárias” são feitas estado a estado, em datas diferentes, o que permite ir avaliando as possibilidades dos candidatos. Trump tem, até agora, 316 delegados, enquanto os senadores pelo Texas, Ted Cruz, tem 226, e o pela Flórida, Marco Rubio, tem 106. Os observadores consideram as próximas primárias de 15 de Março como a última oportunidade para parar Trump. Uma vitória de Rubio em seu Estado natal, a Flórida, levantaria questões sobre a força de Trump, assim como uma vitória de John Kasich, governador de Ohio.

 

Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

O Partido Republicano está muito dividido, e não apenas porque há vários candidatos, mas também porque os seus próceres – os senhores que tradicionalmente determinam quem vai enfrentar o democrata – têm sérias dúvidas de que Trump consiga vencer Hilary Clinton na eleição de Novembro. Trump é um corpo estranho ao partido; não vem das bases, não fez uma carreira política normal e não é controlável. Anunciou a sua candidatura de repente e tem fundos próprios que lhe permitem concorrer sem precisar dos cofres partidários.

 

Por outro lado, Trump tem uma agenda própria, errática, sem as preocupações estratégicas que os velhos republicanos consideram indispensáveis para ser viável. Por exemplo, Mitt Romney e John McCain já vieram publicamente afirmar que ele não é aceitável. Em termos simplistas, é muito mais à direita do que o conjunto do partido, ao mesmo tempo que tem propostas consideradas sacrílegas e delirantes pela filosofia republicana tradicional. A declaração mais recente (há declarações novas todos os dias) foi a aceitação do apoio dos grupos suprematistas brancos – as organizações que defendem a superioridade da raça ariana e querem eliminar (fisicamente ou por expulsão) todos os negros, hispânicos, muçulmanos e demais minorias. Estes grupos não só são moralmente inaceitáveis como politicamente inviáveis – ou seja, o apoio deles é uma espécie de beijo da morte para qualquer candidato. Mas é indiscutível que Trump tem muitos apoiantes e que, se nada se fizer, ganhará a candidatura.

 

Para nós, europeus, que temos outros problemas, receios e preconceitos, é difícil perceber porque Trump faz tanto sucesso. Dizer que os americanos são estúpidos, racistas, imperialistas, etc. é uma opinião ideológica que não explica nada. A opção por Trump tem a ver com angústias profundas da sociedade americana que se têm agudizado nos últimos anos a um nível quase paranóico.

 

Os conservadores – chamemos assim ao conjunto muito díspar de pessoas que consideram que os valores e a qualidade de vida estão seriamente ameaçados – sentem que o país já não lhes pertence. Aquele país ideal, que talvez nunca tenha existido mas sempre foi uma possibilidade, em que os imigrantes eram servis e invisíveis, o trabalho abundante, a diferença entre ricos e pobres ultrapassável – qualquer pobre poderia vir a ser rico – a homossexualidade não tinha direito de cidade e a criminalidade estava contida, esse país está a desmoronar.

 

Aquilo a que eles chamam de “valores” – as religiões cristãs, a família nuclear, a ascensão pelo mérito – estão a perder-se. No mundo, a América é desafiada pela China e achincalhada pela Rússia, e não consegue ganhar nenhuma guerra em que se mete; em casa, a criminalidade e a pobreza aumentam a olhos vistos, até o Presidente é negro e o Estado cada vez mais policial. Há uma sombra sinistra que se espalha pelo céu azul dos valores certos e estabelecidos, como que a anunciar o Armagedão.

 

Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia

 

Portanto, um homem que tem instintos básicos para identificar todos os perigos e fulminar todos os demónios, com instinto mediático e sem medo de dizer o que pensa, parece o redentor que vai afastar as dúvidas, o relativismo moral e os marginais que estão a destruir o país. Um homem que vai expulsar os indesejáveis que atulham o mercado de trabalho, falar de cima para baixo aos chinocas e comunistóides, e pulverizar os terroristas islâmicos que os querem matar a todos, violar as mulheres e obrigá-los a uma religião infame.

 

A outra variável que perturba os velhos republicanos é a falta de candidatos credíveis. Tanto Marco Rubio como Ted Cruz, os dois que ainda restam na corrida, são fracos. Têm os valores certos, mas não convencem. Rubio é um cristão devoto, quase medieval, com um discurso desactualizado que nem consegue ser percebido pela população urbana. Além disso já mudou de ideias em questões fundamentais, como a imigração, conforme pensa no que o eleitorado quer. Ted Cruz é detestado pelos seus colegas senadores, que o vêem como um manipulador barato cuja palavra não vale um caracol. Ou seja, por mais perigoso e impalatável que Trump seja, o establishement republicano não preparou a tempo nenhum outro candidato com massa crítica e ideias aceitáveis que lhe possa fazer frente.

 

Finalmente, há que levar em conta que os grandes financiadores do Partido Republicano são os irmãos Koch, donos da segunda maior empresa privada dos Estados Unidos (petróleo, produtos químicos, plásticos, etc), e Sheldon Adelson, dono de casinos no Nevada e em Macau. Para estes senhores, as mudanças climáticas são uma treta, um sistema de segurança social uma pouca-vergonha e os ricos não deviam pagar impostos, porque são os ricos que impulsionam a economia. Embora Trump seja demasiado obsceno para os seus pontos de vista, certamente que preferem por os seus milhões nele perante o perigo doutro mandato democrata. Os republicanos mais moderados não se podem permitir a contrariar Koch e Adelson, que contam com mais de 50 por cento do financiamento do partido.

 

Pois é, o Partido Republicano está numa encruzilhada. O que quer dizer que os Estados Unidos também estão, uma vez que o equilíbrio entre os dois partidos tradicionais tem sido, há duzentos anos, o equilíbrio do sistema político. Se perder vergonhosamente, haverá uma hegemonia excessiva dos democratas, o que não é bom – os democratas também não são nenhuns santos, mas isso é outra conversa. Se ganhar, a terceira Guerra Mundial será uma possibilidade mais séria, para não falar nas iniquidades que ocorrerão nos Estados Unidos.

 

Então, se os Estados Unidos estão numa encruzilhada, o que será de nós, europeus, que também não estamos a saber governar-nos?

 

Num mundo ideal, todo o planeta poderia votar para a presidência norte-americana, já que lhe sofre as consequências.

 

O que vale é que a colonização da Lua está em andamento.

 

 

publicado às 10:22

O que é que fizeram ao Grand Old Party?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Nas primárias do Partido Republicano, realizadas esta semana no Iowa, muitos não se terão dado conta da importância da luta por aquilo a que os norte-americanos chamam o 'idiot vote'. Normalmente mais alinhado com as ideias de Donald Trump, a verdade é que a estratégia de Ted Cruz conseguiu dividir as hostes dessa importante facção de apoiantes do GOP.

 

O número crescente de cidadãos que não conseguem perceber palavras com mais de três sílabas, ou que não distinguem um facto de uma brincadeira, trouxe para os estados-maiores dos republicanos a necessidade de mudar um pouco o discurso e a estratégia de angariação de votos naquele que é, tradicionalmente, o primeiro 'caucus' estadual para indigitação do candidato à presidência dos Estados Unidos.

Segundo os observadores e a própria máquina de Ted Cruz, o senador do Texas começou recentemente a usar frases mais curtas e ideias sensacionalistas, não se coibindo de dizer algo e o seu contrário, numa tentativa de reganhar a liderança do seu eleitorado, que em parte estava a fugir para o lado de Donald Trump. Parece que está a conseguir – no 'caucus' de Iowa, Cruz bateu Trump e forçou até à desistência de Mick Huckabee, uma dos poucos pré-candidatos republicanos que é normalmente referido pelos comentadores e 'opinion makers' como moderado.

 

Mas não foi sempre assim. Longe de se bater pelo voto dos 'idiot', o Partido Republicano tem na sua história algumas das maiores façanhas e conquistas de que os Estados Unidos da América se podem orgulhar. Não sendo um partido fundador do País, ao contrário do Democrático, a verdade é que a partir do dia 20 de Março de 1854, data da sua fundação no Wisconsin, cobre de glória os herdeiros dos 'whigs' e dos 'free soldiers' que lhe deram vida.

 

O Grand Old Party (GOP), nome por que é conhecido desde há muito, teve como primeiro presidente eleito Abraham Lincoln. Nas suas hostes pioneiras acampavam os activistas da abolição da escravatura, os defensores das minorias e do primado da lei.

 

Algures no início do século passado, começou a ter à sua frente médios e grandes proprietários que, abolida a escravatura, reganharam ao sul latifundiário as prerrogativas de mais ricos da América. A alta finança do nordeste substituiu os 'land owners', os protestantes pietistas e radiciais afastaram muitos católicos e anglicanos, e a dada altura os republicanos confundiram-se com o proibicionismo dos anos 20.

 

Mas foi o 'new deal' do democrata Franklin Roosevelt que começou a afastar os moderados da mais alta hierarquia do Partido Republicano. Entre o liberalismo social e as prerrogativas dos trabalhadores, passando pelo aumento de impostos para as classes altas e a maior intervenção do Estado na economia, os defensores das minorias passaram a ser.... defensores da minoria mais abastada.

 

Dominados pelo puritanismo, desconfiados do Plano Marshall e do advento da NATO, os republicanos fecharam-se, e só o enorme carisma de Dwight Eisenhower lhes permitiu furar a primazia que os democratas tiveram, na Casa Branca, durante quase quarenta anos.

 

Mas se depois de Nixon e dos escândalos de corrupção – Watergate incluído – os liberais praticamente desapareceram do Partido Republicano, é com o advento de Ronald Reagan que a linha dura se impõe de forma definitiva. O partido de Abraham Lincoln e de Nelson Rockfeller – considerado o último 'gentleman' do GOP – perdeu para os Ron Paul, os George W. Bush, as Sarah Palin ou... os Donald Trump.

Em média, os eleitores republicanos estudam mais anos que os democratas. Mas nos graus mais elevados de ensino, incluindo licenciaturas, mestrados e doutoramentos, os democratas lideram. Há mais mulheres entre os 'dems', mais negros e... menos 'idiot votes'. Mas Barack Obama baralhou as contas no que concerne a este último item. Não foram encontrados estudos que expliquem porquê.

 

A força dos evangélicos radicais, a par com a influência do 'Tea Party' – muito para além do número, exclusivista, dos seus membros efectivos -, ultrapassou a perda gradual de penetração na classe média-alta, que costumava votar mais republicano. Não há inocentes neste palco – os abastados da Nova Inglaterra vivem bastante bem a coberto dos orçamentos federais altos que os democratas costumam instituir.

 

Nos anos mais recentes, contudo, os teóricos coincidem em afirmar que os 'parolos' passaram a perna aos 'requintados' e 'sofisticados' que costumavam dominar o Grand Old Party. A televisão – sempre ela – é apontada como um dos principais factores de substituição, ao alcandorar figuras como Donald Trump ou ao deliciar-se com as 'gaffes' de George W. Bush ou Sarah Palin. A ideia é que o 'idiot vote' se ri das bacoradas mas não as critica, antes tenta seguir-lhes os passos e fazer a sua vida de acordo com elas. O factor 'reality show' prospera.

Mas há coisas mais sérias. Pessoas como Mike Lofgren, um ex-congressista eleito pelo Partido Republicano, afirmam que há quem, do lado do GOP, tenha uma estratégia para denegrir as instituições democráticas da Nação, estando nomeadamente a pôr em causa uma tradição muita anglo-saxónica segundo a qual quem perde o faz com 'fair-play'. Na verdade, não era comum asssistir, como no caso recente de John Boehner, a afirmações de que a 'luta continua' após a derrota. O 'speaker' [presidente] da Câmara de Representantes referia-se ao 'Obama Care', após a sua passagem apesar dos votos contra da maioria dos republicanos.

 

E aqui chegamos àquilo que muitos consideram ser a maior viragem da história – fértil em volte-faces ela própria – do Partido Republicano. Populista em vez de conservador, alinhado pelos 'sound-bites' de Trump e Palin. Isto num país onde uma recente sondagem dava conta de que os eleitores republicanos ficaram defraudados por, num debate entre Ted Cruz e Donald Trump, os candidatos não terem andado à pancada.

 

Voltamos ao 'idiot vote'. Pouco antes de George W. Bush ter ganho as eleições a John Kerry, uma sondagem lembrou-se de fazer a pergunta: 'com qual deles gostaria de tomar uma cerveja?' Bush 'junior' ganhou por larga margem. Mas como avança Charles P. Pierce, no seu recente livro 'Idiot America – How Stupidity Became a Virtue in the Land of The Free', 'a quantos desconhecidos com quem tomou uma cerveja você entregaria os códigos de lançamento da bomba atómica?'

 

Mas não tiremos conclusões precipitadas, nem queiramos fazer paralelismos com o que acontece na Europa. Afinal, os norte-amercianos são tão diferentes que a cor dominante do Partido Republicano é o vermelho e a do Partido Democrático é o azul. Coisas deles...

publicado às 10:30

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